Cerdeira – Home for Creativity

Cerdeira, Lousã. 911 789 605, 239 160 799. Estadia a partir de 90€ (mínimo 2 noites)

Vista da estrada de acesso, a aldeia parece uma pintura, com as casinhas e caminhos de pedra completamente integrados no vale. Uma pintura onde se pode entrar, dormir, comer e ir buscar água à fonte.

Há 35 anos, o cenário era muito diferente e a Cerdeira era mais uma aldeia do interior em risco de desaparecer. Kerstin Thomas e Bernard Langer deram com as ruínas durante uma caminhada pela serra da Lousã e apaixonaram-se por este “lugar encantado”, criado há cerca de 300 anos por agricultores e entretanto deixado ao abandono. Da paixão nasceu um projeto de vida: encontrar os proprietários e recuperar as casas de xisto, uma a uma.

Todas as casas que foram recuperadas estão preparadas para estadias longas e têm aquecimento central. © Jorge Vieira

Em 2012, com a ajuda de um outro casal – Natália e José Serra –, nascia a Cerdeira Village, uma “unidade de turismo criativo” rebatizada entretanto como Cerdeira – Home for Creativity. Ao todo são nove casas de xisto preparadas para estadias longas, com capacidade para duas a seis pessoas e o grande lema “tradição com conforto”. Todas foram recuperadas com técnicas locais e equipadas com cozinha, aquecimento central e salamandra. Há jogos e livros em vez de televisão, e na bancada uma bilha de barro deixa o convite: “vamos à fonte?”. A dita fonte fica a uma curta caminhada a pé, junto à piscina natural da aldeia – uma espécie de tanque feito em pedra, como quase tudo.

Como não podia deixar de ser numa aldeia pequena, há um café central – neste caso chamado Café da Videira – onde são servidos os pequenos-almoços e também algumas refeições ligeiras. É a única zona da Cerdeira onde se pode ter acesso a wi-fi gratuito. No entanto, e como se lê na ardósia, só vale pedir a password “depois de 30 minutos de conversa”.

Para além de proporcionar contacto com a natureza, a aldeia organiza ainda várias experiências criativas. © Cerdeira

Kerstin Thomas é artista e por isso todo o projeto foi pensado para proporcionar experiências criativas e receber retiros. Para além de um calendário regular de workshops, os hóspedes podem inscrever-se em diferentes atividades no momento da reserva, atividades essas perfeitas para partilhar com crianças: oficina de brinquedos de madeira, compota em família, casinhas de xisto em miniatura ou ainda iniciação à roda de oleiro. Na aldeia há mesmo um forno de cozer cerâmica único em Portugal, feito sob orientação de um mestre japonês e que não deita fumo. Há também um compostor para os resíduos orgânicos e um sistema de reciclagem, sendo que cada hóspede é responsável por levar o seu lixo no momento da partida. Gestos essenciais para continuar a cuidar bem da aldeia. E não borrar a pintura.

Ohai Nazará

Estrada Nacional 242, Nazaré. 262 561 800. Estadia a partir de 59€.

Chegado à bonita idade dos 30 anos, o antigo parque de campismo Vale Paraíso fez um lifting. As piscinas passaram a três, os bungalows tornaram-se autênticas casas modulares e – o que aqui nos trouxe – as antigas tendas foram substituídas por uma zona de glamping nas dunas.

Glamping foi a palavra que se inventou para falar de uma nova experiência de campismo com glamour. Ou seja, campismo com conforto, onde é possível ter o melhor da experiência – acordar com os passarinhos, ouvir o vento contra a tenda, trocar a chave pelo fecho éclair e até mesmo aceitar que o nascer do sol vai servir de despertador –, com direito a todas as comodidades de um pequeno apartamento: casa de banho, ar condicionado, wi-fi e cozinha.

Algumas tendas estão elevadas com estacas. Os miúdos chama-lhes casas na árvore. © Jorge Vieira

No Ohai Nazaré – sim, o lifting implicou também uma mudança de nome – há 37 glampings, sete deles com capacidade para seis pessoas, graças ao beliche extra, os restantes 30 para famílias de quatro, com aproveitamento de uma mezzanine. Algumas tendas estão elevadas em estacas de madeira – os miúdos chamam-lhes casas na árvore –, todas têm um alpendre com deck de madeira e, surpresa, nenhuma tem televisão porque a ideia é mesmo aproveitar a natureza. Afinal, são oito hectares em plena reserva natural do pinhal de Leiria, a três quilómetros da praia da Nazaré e a quatro da praia do Norte (a do famoso canhão surfado por Garrett McNamara).

As tendas dão para quatro a seis pessoas, graças ao beliche e à cama em mezzanine. © Jorge Vieira

Embora continue a ter chalets e parcelas para caravanas, o novo Ohai quer ser, mais do que um parque de campismo, um resort vocacionado para famílias. Nas obras intensivas dos últimos meses apostou-se mesmo numa série de novas infraestruturas: um parque aquático com escorregas; uma sala de convívio com brinquedos para crianças e consolas para adolescentes; uma zona desportiva com slide, campos de padel, vólei, futebol e petanca; um restaurante mais generoso, com direito a esplanada estrategicamente virada para o novo parque infantil; uma oferta extensa de bungalows em madeira (quase 100); e, finalmente, um trio completo de piscinas – uma interior com jacuzzi, uma infantil com cogumelos e uma exterior, climatizada, em que o chão foi nivelado de um dos lados para dar a sensação de entrar no mar. É caso para dizer: “oh!” “ai!”, diversão não falta.

