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O presidente-executivo da AstraZeneca, farmacêutica que está sob pressão europeia por causa da entrega das doses contratadas, pede um pouco mais de compreensão num processo “inédito na História” que seria impossível correr sem sobressaltos. “Os governos estão sob pressão, toda a gente está a ficar um pouco…digamos… aborrecida e emotiva em relação a este tema”, diz Pascal Soriot, garantindo que é totalmente falso sugerir que a AstraZeneca pudesse estar a “tirar vacinas aos europeus para vender a outros, com lucro”. Mas porque é que só com a UE está a haver problemas e não com o Reino Unido? “Fechámos acordo com o Reino Unido em junho, três meses antes do acordo com a União Europeia”, lembra o responsável.

Numa entrevista ao italiano La Repubblica, Pascal Soriot diz partilhar do “desapontamento” que a Comissão Europeia já veio a público manifestar. “Gostaríamos de estar a conseguir produzir mais. As nossas equipas estão a trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana, para resolver as dificuldades na produção”, dificuldades que são “dores de crescimento normais” numa vacina nova e cuja produção nem sempre produz os mesmos resultados em cada “colheita”.

Se na Europa os problemas – que diz “acreditar que estão solucionados” – surgem na fase da produção da substância da vacina, Pascal Soriot lembra que no Reino Unido houve problemas relacionados com a cadeia de distribuição. “Mas o contrato com o Reino Unido foi assinado três meses antes, portanto tivemos três meses adicionais para solucionar as falhas que encontrámos no processo. Na UE estamos três meses atrasados”, lembra o responsável. Ainda assim, a AstraZeneca prevê entregar “milhões de doses à Europa em fevereiro, não é coisa pouca”.

A vacina da AstraZeneca deverá ser aprovada pela Agência Europeia do Medicamento (EMA) esta sexta-feira e, assim que isso acontecer, “vamos enviar imediatamente pelo menos três milhões de doses para a Europa – depois teremos um carregamento cerca de uma semana depois e, em fevereiro, mais um na terceira ou quarta semana desse mês”. “O objetivo é entregar 17 milhões de doses até ao final de fevereiro”, doses que vão ser dividadas conforme a população de cada país. “Não é tão bom quando ambicionávamos mas não é mau de todo…”, defende Pascal Soriot, lembrando que o que está no contrato com a União Europeia é que a empresa iria fazer os seus “melhores esforços” para produzir o mais possível.

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O responsável recusa fazer “juízos de valor” sobre se a UE perdeu tempo na assinatura do contrato (e agora está a ser penalizada por isso): “só vos posso transmitir factos e os factos são que basicamente assinámos um acordo com o Reino Unido três meses antes de o termos feito com a Europa”. É certo que o facto de ter havido a colaboração com a universidade de Oxford deu algum “avanço” na interação com o governo britânico, mas Pascal Soriot recusa qualquer favorecimento – “eu sou europeu, tenho a Europa no meu coração. O nosso presidente do conselho de administração é sueco, o nosso administrador financeiro é europeu… Queremos tratar a Europa da melhor forma que podemos… Estamos a fazer isto sem lucro, lembra-se?”

Não estou à procura de desculpas, honestamente. Nós assumimos a responsabilidade. Queremos ser mais produtivos e estamos a trabalhar noite e dia. As nossas pessoas na indústria, temos centenas de pessoas agora. Muitas delas nem tiraram férias de Natal. Não estou a pedir-vos para terem pena de nós, mas é só para saberem que estamos a dar o nosso melhor. Mas é um processo muito complicado, com uma escala enorme”.

Pascal Soriot sublinha que “a sugestão de que estaríamos a vender a outros países para fazer mais dinheiro porque não fazemos lucro em lado nenhum. Essa foi a abordagem que escolhemos desde o início. É esse o acordo que temos com a universidade de Oxford. Temos preços ligeiramente diferentes entre geografias mas isso é apenas para refletir custos diferentes. Estamos a trabalhar para o bem da Humanidade”.