Sob o mote “Quem vê caras não vê doença mental”, este projeto da Janssen, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson, e líder de investigação a nível mundial, pretende abordar doenças do foro mental destruindo preconceitos de forma conceptualmente original. Desafiámos oito interlocutores a darem voz à história de quatro personalidades bem conhecidas de todos: Chester Bennington, Robin Williams, John Nash e Vincent Van Gogh. Pretende-se que, através deste projeto, se descortinem estados problemáticos associados à depressão e à esquizofrenia, de forma a partilhar informação sobre o acompanhamento eficaz dos doentes, o tratamento das patologias e, acima de tudo, capacitar e empoderar a sociedade para que seja cada vez mais mais inclusiva e compreenda as doenças mentais e sobre elas saiba melhor agir.

Depressão. Os desafios de Chester

A notícia de que o mundo perdera Chester Bennington, vítima de suicídio, no dia 20 de julho de 2017, chamou novamente a atenção para o um problema que deve ser falado e debatido: a depressão, que quando não tratada, pode tornar-se numa doença psiquiátrica grave que pode levar a desfechos trágicos.

Numa das entrevistas mais vulneráveis que Chester deu antes da sua morte, foram as seguintes palavras que deixaram o seu entrevistador apreensivo: “Este sítio aqui, entre as minhas orelhas (diz, enquanto aponta para a sua cabeça) é um bairro problemático e eu não devo estar lá dentro sozinho. É uma loucura. E quando estou lá, a minha vida fica confusa. Há um Chester diferente que me quer derrubar”. Em reação a esse pedaço da entrevista, o Professor João Bessa, psiquiatra e Membro da direção da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, especialista que convidámos para participar no vídeo, comentou que o artista “sentia-se sozinho com os seus pensamentos, com o seu sofrimento. Esse desamparo, vamos chamar-lhe assim, quando estas pessoas estão num episódio depressivo, acaba por estar muito relacionado com as respostas que depois montam”.

Há décadas que eram conhecidos os desafios que Chester Bennington enfrentava com recorrentes abusos de substâncias como álcool e drogas, períodos em clínicas de reabilitação e episódios depressivos. O vocalista dos Linkin Park nunca se coibiu de partilhar as suas angústias em entrevistas ou mesmo nas letras das suas canções. “Honestamente, quem sabe um bocadinho do que é esta vida, sabe que não estamos assim todos tão livres de acontecer com alguém próximo”, comenta Hélio Morais, músico e baterista das bandas Linda Martini e PAUS, e o segundo convidado do nosso vídeo. O artista português explica ainda que a vida de um músico “acaba por ser muito exigente no ponto de vista das dinâmicas que vão desde os concertos, às exigências comerciais, aos tours, às gravações, e à pressão que há na exposição pública que acontece com estes artistas”. Para Hélio, é essencial ter uma rede de apoio emocional grande para conseguir lidar com inseguranças ou medos ou até coisas que não corram tão bem, que surgem deste estilo de vida. “Um artista que passe o tempo constantemente em tour pode perder-se porque está mais tempo sozinho”, sublinha, acrescentando que o  suicídio de Bennington veio “mostrar-nos que precisamos de mentalizar-nos do seguinte: pessoas bastante funcionais podem internamente precisar de ajuda”.

Esta doença não escolhe alturas, não escolhe estatutos, não escolhe cores de pele e pode afetar qualquer pessoa à nossa volta: o sorriso do vizinho pode esconder uma tristeza difícil de lidar, a alegria da nossa irmã pode ser estrategicamente colada no rosto para que ninguém dê pelos sentimentos de desesperança que sente durante a noite, o nosso melhor amigo diz que lhe apetece estar sozinho mais vezes do que é habitual. O estigma existe e já não deveria existir: esta patologia pode não ser visível como um braço partido, mas pode viver em qualquer um de nós e pode ser fatal.

Que doença é esta, afinal?

Portugal é o segundo país da Europa com maior prevalência de perturbações psiquiátricas que afetam quase um quinto da população, na qual a depressão se insere, a par de outras patologias. Em cada dez portugueses, dois sofrem de uma doença mental.

