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Há atletas que, no nosso imaginário, têm sempre a mesma camisola vestida. Jogadores que estiveram tanto tempo no mesmo clube, com o mesmo emblema ao peito, com as mesmas cores no equipamento, que já não se distinguem da equipa que representaram. O exemplo paradigmático será, quase sempre, Michael Jordan: que foi o melhor de sempre com os Chicago Bulls, que ajudou os Chicago Bulls a tornarem-se a melhor equipa que já atuou na NBA e que, nas nossas memórias, surge quase sempre vestido com a tradicional camisola vermelha e branca.

É por isto, por esta memória seletiva que todos temos, que por vezes nos esquecemos de que Michael Jordan acabou a carreira nos Washington Wizards. Simplesmente porque, para nós, Jordan jogou apenas nos Bulls — até porque a memória não permite que nos lembremos dele vestido de azul escuro. Em março de 2020, o futebol americano achou estar a assistir a uma história semelhante. Tom Brady, um dos melhores de sempre, ia deixar os New England Patriots onde estava há quase 20 anos e assinar pelos Tampa Bay Buccaneers, uma equipa com apenas uma vitória no Super Bowl e um registo vitorioso muito limitado. Seria como Jordan, pensou-se: nunca ninguém se irá recordar de que Brady, histórico número 12 dos Patriots, acabou a carreira nos Buccaneers. Mas ele fez questão de reescrever a história.

Este domingo, os Tampa Bay Buccaneers venceram os Green Bay Packers na final da National Football Conference — ou seja, carimbaram o passaporte para o Super Bowl, agendado para o próximo dia 7 de fevereiro. Os Buccaneers tornaram-se assim a primeira equipa da história a marcar presença num Super Bowl no próprio estádio, já que a grande final está marcada para o Raymond James Stadium em Tampa, na Flórida, e Tom Brady, que continua a jogar com o número 12, tornou-se apenas o quarto quarterback da história a chegar à derradeira partida com duas equipas diferentes. O jogador de 43 anos, que terminou a final da Conferência com três touchdowns e três interceções, prolongou um recorde que já lhe pertencia ao chegar ao 10.º Super Bowl da carreira e pode alcançar o troféu pela sétima vez, depois dos seis títulos que conquistou com os Patriots.

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Na final, os Buccaneers vão encontrar os Kansas City Chiefs, os campeões em título que contam principalmente com o quarterback Patrick Mahomes e que derrotaram os Buffalo Bills na respetiva final de Conferência. Depois de garantida a presença no Super Bowl, Tom Brady não quis assumir crédito pessoal pela vitória e garantiu estar “orgulhoso de todos, de toda a organização”. “Os nossos treinadores trabalharam e esforçaram-se tanto para nós chegarmos a este nível, prepararam-nos todos os dias e fizeram um trabalho fantástico. É uma equipa única. Temos uma grande química. Divertimo-nos a treinar (…)”, disse o norte-americano, atribuindo o mérito ao coletivo. Mas o treinador, Bruce Arians, tinha uma ideia diferente.

“O importante foi a crença que ele criou em toda a gente nesta organização de que podíamos conseguir isto. Só precisámos de um homem”, disse o líder dos Tampa Bay Buccaneers, que há 19 anos venceram o Super Bowl ao derrotar os Oakland Raiders e desde aí não regressaram ao jogo mais importante do futebol americano. Arians defende que a equipa só precisou de um homem, Brady, mas a verdade é que Brady depressa percebeu que ia precisar de ajuda. Em abril do ano passado, o jogador de 43 anos foi o principal responsável pela ida de Rob Gronkowski para os Buccaneers: o tight end tinha terminado a carreira em 2019 depois de vários anos de uma parceria de luxo com Tom Brady mas decidiu pôr a reforma em pausa para regressar aos relvados a recuperar a dupla que tinha feito sucesso nos Patriots. Agora, novamente juntos, Brady e Gronkwoski vão à procura de mais uma vitória, mais um título e mais um parágrafo na história.

O adeus de Gronk, a alma da fiesta dos Patriots que teve um casamento perfeito com Tom Brady