Mark Carney discursa esta quinta-feira no Parlamento Europeu, em Estrasburgo e a 20 de setembro encontra-se com Emmanuel Macron em Saint-Pierre-et-Miquelon, o arquipélago francês ao largo da Terra Nova, na primeira visita de sempre de um chefe de governo canadiano àquele território. Não poderia ser mais inequívoca a pantomima às portas do Canadá, como que por magia a “denunciar” a hegemonia do americano sobre o hemisfério Ocidental com resquícios coloniais de que La France, l’alliée de toujours de l’Amérique, também faz parte dessa parte do Globo. Provavelmente porque o Presidente McKinley e o seu sucessor Roosevelt se esqueceram das ilhas e/ou porque sempre acharam por bem ter a França por aliado histórico.
No domingo, o Wall Street Journal noticiou que Carney estaria a explorar a possibilidade de o Canadá se tornar membro associado da União Europeia, um estatuto inexistente e que Bruxelas estaria disponível para inventar. A reação interna foi de tal ordem que o Carney foi obrigado a corrigir o equívoco em menos de 24 horas: que se trata afinal de construir uma aliança única. Presunção e água benta cada qual toma a que quer…
No primeiro semestre de 2026, o Canadá exportou 214,8 mil milhões de dólares em bens para os Estados Unidos, o equivalente a 68% do total das suas exportações de mercadorias. A União Europeia ficou-se por 5,3% e a China por 5%. O Reino Unido aparece em segundo lugar com 9,2%, que o próprio INE Canadiano estima o valor inflacionado pelas transações de metais preciosos. Na direção inversa, o Conselho Europeu regista que a UE representa 8,7% do comércio canadiano, enquanto o Canadá é o 12.º parceiro comercial dos europeus.
Dito de outro modo: propõe-se substituir o mercado que absorve dois terços da produção exportável do país por um bloco que representa menos de um décimo do seu comércio, e Carney apresenta a intenção como estratégica.
O CETA, o acordo comercial entre a UE e o Canadá, está em vigor provisório desde 2017, prontamente ratificado por Portugal a 20 de Setembro desse mesmo ano, mas continua sujeito à aprovação de vários Estados-membros quase uma década depois de ter sido assinado.
A União Europeia não consegue concluir aquilo que já prometeu ao Canadá, mas discute-se agora um figurino jurídico inédito, pensado por Friedrich Merz originalmente para Kiev, e reciclado à pressa para ser usado por Otava.
O que se vê é Carney a hastear a bandeira contra o vizinho a sul, mas o que não se vê (que Bastiat nos ensinou a perscrutar) é o custo de reencaminhar fluxos físicos contra a geografia: dos oleodutos, das redes elétricas e dos caminhos de ferro canadianos que correm de norte para sul, sedimentados ao longo de setenta anos e de 8900 quilómetros de fronteira comum. Nenhum cabo submarino corrige a latitude. Cada dólar desviado para infraestruturas transatlânticas é um dólar que não financia produtividade, e o contribuinte canadiano pagará essa conta muito depois de Carney e os globalistas terem passado o testemunho.
O homem que passou a vida a gerir o Banco Central do Canadá e depois o de Inglaterra, acredita que um sistema de trocas se desenha numa cimeira. Mas as relações comerciais são ordem espontânea de Hayek, resultado de milhões de decisões descentralizadas tomadas por quem arrisca capital próprio. Não se decreta um parceiro comercial. Ou existem ou são utopia.
Carney não está a maximizar o rendimento do canadiano médio. Está a maximizar capital político num ciclo eleitoral.
O custo já começou a materializar-se, pois as tarifas americanas de 50% a cobrir sensivelmente 5% das exportações canadianas destinadas aos Estados Unidos, e ainda assim o Bank of Montreal estima que possam retirar meio ponto percentual ao crescimento do produto: o preço da escaramuça; imaginemos como poderia ficar o preço duma reorientação estrutural?
A Noruega recusou a adesão europeia por duas vezes, e a Islândia, consultada a 29 de agosto, votou contra reabrir sequer as negociações, 52,8% contra 47,2% com 82,5% de afluência, como gato escaldado de água fria tem medo. Ambas perceberam a mesma coisa simples: é possível manter uma relação económica próxima com a Europa sem entregar autonomia regulatória ao “politburo” da EU(SSR) em Bruxelas. Carney propõe exatamente o inverso, obrigações europeias e harmonização normativa em troca de acesso a mercados que jamais poderão replicar aquilo que a geografia ofereceu ao Canadá de graça.
Até que ponto os globalistas estão dispostos a ir para tentar travar Trump!?
A Dolores Ibárruri que me perdoe, mas serve que nem uma luva: No pasarán…
¡Viva la Libertad, Carajo!