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                                                Reportagem em Luanda

(Se este texto tivesse banda sonora, seria este aviso afro-house a João Lourenço, que no sábado passado se ouviu nas ruas para assinalar os seus três anos de poder)

O pedido é claro: “Por favor não escreva o meu nome. Ainda me matam”. O homem cala-se para ouvir a mulher que se aproximou sem ele perceber.”Madrinha, dá-me o teu ‘bidon'”. Quer a garrafa de plástico vazia que a jornalista tem na mão. É esse o seu sustento. Por dia, consegue juntar um saco delas, depois vende-as para “sumo de múcua [fruto do embondeiro] e outros…”. O que lhe vale 300 kwanzas (40 cêntimos). “Não chega para dar de comer à família, uma caixa de coxa de frango [congelada e de 10 kg] custa 9 mil kwanzas [12 euros]”, encolhe os ombros, o rosto fechado.

Conseguido o que queria, explica como a vida está “muito pior desde que o Zédu [alcunha dada a José Eduardo dos Santos] foi embora” para logo a seguir desanuviar a expressão com um sorriso reconciliador: “Vou ver esse mar maravilhoso que o Nosso Senhor nos deu”. O ex-tanquista das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, o exército do MPLA de 1974 a 1991) vê-a afastar-se e retoma o raciocínio posto em pausa. Duplica a ideia: “Ouviu bem. Não escreva o meu nome”. Mas porquê tanto medo, se a liberdade de expressão é uma das garantias que João Lourenço  trouxe? “Não é bem assim, as pessoas mudaram, mas o sistema é o mesmo, as práticas não se transformaram muito.”

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