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Filipe Lobo D’Ávila, vice-presidente do CDS, apresentou a demissão da comissão executiva do partido, deixando Francisco Rodrigues dos Santos mais isolado na direção. Com Lobo D’Ávila saíram também Raúl Almeida e Isabel Menéres Campos, também da direção do partido.

Numa carta enviada a Francisco Rodrigues dos Santos, a que o Observador teve acesso, Lobo D’Ávila é claro: “Não é possível assobiar para o lado. O CDS não sobreviverá se não encontrarmos uma solução transversal e pacificadora e que nos volte a dar relevância.”

Depois de uma longa exposição, o agora ex-dirigente do partido traça o diagnóstico sobre o estado do partido. “O CDS tem hoje um problema de afirmação externa que importa enfrentar. Temos que conseguir ler para além da bolha das redes sociais e dos grupos de apoio do Whatsapp. A mensagem não passa. As pessoas não nos ouvem. O CDS não é considerado. Os indicadores são trágicos. A projeção externa ou não existe ou não é boa. Infelizmente, e por muito que me custe dizê-lo, o CDS de hoje não risca.”

Tal como o Observador escreveu na quarta-feira, a participação de Lobo D’Ávila no programa da RTP “É ou Não É” foi a antecâmara da decisão que o democrata-cristão tomou na noite desta quarta-feira. No programa como na carta de demissão, Lobo D’Ávila voltou a criticar o discurso de Francisco Rodrigues dos Santos na noite das presidenciais.

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“Estas eleições presidenciais são um bom exemplo de análise. Ganhou o candidato que não depende dos Partidos e que nem deles precisa. Surpreendeu o candidato que é contra os Partidos, contra o sistema e contra os políticos. No essencial, tudo o que é partido institucionalizado tem razões mais do que suficientes para se preocupar e para tentar perceber o que se está a passar. As declarações efetuadas por todos os Partidos do sistema no rescaldo das eleições falham neste ponto, devendo, pelo contrário, levar todos eles a fazer reflexões profundas, em particular, os partidos que aspiram a uma governação alternativa da socialista”, escreve.

“O CDS tem que ser um partido útil à democracia portuguesa e só o será se conseguir inverter a tendência de morte lenta que todos os indicadores, consistentemente, nos vão reservando. O partido só será verdadeiramente útil se não se dividir em grupos, grupetas ou gangs mais ou menos organizados. O CDS não sobreviverá, e não sobreviverá mesmo, a uma nova disputa fratricida. O único caminho viável é o de procurar as pontes que sejam necessárias para pacificar o CDS”, apela.

Mesmo a terminar, Lobo D’Ávila faz uma crítica velada a Nuno Melo, um daqueles que se “reservam agora para 2022“, e garante que não será candidato nas próximas eleições internas — se elas vierem a acontecer.

“Espero estar enganado na análise que faço. Se assim for, serás tu [Francisco Rodrigues dos Santos] a estar certo do caminho que estás a fazer e o futuro do CDS será mais risonho do que eu infelizmente prevejo”, remata.

Também Isabel Menéres, vogal da comissão executiva, o órgão mais restrito do partido, confirma ao Observador a sua saída. “Se nada for feito, o CDS vai desaparecer”, lamenta. Ainda assim, vai manter-se como líder da concelhia do CDS/Porto.

O Observador sabe que Raúl Almeida também bateu com a porta. Os dois são próximos da ala de Lobo D’Ávila, que conseguiu 15% nas últimas eleições internas do CDS e com quem Francisco Rodrigues dos Santos negociou para conseguir ter maioria na liderança.

Estas demissões surgem na sequência do pedido de convocação de um congresso extraordinário por parte de Adolfo Mesquita Nunes, que será, sem grande margem para dúvidas, candidato nas próximas eleições internas.

Isto se elas vierem de facto a acontecer. Com a saída de Lobo D’Ávila — e os sinais dados por João Almeida e Nuno Melo, por exemplo, é praticamente garantido que Adolfo Mesquita Nunes consiga reunir as cerca de 30 assinaturas de membros do Conselho Nacional para convocar a reunião do órgão máximo do partido entre congressos.

Será depois esse Conselho Nacional a discutir a hipótese de um Congresso Extraordinário eletivo para discutir a realização de eleições. No entanto, ainda não é absolutamente claro se vai haver ou não maioria para forçar esse congresso.

Na entrevista que deu ao Observador, Francisco Rodrigues dos Santos garantiu que não tinha “medo rigorosamente nenhum de ir a votos” mas não se comprometeu com a realização de um congresso.

Leia aqui a carta de Filipe Lobo D’Ávila:

Caro Francisco,

Há um ano fui a votos no Congresso do CDS e obtive 15% das preferências dos congressistas. Nesse mesmo Congresso, já fora de horas, correspondi a um convite da tua parte para integrar a direção do CDS com a esperança de que a mudança que sempre defendi para o CDS pudesse ser protagonizada pela nova direção.

Ao longo de um ano contaste com toda a minha lealdade, assim como da de todos os elementos dos Juntos pelo Futuro. As divergências, mais ou menos profundas, foram manifestadas nos órgãos próprios, de forma reservada e transparente.

