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Começou por ser um confronto competitivo em termos desportivos entre equipas que se afirmavam em contexto nacional olhando para outros patamares europeus. Nos anos 90, Barcelona e PSG encontraram-se em três ocasiões entre a segunda fase de grupos da Liga dos Campeões e a final da Taça dos Vencedores das Taças. Nos primeiros, em 1995, Weah, Valdo, Raí, Ginola, Le Guen, Lama e companhia levaram a melhor diante dos catalães de Koeman, Stoichkov, Guardiola, Beguiristain, Amor, Hagi ou Bakero. No encontro decisivo, em 1997, os franceses perderam com os espanhóis, que na altura já contava com Ronaldo Fenómeno, Figo, Vítor Baía, Popescu, Fernando Couto ou Luis Enrique e venceu pela margem mínima em Roterdão uma equipa reforçada com Leonardo ou Loko.

Olé! Barça goleia (6-1) PSG e “vinga” os 4-0 de Paris

Mais recentemente, e apenas em cinco anos de 2013 a 2017, Barcelona e PSG cruzaram quatro vezes na Liga dos Campeões, três em fases a eliminar. E num contexto completamente diferente, com os blaugrana a tentarem dar continuidade aos três triunfos europeus em 2006, 2009 e 2011 (algo que conseguiram apenas em 2015) sabendo que tinham de estar no máximo para conquistarem as provas nacionais e os parisienses a apostarem tudo no êxito internacional perante a facilidade com que dominavam por completo nas competições em França. No entanto, os resultados penderem sempre para os mesmos. E nem mesmo quando o PSG ganhou em casa por 4-0 conseguiu passar aos quartos da Champions, sendo goleado por 6-1 em Camp Nou numa das reviravoltas mais épicas que o futebol conheceu e que teve um golo de Lionel Messi e dois de Neymar, o grande ausente da noite.

Foi à luz desse jogo que se projetou o reencontro entre ambos os conjuntos em Espanha mas a “década de tensões”, como destacava o El País, voltou a sentir-se também fora de campo. Tanto que, à chegada à Catalunha, Nasser Al-Khelaïfi, presidente dos franceses, foi assobiado e insultado. “Deixa o Messi em paz”, gritou-se.

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Tudo começou em 2010, quando o Barcelona fechou um acordo com a Qatar Foundation através da Oryx Qatar Sports Investments, propriedade do emir Hamad Al-Zan e gerida exatamente por Al-Khelaïfi. E não foi um acordo qualquer: 171 milhões de euros. Que é como quem diz, um crédito extra para reforçar a equipa (com os resultados financeiros que entretanto se conhecem nas contas dos catalães). A “arma” para a guerra entre PSG e Barça por jogadores foi assinada pelo próprio presidente dos franceses e colocou no meio nomes como Thiago Silva (que renovou por muito mais devido ao interesses dos espanhóis), Marquinhos (idem idem, aspas aspas em relação ao compatriota), Sergi Roberto ou Busquets. Ninguém mudou até ao verão de 2017, quando Verratti teve de pedir desculpas públicas por ter conversado com o Barcelona antes do ataque com sucesso a Neymar naquela que se tornou a maior transferência de sempre do futebol mundial: 222 milhões de euros. E ainda houve as novelas Frenkie de Jong e Di María antes de um episódio de paz, com a cedência de Raphinha aos franceses.

Depois, eclodiu a bomba Messi. Em vários momentos. Quando o argentino rescindiu contrato e antes de voltar atrás, o PSG estava numa segunda linha atrás do Manchester City à espera de uma oportunidade. Agora, e numa altura em que o esquerdino pode assinar por qualquer clube, têm sido várias as aproximações de ex-companheiros, de Neymar e Di María. E houve ainda uma capa da France Football na semana passada que colocava o capitão dos catalães com a camisola do PSG e explicava como seria possível contratar o jogador. “Há possibilidades, e muitas, que possa vir”, disse Di María. “Parece-me uma falta de respeito, sobretudo antes de um jogo da Liga dos Campeões”, atirou Ronald Koeman. “Um companheiro de seleção disse que gostaria de jogar com ele… O PSG não faltou ao respeito a ninguém e muitos jogadores do Barcelona também já disseram que gostavam que o Neymar voltasse sem que alguém se queixasse”, respondeu Mauricio Pochettino, que foi opção… para o Barça.

