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Tem sido um dos assuntos de tecnologia mais debatidos nas últimas semanas e levou a que milhares de utilizadores abandonassem o WhatsApp em busca de alternativas. Na origem, está a mais recente atualização da política de privacidade da aplicação pertencente ao Facebook, agendada (primeiro) para 8 de fevereiro. Mas a novidade levantou várias questões sobre a privacidade dos dados das conversas e contactos e levou mesmo a empresa a adiar por mais três meses esta atualização. Abaixo, estão cinco respostas para perceber o que está em causa.

Não percebo o que se está a passar com o WhatsApp. A app vai partilhar as minhas conversas com o Facebook ?

Antes de mais, é preciso perceber que com esta atualização as políticas do WhatsApp vão mudar ligeiramente em breve, mas não de forma a fornecerem mais dados ao Facebook — esses já são obtidos pela empresa de Mark Zuckerberg desde 2016. Há quatro anos que o Facebook tem acesso aos números de telefone que estão a ser usados pelos utilizadores, aos nomes dos contacto, à frequência com que a app é usada, à resolução da tela do dispositivo, à localização estimada a partir da conexão com a internet e à indicação do operador ou informação de pagamentos feitos através da app. Esta recolha de informação não se aplica, contudo, aos países da União Europeia e ao Reino Unido, já que as leis de proteção de dados europeias são bastante mais restritivas do que, por exemplo, nos Estados Unidos.

Com a nova atualização, esta partilha mantém-se, mas não, o WhatsApp não vai partilhar as conversas que os utilizadores têm na app com o Facebook. A empresa tem esclarecido, através das redes sociais e do próprio site, que a quebra de privacidade de quem utiliza o serviço a título individual para conversar com outras pessoas não estava incluída nas alterações à política de privacidade. As alterações destinam-se unicamente ao serviço de troca de mensagens com empresas.

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Ou seja, o WhatsApp pode ver o conteúdo da mensagem trocada entre uma empresa e um utilizador e usar essas informações para fins de marketing, que podem incluir publicidade no Facebook.

“A intenção da atualização é comunicar aos usuários que as mensagens com empresas no WhatsApp podem ser armazenadas nos servidores do Facebook, o que exige a partilha de dados entre as duas empresas” [esses dados, diz o WhatsApp, podem ser usados por empresas para fins de publicidade, mas o Facebook não o compartilha nos seus aplicativos automaticamente], afirmou fonte do WhatsApp, citada pelo The Verge.

Foi por isso que houve tanta gente a revoltar-se contra a app e a mudar para outras plataformas de chat?

A situação escalou nas últimas semanas, depois de ter começado a circular informação errada nas redes sociais. Alguns executivos do WhatsApp e do Facebook vieram a público esclarecer os utilizadores, como aconteceu com Andrew Bosworth, Adam Mosseri ou Will Cathcart. Desde o anúncio da nova política de privacidade, no início de janeiro, que o WhatsApp deixou os utilizadores pouco esclarecidos sobre se isso significaria que o Facebook – depois de sucessivos escândalos por quebra na proteção de dados e de privacidade – teria acesso às mensagens de quem utiliza a app.

À medida que a desconfiança ganhou terreno, em parte causada por uma política de privacidade difícil de entender, e que não explicita de que forma as mudanças acontecerão na prática, milhões de usuários em todo o mundo optaram por procurar apps alternativas. Muitos dos utilizadores referiram também que a opção dada na política de privacidade – entre aceitar os novos termos ou ter de sair da aplicação –, os empurrou para a mudança. Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX foi um dos que a incentivou, para uma das apps concorrentes, a Signal.

Mas por que é que o WhatsApp enviou aquelas notificações para as apps dos utilizadores?

O motivo pelo qual o WhatsApp notificou recentemente os utilizadores da aplicação sobre esta revisão das regras de privacidade tem a ver com o facto de Facebook estar a expandir as opções do WhatsApp. Mark Zuckerberg quer que a app permita, por exemplo, conversar com uma companhia aérea sobre um voo perdido ou procurar e pagar por coisas diretamente na aplicação. As políticas do WhatsApp mudaram para refletir esta possibilidade de haver transações comerciais que envolvem várias aplicações do Facebook, como já acontece com o Instagram.

“Temos orgulho do serviço que oferecemos e continuaremos a desenvolver tecnologia e práticas para fornecer comunicações privadas e seguras para o maior número de pessoas possível”, escreveu no Twitter Will Cathcart, director do WhatsApp, em resposta à questão da quebra da privacidade nas conversas entre utilizadores.

Então, a 8 de fevereiro a política de privacidade muda ou não?

