João Ferreira começou o período de campanha oficial no Coliseu do Porto — com um terço da lotação total, conforme mandam as regras — e deverá ter ainda na segunda-feira algum contacto expressivo com militantes e apoiantes. Depois é esperar pela reunião com especialistas no Infarmed, ouvir o que o Conselho de Ministros decidirá aplicar no país e ajustar, uma vez mais a campanha à nova realidade. O que é válido não apenas para o candidato do PCP, mas para todos. E a intervenção de João Ferreira começou exatamente pelas limitações. O candidato diz que “não minimiza por um segundo as justas preocupações e inquietações que o atual contexto suscita nas populações”, mas frisa que sabe “o que está em causa nas eleições” e que “não desistirá de fazer o trabalho necessário para assegurar o esclarecimento e a mobilização necessários ao voto”.

Deixando antever que não está nos planos deixar a estrada na campanha, João Ferreira disse neste primeiro dia que “não desistirá de ir com a voz da candidatura a cada canto deste país” e, através dos meios de que dispõe, chegar também às “comunidades na diáspora”. Ora, João Ferreira não tenciona desistir da corrida nem abdicar de marcar presença de norte a sul. A agenda, como é sabido, está sujeita às contingências a anunciar na terça-feira.

Uma coisa é certa: o caminho que estamos a fazer está a valer muito a pena. Nos últimos três meses, conseguimos deixar claro que esta candidatura é não apenas necessária, como indispensável e insubstituível. A vida está a dar-nos razão. Em cada nova iniciativa, em cada debate, a cada novo apoio que recolhemos — e são muitos — a vida está a dar-nos dar razão!”, afirmou João Ferreira no Coliseu do Porto distanciando-se de “todas as outras campanhas” que não têm dado voz a vários quadrantes da sociedade.

E, além de ouvir os trabalhadores, o candidato presidencial apoiado pelo PCP diz que “nenhuma outra candidatura assume a defesa dos serviços públicos”, começando pelo SNS como a sua. Aquele que é já chamado também o “candidato Constituição” respondeu nesta primeira intervenção aos outros candidatos e ao presidente recandidato diz que nenhuma candidatura “assumiu a Constituição da República Portuguesa como o centro do programa e como bandeira da candidatura, os valores de Abril que comporta e o projeto de futuro que inclui”. “Nenhuma outra [candidatura] afirmou, com a nossa clareza, o distintivo entendimento sobre o exercício das funções presidenciais, relativamente ao atual e a anteriores presidentes da República”, afirmou o candidato presidencial.

Mas esta não foi a única vez em que versou diretamente Marcelo Rebelo de Sousa e, aproveitando-se da classificação de “presidente dos afetos” dada a Marcelo, João Ferreira diz que Portugal precisa “de um Presidente da República que tenha os seus primeiros afetos para os imprescindíveis deste país”. E quem são os “imprescindíveis deste país” para o comunista? “Quem trabalha e trabalhou, quem, nestes tempos duros e inquietantes saiu de casa todos os dias, ou foi obrigado a ficar em casa, para manter o país a funcionar, em todas as áreas da vida económica e social”.

João Ferreira pretende que a Constituição não continue a ter “letra morta” e que o Presidente da República “não se canse de lutar. E para que não ficassem dúvidas, João Ferreira citou o texto da CRP: “Para que ‘todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, [todos tenham] direito à retribuição do trabalho, observando-se o princípio de que para trabalho igual salário igual, à organização do trabalho  de forma a permitir a conciliação da atividade profissional com a vida familiar, à prestação do trabalho em condições de higiene, segurança e saúde, ao repouso e aos lazeres, a um limite máximo da jornada de trabalho, ao descanso semanal e a férias periódicas pagas’, à proteção no desemprego, ‘à assistência e justa reparação, quando vítimas de acidente de trabalho ou de doença profissional'”.

Na mesma onda de críticas a Marcelo Rebelo de Sousa subiu também ao palco o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa para dizer que “não basta afirmar, como faz Marcelo Rebelo de Sousa, que não podemos esperar que as soluções de ontem sejam as soluções de amanhã e depois fechar os olhos e deixar passar falsas soluções do passado”.

“Esse é o caminho que dá aval e tudo promulga quando se trata de ir ao encontro das pretensões do grande capital como fez em relação às propostas de alteração da legislação laboral, que precarizam ainda mais o trabalho”, criticou Jerónimo de Sousa que, ainda assim, centrou o discurso no elogio ao candidato do partido para estas eleições e na tentativa de distinguir João Ferreira das restantes propostas à esquerda.

Diz o secretário-geral do PCP que esta é “uma candidatura única, uma candidatura singular” e que a campanha “está a confirmá-lo”. “Uma candidatura diferente, que não se confunde com nenhuma das outras candidaturas, por mais de esquerda que se auto-afirmem ou por mais preocupações sociais que proclamem, porque esta é distinta de qualquer delas”, afirmou Jerónimo de Sousa neste que foi o primeiro dia oficial de campanha eleitoral de João Ferreira.