As piscinas incluem também um parque aquático. © Ohai Nazaré

Sea’Ya EA– Family Surf Houses

Rua Palmeira, 17, Cascais. 961 381 833. Estadia a partir de 80€

Maria Saldanha Daun e António Monteiro estavam fartos de quartos de hotel com pouco espaço e muita logística: “Temos dois filhos, com 4 e 8 anos, e sempre passeámos muito em família, nem sempre nas melhores condições. Por isso, resolvemos agarrar nas nossas dores e arranjar soluções para elas.”

Às dores de quem viaja com crianças juntavam-se as dores de um surfista, demasiadas vezes “sem ter onde lavar o fato ou pôr a prancha”. Isto explica que no novo Sea’Ya, aberto em novembro na aldeia da Charneca, haja uma mangueira de pressão logo à entrada, suportes para pranchas nos terraços e espaço de sobra para chegar e lavar as velas – afinal, a praia do Guincho fica a menos de dois quilómetros de distância.

As três villas foram pensadas para quem viaja com crianças e gosta de surfar. Todas têm terraço, suportes para pranchas e duche exterior com água quente. © Sea’Ya

Na parte das dores familiares, a coisa não foi feita por menos, e a ideia é mesmo que quem viaja com filhos não tenha de levar nada. Cama de grades? Há. Alcofa? Idem. E o mesmo para uma lista infindável de apetrechos: carrinho, banheira, redutor de sanita, barras para a cama, espreguiçadeira, intercomunicador, brinquedos ecológicos, cadeira de refeição, pratos e talheres, gel de banho de criança, detergente próprio para biberões, e até uma mochila para levar os mais pequenos em caminhadas. Tudo com um design cuidado e sem bonecadas, e disponível conforme fizer sentido: “As casas são adaptadas a cada família e os acessórios selecionados para a idade da criança que vem”, explica Maria Saldanha Daun. “Da mesma forma, se vier um casal sem filhos, não há vestígios de nada disto. É tailor made.”

Cada uma das três villas foi batizada com o nome das praias vizinhas, e o nome dá uma pista acerca do tamanho: há a villa Guincho (a maior, com capacidade para seis pessoas), a Cresmina (média) e a Abano (a mais pequena, para um máximo de três hóspedes). Todas estão equipadas com cozinha, têm terraço e duche de água quente no exterior e foram decoradas com materiais naturais e uma preocupação ecológica. Opção para grupos numerosos: reservar as três casas e ficar com o alojamento em exclusivo.

© Sea’Ya

Pensado para famílias que gostam do mar e da natureza, o Sea’Ya tem também disponíveis, por marcação, uma série de atividades ao ar livre, desde passeios a cavalo no picadeiro vizinho, caminhadas guiadas pela Guincho Outdoor, aulas de surf e stand up paddle ou ainda aluguer de bicicletas elétricas – uma excelente opção para chegar à praia e percorrer a ciclovia que acompanha a costa. Como num alojamento local, não há pequeno-almoço incluído, mas há alguns mimos surpresa: um cabaz de boas-vindas com produtos da região e ainda pão fresco, deixado todas as manhãs pelo próprio padeiro (exceto ao domingo) num saco de pano pendurado à porta.

Herdade Ribeira de Borba

Vila Viçosa. 268 980 709. Estadia a partir de 80€

Quem alguma vez acusou o Alentejo de monotonia, não estava certamente a falar da Herdade Ribeira de Borba. Nos 23 hectares da quinta cabem animais, uma exploração agrícola, paisagem ribeirinha e de montado, e ainda seis tipos de alojamento completamente diferentes.

Vista geral da ala nova e dos domus geodésicos. © Jorge Vieira

Comecemos pelas casas mais antigas, reconstruídas a partir de ruínas e ideais para famílias por permitirem fazer refeições. São três ao todo, com nomes que denunciam a sua anterior função: o Pombal (com direito a uma cozinha redonda), a Casa do Caseiro (a maior, com capacidade para seis pessoas) e a Casa da Azenha, de paredes grossíssimas, cheia de nichos – um deles tão grande que tem uma cama elevada, para delírio dos miúdos – casa de banho XL em pedra e um alpendre com jacuzzi privativo.

Também de traça alentejana, há três estúdios, junto à casa-mãe e à piscina infinita, com os tradicionais tetos em madeira e o quarto em mezzanine. Não é tudo: na zona nova, com direito a uma segunda piscina, e onde é possível andar ao nível dos telhados, ficam quatro suítes modernas, dois quartos duplos, um restaurante e ainda, junto à ribeira, dois domos geodésicos que à primeira vista remetem para encontros imediatos de terceiro grau, mas são, na verdade, uma opção para quem quer estar verdadeiramente em contacto com a natureza.

A Casa da Azenha é uma das três independentes e de traça alentejana. © Jorge Vieira

Há dois anos, a herdade foi adquirida por outros donos e modernizada, sem perder a essência da vida rural. Com um caseiro residente, na propriedade há duas éguas e dois burros, galinhas, ovelhas, gansos, e ainda um rafeiro alentejano chamado Bernardo. A pedido, as famílias podem ser envolvidas nas atividades da quinta e até mesmo abastecerem-se no pomar e na horta biológica. Quem ficar nas casas independentes e nos estúdios, pode ainda contar com flores silvestres colocadas na cesta que é entregue todas as manhãs com o pequeno-almoço.

Ao contrário do que possa parecer, a herdade não fica em Borba, mas sim a cinco quilómetros do centro histórico de Vila Viçosa. O nome vem da ribeira que atravessa toda a propriedade e que, essa sim, nasce em Borba. É pegar numa das bicicletas disponíveis para os hóspedes, acompanhar o curso de água e comprovar: é calmo, mas nada monótono, este Alentejo.

© Jorge Vieira

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº 7 (março de 2020).