A decisão do encerramento da refinaria da Galp em Matosinhos “está fechada” e não será revertida. A informação foi dada esta terça-feira por José Carlos Silva, engenheiro responsável do complexo da Galp, durante a habitual reunião da Câmara Municipal de Matosinhos. A Galp garantiu ainda que “não existe nenhum projeto de refinação de lítio para Matosinhos” a ser conversado e que o futuro dos mais de 400 postos de trabalho afetos à refinaria está a ser analisado caso a caso, de acordo com o perfil de cada trabalhador.

Ainda antes da intervenção do responsável da Galp, os representantes sindicais dos trabalhadores da Petrogal falaram à autarquia e começaram por dizer que a administração da empresa não lhes comunicou qualquer decisão sobre o encerramento deste complexo a partir do próximo ano e que nada sabem quanto ao seu futuro. Telmo Silva, do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras (SITE) Norte, pediu ainda ajuda “na defesa da continuidade da refinaria e dos postos de trabalho”.

A 21 de dezembro a Galp, através de uma comunicação pela calada da noite à CMVM, informou que vai descontinuar a refinaria do Porto, sem qualquer comunicação prévia nem aos trabalhadores nem às suas estruturas representativas, que são a parte mais diretamente envolvida”, referiu Telmo Silva, acrescentando que “passado oito dias” os trabalhadores “ainda não têm qualquer informação oficial quanto ao seu futuro”.

Para este dirigente e trabalhador da Petrogal, o encerramento da refinaria vem trazer “para o concelho de Matosinhos e para o Norte um dos maiores desastres sociais e económicos já vistos na região“, estando em causa cerca de 1.500 postos de trabalho — 500 vinculados à Petrogal e cerca de 1.000 prestadores de serviços. “O que estamos a assistir aqui é ao arrepio da situação que estamos a atravessar: um dos maiores grupos económicos em Portugal, que gera milhões e milhões de euros de lucro todos os anos, que tem um papel de enorme relevância, a desferir um golpe que dificilmente teremos agora condições para avaliar todo o impacto que vai ter, não só na região Norte como no país”, acrescenta.

Também Rui Pedro Ferreira, funcionário da Petrogal há 34 anos e coordenador do Sindicato da Indústria e Comércio Petrolífero (SICOP), fala numa “decisão totalmente errada” e que “tem de ser revertida”, deixando o apelo para que “todas as forças vivas do Norte que tenham capacidade de intervenção ajudem os trabalhadores da Petrogal” a reverter uma decisão que vai ter um impacto negativo “não só na região mas em todo o país”. Já José Santos, dirigente do SIT Norte, voltou a assegurar que a “administração não comunicou o que vai fazer” e aponta um “secretismo” por parte da empresa em relação ao futuro da refinaria.

Depois das intervenções dos trabalhadores, também vários vereadores comentaram o caso e colocaram questões sobre este encerramento. José Pedro Rodrigues, vereador do PCP, disse que a decisão de encerrar a refinaria é “incompreensível”. Toda a autarquia disse estar solidária com a situação dos trabalhares da refinaria.

Galp diz que decisão é irreversível e que não há projeto de lítio em cima da mesa

José Carlos Silva, responsável pela refinação da Galp e membro do conselho de administração, falou por videochamada e começou por enumerar os motivos que levaram a uma decisão “difícil e complexa”, face a um contexto que “tem impactado e continuará a impactar a refinação em Portugal”, desde a “nova e mais exigente regulação ambiental” à questão da transição energética e da alteração dos padrões de consumo e mobilidade.

Antes de ser tomada qualquer decisão, acrescentou José Carlos Silva, “foram desenvolvidos diversos estudos no sentido de identificar oportunidades de otimização do aparelho refinador”. Mas estes estudos “não conseguiram ultrapassar os constrangimentos de contexto económicos e de tecnologia disponível” e, por isso, “não existe racionalidade económica nem estratégica para continuar as operações em Matosinhos”. “Esta será a quinta refinaria a declarar o encerramento na Europa”, salientou o responsável, acrescentando que, no ranking, a refinaria da Petrogal “encontra-se na cauda da Ibéria e até da Europa”.

A decisão do Conselho de Administração foi realizada no dia 18 de dezembro, numa sexta-feira. E de acordo com aquilo que são as regras que se impõe a uma empresa cotada em bolsa, a publicitação dessa decisão só acontece no início da semana seguinte”, explicou José Carlos Silva, garantindo que a 22 de dezembro houve uma reunião com o presidente da comissão de trabalhadores e que esta terça-feira houve uma nova reunião.

Sobre o futuro dos trabalhadores, o responsável da refinaria assegura que a empresa está a avaliar o caso de cada trabalhador — tendo em conta o seu perfil — e que está a fazer um “estudo exaustivo” para os 401 colaboradores afetos à refinaria. Mas, garante, “as pessoas serão ouvidas e todos serão tratados com o respeito e dignidade exigidos”. Em cima da mesa estão alternativas como a mobilidade interna, a requalificação de competências e os quadros de reforma. A primeira medida a ser tomada, refere, é a suspensão imediata dos processos de contratação na empresa e a possibilidade de direcionar parte das vagas de 2021 para estes colaboradores.

O responsável pela refinaria assegurou ainda que a decisão “não prejudica o interesse nacional” e que vai continuar a garantir a disponibilidade dos produtos comercializados com os seus clientes. Depois do fim das operações, segue-se o descomissionamento progressivo e o desmantelamento das instalações, um projeto que “gera a criação de postos de emprego ao longo dos próximos cinco anos”.

Questionado sobre a possibilidade de instalação de uma refinaria de lítio em Matosinhos (que foi esta semana noticiado e que a autarquia já garantiu que será rejeitada), José Carlos Silva assegurou: “Não existe nenhum projeto de refinação de lítio para Matosinhos. O que existe, em termos de Galp, é o estudo da cadeia de valor das baterias, porque a armazenagem de energia é algo que está no DNA da Galp. Estudam-se os projetos, mas não existe um projeto de refinação de lítio para Matosinhos”.

Autarquia de Matosinhos não quer refinaria de lítio

A 21 de dezembro, a Galp anunciou o encerramento da atividade de refinação em Matosinhos a partir do próximo ano e a concentração das suas operações de refinação e desenvolvimentos futuros no complexo de Sines. O motivo deste fecho, referiu a empresa em comunicado, é a consequência de dois fatores combinados: a queda da procura provada pela pandemia e a aceleração para a transição energética, o que fará com que o consumo de produtos refinados não volte ao nível pré-Covid com a retoma económica.

Galp fecha refinaria em Matosinhos a partir de 2021. Decisão afecta 400 trabalhadores diretamente, mas impacto pode ser maior

Depois da notícia do encerramento da refinaria em Matosinhos, o Ministério do Ambiente e Ação Climática referiu que este fecho da unidade, apesar de inserido na transição energética, “levanta preocupações, sobretudo no que respeita ao destino dos trabalhadores afetos àquela unidade industrial”. Segundo os sindicatos, são mais de 1.500 trabalhadores afetados, direta e indiretamente, com este encerramento — contabilizando postos indiretos em empresas que são fornecedoras ou prestam serviços às operações industriais de Leça da Palmeira.