Estamos na reta final de janeiro, um dos dois momentos do ano consagrados àquele que é o expoente máximo da criação de moda, a alta-costura. Durante quatro dias, grandes ateliers como Chanel e Dior mostraram o resultado de milhares de horas de trabalho. Sem público, os desfiles da temporada são agora vistos à distância por todos, sem exceção.

Com a pandemia de Covid-19 a atingir novos picos em todo o mundo, não é só o espetáculo da passerelle que se molda. Uma paragem abrupta na agenda social, eventos e celebrações fez recolher a passadeira vermelha. Há exceções — Regina King nos Emmys, Lady Gaga nos MTV VMAs e Dua Lipa na sua passagem pelo talk show de Graham Norton, em novembro –, embora o papel da alta-costura vá além do guarda-roupa das celebridades em eventos públicos.

Cabe-lhe medir o pulso da arte e dos artesãos e ainda tentar antecipar os tempos que estão por vir. Da promessa de festa deixada pelos vestidos Armani à celebração íntima e familiar proposta pela Chanel, passando pela consciência ambiental que Iris van Herpen trouxe para o centro do seu trabalho e pelo minimalismo surpreendente com que nos brindou a Valentino, é a moda a perspetivar o amanhã e a alertar para as prioridades de hoje, sempre com os olhos postos na beleza.

A Dior lançou as cartas, a Chanel celebrou em família

O nome Christian Dior é dos primeiros que associamos à tradição dos grandes ateliers parisienses. Numa edição da semana de alta-costura, que, mais do que uma cidade, habitou os canais digitais, foi na última segunda-feira, o primeiro dia do calendário, que a maison viu o habitual desfile substituído por uma curta-metragem de 15 minutos. Rodada na Toscânia, “Le Château du Tarot” contou com a realização de Matteo Garrone. Partindo do gosto que o próprio monsieur Dior nutria pelo esotérico, em particular pelo tarot, Maria Grazia Chiuri vestiu cada uma das personagens do baralho místico.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Um cortejo de silhuetas cerimoniais — do manto clerical ao vestido imperial — decoradas com bordados de grande escala, elementos mitológicos e do zodíaco, brocados e rendas. A ostentação até pode parecer fora de contexto, mas haverá sempre quem invista largas dezenas de milhares de euros numa peça única, mesmo sem nenhuma festa no calendário. Ao The Guardian, Chiuri admitiu que muitos clientes da marca continuam a fazer encomendas. “Existem muitos países onde existe a cultura de vestir bem dentro de casa. E a beleza da alta-costura está aí: se um cliente quer algo mais simples, conseguimos fazê-lo. Somos capazes de fazer pijamas no nosso atelier”, resumiu a designer, diretora criativa da histórica maison.

Um dia depois, a Chanel mostrou-se incapaz de abrir mão de duas coisas: o Grand Palais, palco habitual dos principais desfiles da maison, e uma plateia de estrelas. Mesmo com distanciamento social (e se há espaço no local em questão), houve convidadas que não faltaram à chamada — Marion Cotillard, Penélope Cruz, Alma Jodorowsky, Vanessa Paradis e Lily-Rose Depp, entre outras. Sem mais público e eternizado pelo realizador Anton Corbijn, o momento foi pensado para refletir a dimensão familiar da marca.

“Sabia que não podíamos organizar um grande espetáculo, que tínhamos de inventar outra coisa, por isso pensei nesta ideia de um pequeno cortejo. Como uma celebração familiar, um casamento”, explicou a diretora criativa Virginie Viard no descritivo da coleção. Uma tenda branca ao fundo, grinaldas de luzes penduradas e pétalas no chão — o ambiente de celebração enterneceu as convidadas, que viram desfilar os habituais conjuntos de tweed (na versão de tailleur, mas também com calças e tops sem mangas).