Se Messi é sempre o foco principal de qualquer jogo em que participe, este Barcelona-PSG seria disputado ainda mais com os holofotes sobre o jogador com mais Bolas de Ouro e que ninguém sabe onde estará na próxima época. E o argentino, para não variar, marcou de grande penalidade e voltou a estar nos melhores lances ofensivos da equipa. No entanto, e também não não variar esta época, isso acabou por ser curto. E Mbappé, aquele que promete fazer capas e capas a fio nos próximos anos da France Football e de todas as publicações desportivas e não só, arrasou por completo os catalães como o ídolo Ronaldo (dois golos na vitória da Juventus por 3-0 que valeu ao conjunto de Turim o primeiro lugar do grupo) tinha feito na fase de grupos e marcou um hat-trick.

Ao contrário do que era esperado, sobretudo com o Barcelona a jogar em casa (ainda que sem público, como tem sido habitual), o PSG entrou mais confortável em posse e conseguiu mais vezes jogar no meio-campo adversário mas as movimentações de Frenkie de Jong e Messi tiveram sempre o condão de desposicionar a equipa francesa sem bola, criando espaços para oportunidades como aconteceu num remate cruzado após uma diagonal curta de Griezmann (14′). Em termos estratégicos, os catalães tentavam sobretudo fugir a situações de transição que fossem à procura de Mbappé, como aconteceu pouco depois após um perda de bola de Pedri a meio-campo que permitiu ao jovem avançado assistir Icardi para um remate cruzado com perigo (19′). Notava-se, entre a parte estratégica, que a qualidade individual podia fazer a diferença a qualquer momento. E foi mesmo uma questão de tempo.

Numa jogada onde De Jong procurou bola no espaço que tinha sido deixado em aberto por Messi, o argentino colocou no holandês e o árbitro assinalou uma grande penalidade que mesmo após algumas repetições foi deixando dúvidas entre os franceses (e a qualquer um, não se percebendo se existiu ou não um toque de Kurzawa no médio antes de tropeçar no seu próprio pé) mas que resultou mesmo no primeiro golo, com o capitão blaugrana a marcar a um Keylor Navas que adivinhou o lado mas não chegou à bola (27′). No entanto, o PSG demoraria apenas cinco minutos a restabelecer o empate, numa grande jogada que começou na esquerda, teve uma fantástica assistência de primeira de Verratti e acabou com um trabalho de craque de Mbappé a deixar Lenglet para trás e fuzilar Ter Stegen (32′). E até ao intervalo ainda houve espaço para mais golos, com o guarda-redes alemão a evitar o golo de Kurzawa (35′) e Griezmann a rematar perto do poste de Navas após um canto… a favor dos franceses (38′).

Estava tudo em aberto mas com um problema: o Barcelona não manteve a mesma capacidade de ocupar espaços e controlar transições dos parisienses. E isso foi meio caminho andado para Mbappé voltar a mostrar que é o futuro do futebol numa era pós Ronaldo e Messi: marcou o segundo golo aproveitando uma bola cortada por Ter Stegen após um erro de cobertura de Griezmann que não acompanhou Florenzi e empurrou para o 2-1 (65′); viu Moise Kean aumentar para 3-1 de cabeça ao segundo poste na sequência de um livre lateral (70′) e fechou as contas da goleada num contra-ataque conduzido por Draxler antes do remate em arco ao ângulo (85′). Mais do que uma “vingança” do 6-1 de 2017, o PSG mostrou que está melhor no plano coletivo com Pochettino. E que, mesmo sem Neymar na frente, conta um Mbappé apostado em começar a marcar desde já o futuro do futebol mundial.