A resposta é não. O prazo para ler, perceber e aceitar a nova política e as suas alterações foi entretanto alargado pela empresa para 15 de maio, uma extensão muito para lá do prazo inicial. O prolongamento não deteve, no entanto, a diminuição no número de utilizadores da app, que continuam a acusar o WhatsApp de querer aligeirar as consequências da atualização. Em resposta, a empresa tem mantido uma via de comunicação permanente para responder a dúvidas.

“Obrigado a todos que entraram em contacto. Ainda estamos a trabalhar para evitar qualquer confusão, comunicando diretamente com os utilizadores do @Whatsapp. Ninguém terá a sua conta suspensa ou excluída dia 8 de fevereiro e vamos adiar o nosso plano de negócio até depois de maio”, lê-se na conta oficial do Twitter.

De qualquer forma, não estou satisfeito/a com o WhatsApp. Que alternativas tenho?

A desconfiança face à app detida pelo Facebook afastou vários utilizadores nas últimas semanas, procurando alternativas que prometem mais segurança. Segundo avança a BBC – citando dados da empresa de análise de dados Sensor Tower – a aplicação Signal, que tinha sido descarregada 246 mil vezes em todo o mundo na semana anterior ao anúncio do WhatsApp, a 4 de janeiro, viu o número crescer para 8,8 milhões na semana seguinte. Na Índia, os downloads passaram de 12 mil para 2,7 milhões. No Reino Unido, cresceram de 7400 para 191 mil e nos Estados Unidos de 63 mil para 1,1 milhões.

Já o Telegram, outra das aplicações alternativas, também viu os números disparar. Na passada quarta feira, dia 13, o Telegram anunciou que tinha passado a barreira dos 500 milhões de utilizadores ativos globalmente. Um número refletido pelos downloads da aplicação, que subiram de 6,5 milhões na semana a partir de 28 de dezembro para 11 milhões na semana seguinte. Durante o mesmo período, os downloads globais do WhatsApp diminuíram de 11,3 milhões para 9,2 milhões.

Apesar dos números crescentes das duas aplicações no pós-êxodo do WhatsApp, é também necessário compreender o ambiente para o qual se faz a mudança sendo que, uma das principais alternativas, o Telegram, tem algumas questões de segurança a assinalar como refere Zak Doffman, da Forbes.

“Embora o Signal seja um parente mais seguro do WhatsApp, o Telegram não é nada disso. É uma plataforma completamente diferente, projetada com um propósito completamente diferente. E embora [Pavel] Durov diga ‘Eu considero as conversas secretas do Telegram significativamente mais seguras do que qualquer meio de comunicação concorrente’, permanece o facto de que o Telegram não é criptografado de ponta a ponta por padrão e essas conversas secretas funcionam apenas entre dois dispositivos – não se estendem a grupos e é necessário selecioná-lo manualmente.”

Se optar por deixar o WhatsApp e quiser ainda mais alternativas, estas são três das gratuitas que tem no mercado:

iMessage (iOS, macOS)

O serviço da Apple está disponível em todos os dispositivos Apple, o que significa que é pouco útil para quem quer comunicar com amigos em dispositivos Android ou Windows. Contudo, se grande parte do seu circulo for adepta da empresa californiana, pode ser uma boa opção. A Apple usa criptografia de ponta a ponta por padrão, para que todas as mensagens de texto, áudios e vídeos sejam protegidos. A própria Apple não consegue ver o conteúdo das mensagens enviadas usando este serviço.

Discord (iOS, Android, macOS, Windows, Linux, Online)

O Discord tem um serviço de mensagens privadas muito semelhante ao que vimos no WhatsApp mas, ao contrário do que acontece com a app detida pelo Facebook, não é necessário fornecer o seu número de telefone. Os utilizadores do Discord podem criar conversas de grupo até 10 pessoas sendo que, a partir desse número, é necessário iniciar o seu próprio servidor Discord e tratar da hospedagem por conta própria. O serviço tem uma lista bastante compacta de recursos, incluindo conversa de grupo, partilha de vídeos e fotos, capacidade de enviar arquivos e muito mais.

Bridgefy (iOS, Android)

O serviço de mensagens tem uma fundação offline, o que quer dizer que, se não tiver rede ou sinal de internet, consegue fazer passar a informação. Isto acontece porque a aplicação funciona através de um sistema de Bluetooth peer-to-peer ou de uma rede Wi-Fi direct base no seu telefone, o que permite enviar mensagens para os amigos próximos. A juntar a isto pode enviar mensagens a um amigo, transmiti-las para todo o grupo e até mesmo fazer dos utilizadores pequenos pontos de transmissão para enviar mensagens a longas distâncias. Especialmente útil durante festivais de música, desastres naturais e outras situações em que não é possível ter acesso a um serviço móvel fiável.