No meio de uma paleta luminosa e peças vaporosas, a solenidade das silhuetas foi doseada, em benefício de looks versáteis, muito mais propícios a um piquenique no campo do que a uma gala noturna. Saias longas foram emparelhadas com blusas brancas e os folhos e franzidos primaveris deram leveza às novas propostas. Quanto às celebrações que estão por vir, certamente a alta-costura Chanel estará à altura.

Itália em Paris: Armani, Valentino e Fendi

Ninguém melhor do que Giorgio Armani, designer de 86 anos, que continua a assinar as suas próprias coleções, para falar da “eterna busca da beleza”, expressão que usou nas notas que enviou por e-mail à revista Vogue. Da beleza de uma Milão deserta, consequência do novo confinamento, nasceu a coleção de alta-costura desta primavera-verão, uma sinfonia que vai da sobriedade dos fatos de duas peças aos garridos vestidos de noite, exemplares das minuciosas habilidades do atelier do criador italiano. Cristais sobre transparências deram forma e cor à primavera que está por vir, que, no que depender de Armani, será um grande baile.

De Milão para Roma. Foi lá que Pierpaolo Piccioli se demarcou da habitual entoação dada às suas criações para a Valentino. Em vez de volumes, folhos, plumas e drapeados, ditou a atual conjuntura que os ateliers da marca italiana se focassem na pureza das formas, dos materiais e das suas texturas. Uma abordagem casual da alta-costura, porém investida para realçar ainda mais o papel dos artesãos por trás de cada peça.

O desfile da Fendi era um dos momentos mais aguardados da temporada e compreensivelmente. Nomeado diretor criativo da marca em setembro, Kim Jones apresentou esta quarta-feira a sua primeira coleção para a casa italiana, uma ocasião memorável, transmitida em direto e abrilhantada com convidadas de peso. Demi Moore abriu o desfile — seguiram-se Christy Turlington, Bella Hadid, Kate Moss e a filha Lila Grace Moss e Cara Delevingne — e coube a Naomi Campbell encerrar com vestido e capa florais, cuja cauda se estendeu ao longo de metros.

O surrealismo de Schiaparelli e o regresso de Alber Elbaz

Schiaparelli, marca fundada por uma designer italiana em Paris (também conhecida como a grande rival de Coco Chanel), tem andado nas bocas do mundo — há uma semana, porque vestiu Lady Gaga na tomada de posse de Joe Biden, no Natal por conta de Kim Kardashian, que inundou as redes sociais com o seu vestido verde, cujo corpete recriava um invejável six pack. A ideia, que encaixou perfeitamente na estética surrealista e figurativa da marca, estaria já a ser trabalhada por Daniel Roseberry, o diretor criativo.

Na coleção apresentada esta semana, as pernas, braços e peitorais musculados voltaram em força, bem como a joalharia (cada vez mais pesada) que o designer norte-americano continua a incorporar nas suas criações, na forma de cadeados ou de dentes molares. De uma assentada, propôs peças dignas de futuras passadeiras vermelhas, ao mesmo tempo que deixou que as pitadas de bizarria quebrassem o lado mais glamoroso e feminino habitualmente reconhecido à alta-costura.

Foram vários os momentos altos dos últimos quatro dias. A holandesa Iris van Herpen incluiu nas suas peças de alta-costura um novo tecido, feito a partir de resíduos de plástico retirados do mar. A dupla Viktor & Rolf propôs uma “couture rave, numa miscelânea folhos e saias de tule, meias fishnet e pedraria cintilante.

O calendário ficou ainda marcado pelo regresso de Alber Elbaz, o designer que, durante mais de uma década, comando as decisões criativas da Lanvin. De volta ao mundo da moda, é com propostas práticas que correspondam às reais necessidades do guarda-roupa feminino que o criador pretende dar cartas na indústria. Assim foram apresentadas (também através de uma curta-metragem) as primeiras peças da AZ Factory. Predominam as malhas e o calçado desportivo, embora já esteja programado o lançamento de uma linha de desporto e de loungewear de luxo. Uma aposta também na diversidade de corpos, com tamanhos que vão dos XXS ao 4XL.