Não discordo do caminho estratégico seguido nas eleições entretanto realizadas, quer na Região Autónoma dos Açores, quer no apoio à candidatura do Professor Marcelo Rebelo de Sousa. No essencial, reconheço que a nova direção enfrentou enormes dificuldades relacionadas com a pandemia, com o facto do presidente não estar no Parlamento, com as enormes restrições financeiras que vinham inexplicavelmente do passado e, mais recentemente, com um clima de difícil articulação com o Grupo Parlamentar. Tudo isto num momento em que o efeito novidade no centro direita não estava claramente no CDS, mas sim em novas forças políticas e onde era necessário afirmar uma nova liderança.

Continuo a acreditar que o CDS tem um papel insubstituível e continuo a acreditar que num momento em que o centro-direita se reconfigura a força do CDS tem que ser absolutamente essencial para a criação de um projecto alternativo ao da governação socialista. Uma alternativa que seja sólida, coerente e estável. Se queremos ter um projecto alternativo ao socialista, é chegada a hora dos partidos do centro-direita perceberem o que se está a passar, a começar pelo CDS.

Estas eleições presidenciais são um bom exemplo de análise. Ganhou o candidato que não depende dos Partidos e que nem deles precisa. Surpreendeu o candidato que é contra os Partidos, contra o sistema e contra os políticos. No essencial, tudo o que é Partido institucionalizado tem razões mais do que suficientes para se preocupar e para tentar perceber o que se está a passar. As declarações efetuadas por todos os Partidos do sistema no rescaldo das eleições falham neste ponto, devendo, pelo contrário, levar todos eles a fazer reflexões profundas, em particular, os partidos que aspiram a uma governação alternativa da socialista.

Sou do CDS e interessa-me o CDS. Não falarei dos outros.
Exmo. Senhor Presidente do CDS,
As sondagens são o que são e o CDS, ao longo da sua história, superou por diversas vezes sondagens adversas.

O CDS tem que ser um partido útil à democracia portuguesa e só o será se conseguir inverter a tendência de morte lenta que todos os indicadores, consistentemente, nos vão reservando. O Partido só será verdadeiramente útil se não se dividir em grupos, grupetas ou gangs mais ou menos organizados. O CDS não sobreviverá, e não sobreviverá mesmo, a uma nova disputa fratricida. O único caminho viável é o de procurar as pontes que sejam necessárias para pacificar o CDS.

A utilidade, respeitabilidade e credibilidade do CDS têm que ser resgatadas e isso só será possível se conseguirmos todos apagar velhas discussões pessoais, velhos antagonismos e percebermos que é o CDS que está em causa e que a nossa força é essencial para uma alternativa política para o País.

Sempre procurei fazer parte da solução, sabendo também que nunca seria parte do problema.

Tenho estima por ti e, aliás, criei uma empatia pessoal ao longo deste ano, contigo e com outros membros da direção. Mas isso não significa que não se olhe para a situação como ela é.

O CDS tem hoje um problema de afirmação externa que importa enfrentar. Temos que conseguir ler para além da bolha das redes sociais e dos grupos de apoio do Whatsapp. A mensagem não passa. As pessoas não nos ouvem. O CDS não é considerado. Os indicadores são trágicos. A projeção externa ou não existe ou não é boa. Infelizmente, e por muito que me custe dizê-lo, o CDS de hoje não risca.

Ao fim de um ano procurei ajudar no que estava ao meu alcance, para tentar recuperar o CDS dos trágicos resultados eleitorais (legislativas e europeias) dos últimos anos. Não consegui mais. Não consigo mais. Não estou preso a lugares, presentes ou futuros. Aprendi a estar no CDS em liberdade, seguindo líderes e não presidentes.

Muito sinceramente, conforme te transmiti pessoalmente, não acredito que seja possível inverter este caminho, sem que nada se faça. Assobiar para o lado não é manifestamente o meu forte.

O CDS não tem donos. Não é nosso. Não é dos de sempre, sobretudo daqueles que ao longo deste ano tudo fizeram para que as coisas não funcionassem ou mesmo daqueles outros que se reservam agora para 2022 ou para 2030, quando já não tiverem outros afazeres.

Não é possível assobiar para o lado. O CDS não sobreviverá se não encontrarmos uma solução transversal e pacificadora e que nos volte a dar relevância.

É por essa razão que solicito, desde já e com efeitos imediatos, a minha demissão de Vice- Presidente do CDS. Não farei parte do problema e procuro apenas a liberdade pessoal que a solidariedade institucional de pertencer a uma direção não me permite ter.

Não serei candidato em 2021 nem me reservo para outros calendários.
Foi aqui que me filiei com 17 anos, foi aqui que tive a oportunidade de fazer política a sério, foi aqui que com muitos cresci e foi também aqui que militei praticamente trinta anos da minha vida. Foi por isso com muita tristeza que te transmiti a minha opinião, a ti pessoalmente e a todos os membros da Comissão Executiva.

Espero estar enganado na análise que faço. Se assim for, serás tu a estar certo do caminho que estás a fazer e o futuro do CDS será mais risonho do que eu infelizmente prevejo.

Com um abraço