Esta é uma doença grave, responsável por criar sentimentos de desesperança, tristeza profunda, ausência de ânimo, oscilações de humor, sintomas quase sempre associados a um sofrimento intenso e, por conseguinte, resulta numa profunda disrupção da vida do doente, tanto a nível pessoal, como familiar, social e profissional. Embora comum, e com sensações que muitas vezes podem ser confundidas com tristeza, quando isso acontece de forma prolongada, gerando incapacidade no dia-a-dia, é necessário procurar tratamento especializado. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a depressão é um dos principais problemas de saúde no mundo desenvolvido: estima-se que uma em cada quatro mulheres e um em cada dez homens possam desenvolver crises de depressão durante alguma fase das suas vidas. As crianças também não estão livres desta doença. Apesar de não existirem dados concretos em relação a Portugal, estima-se que 2 a 3% de homens e 5 a 9% de mulheres sofram de formas graves desta patologia e valores superiores a 20% para manifestações ligeiras da doença. É importante referir que a depressão afeta, ao longo da vida, cerca de 20% da população portuguesa e é apontada como a segunda causa de perda de anos de vida saudáveis.

Uma doença difícil de entender

O psiquiatra João Bessa refere que é necessário perceber que existe uma distinção entre aquilo que concebemos como saúde mental, que diz respeito ao nosso bem-estar e que, em alguns momentos e mediante certas circunstâncias, pode gerar em qualquer um de nós sentimentos negativos e de sofrimento, mas que isso não significa que esteja em causa uma doença mental. Uma doença mental é um estado relativamente permanente no tempo e que causa um impacto funcional enorme e isso significa que a pessoa que padece desta doença deixa de conseguir sair de casa, por exemplo, para ir às aulas ou ao trabalho, deixa de conseguir relacionar-se com os outros, deixa de se alimentar ou de dormir, como habitualmente fazia. O apelo é necessário: “quando isto acontece de forma permanente, prolongada, e com grande sofrimento, não há dúvida que a pessoa deve ser motivada a procurar essa ajuda e quem está de perto deve fazê-lo de forma muito diretiva para que isso aconteça”.

A depressão é uma patologia psiquiátrica e médica como outra qualquer, no sentido que é eminentemente orgânica e cerebral, e independente da vontade da pessoa e das suas características. Contudo, existe uma expressão desta doença que é muito rica no que diz respeito aos pensamentos, às emoções, aos comportamentos, que é muito difícil de perceber de fora. O membro da direção da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental refere que “há uma certa tendência a estigmatizar este tipo de problemas como sendo algo relacionado com a vontade do próprio ou com a incapacidade de gerir o dia a dia ou com a fragilidade, o que está longe de corresponder à verdade”. O profissional de saúde explica ainda que “muitas vezes são as personalidades mais fortes, mais vincadas, mais enérgicas e com mais capacidade, que sofrem deste tipo de problemas. Portanto é uma ideia completamente errada achar que ter uma doença mental é sinónimo de fraqueza ou fragilidade”.

Hélio julga que quando estes casos mediáticos acontecem, “o que se pode fazer a seguir é mostrar precisamente que a saúde mental é uma questão séria”, e que “os consumos em excesso [associados, por vezes, ao mundo artístico] podem desencadear potenciais surtos, podem potenciar estados depressivos, e uma série de coisas menos boas emocionalmente e psicologicamente”.

“É importante falar-se destas coisas e se calhar mostrar-se redes de apoio, e se calhar fazer-se mais prevenção de saúde mental, porque é uma coisa importante, nas escolas por exemplo”, sugere o baterista português. De qualquer forma, Hélio Morais destaca que “mais do que tratar disto ou fazer disto uma questão artística, é fazer disto uma questão humana, porque isto é transversal a todas as profissões”.

O tratamento é essencial

Em Portugal, as perturbações mentais são uma das principais causas da incapacidade produtiva o que se traduz, por exemplo, no elevado número de baixas médicas no trabalho. O suicídio é uma das principais causa de morte em pessoas com doença mental, e estima-se que seja responsável por uma morte a cada quarenta segundos. Contudo, como vários especialistas têm vindo a alertar, a área da saúde mental é uma das áreas da saúde pública mais negligenciadas: o último estudo epidemiológico nacional de saúde mental refere que apenas 33% das pessoas diagnosticadas receberam cuidados adequados.

Na história do tratamento das perturbações psiquiátricas, houve marcos terapêuticos muito importantes na área da depressão. Após uma visão da psiquiatria mais psicanalítica e de psicoterapia, que ajudaram o doente em encontrar estratégias para lidar com o sofrimento e de ultrapassá-lo, surgiram algumas estratégias terapêuticas farmacológicas, por volta dos anos 50. João Bessa acredita que a inovação na psicoterapia, que tem evoluído nas áreas da psicofarmacologia e da neuroestimulação, pode vir a trazer benefícios muito grandes para o tratamento deste tipo de doenças e a recuperação e inclusão social destes doentes.

Saiba mais sobre este projeto em https://observador.pt/seccao/observador-lab/saude-mental-janssen/