O Estado português terá este ano, apesar de tudo, um défice menos descontrolado do que a generalidade dos parceiros europeus, segundo o FMI, que publicou esta quarta-feira mais um capítulo do World Economic Outlook (o Fiscal Monitor, dedicado às questões orçamentais). E este é apenas o início da história, porque em 2024, o fundo monetário conta que Portugal seja o rei dos excedentes na União Europeia, ultrapassando mesmo ligeiramente a Alemanha.

Como o Observador já escreveu esta terça-feira, o Fundo Monetário Internacional acredita que Portugal terá um défice de 5% este ano, pior do que a última previsão, feita em outubro, que apontava para 2,7% (ainda sem ter a perspetiva de um confinamento no início do ano). Antecipa ainda um défice de 1,9% em 2022 (pior do que as últimas previsões, mas já sob controlo) e que volte a haver excedente nas contas públicas em 2024.

Em relação à dívida, deverá ter 131,4% este ano (123% se forem descontados os depósitos do Tesouro) e uma descida para 125,6% no próximo (117%).

Mas há mais: o Fiscal Monitor indica que o Estado português deve ter um saldo primário (descontando os juros da dívida) em terreno negativo pelo segundo ano consecutivo (-2,4% do PIB), retomando os saldos positivos a partir de 2022 (+0,4% do PIB); enquanto o saldo estrutural (descontando os efeitos da conjuntura e medidas extraordinárias) continuará negativo este ano (-3,8% do PIB) e até 2023.

FMI vê défice português atingir 5% este ano e 1,9% em 2022

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Portugal contraria sul da Europa e lidera contenção orçamental

O esforço financeiro que continua a ser feito para combater a crise da pandemia é desigual no espaço comunitário, levando a défices entre 1,5% e 9% este ano, sendo que um total de 17 estados-membros deverão ter défices superiores aos 5% de Portugal (depois de, no ano passado, já terem sido 14).

Na União Europeia, é Espanha que deverá apresentar o maior défice este ano (-9% do PIB), seguida de Grécia (-8,9%) e Itália (-8,8%), todos no sul da Europa. Seguem-se República Checa, Bélgica, França, Roménia, Estónia e Eslováquia (na casa dos -7% ).

Ainda acima do défice português ficarão, segundo o FMI, Letónia, Áustria, Hungria, Eslovénia e Lituânia (mais de 6%), bem como Malta, Alemanha e Irlanda (na casa dos 5%).

Com défices mais baixos estarão, de longe, Luxemburgo (-1,5%) e Dinamarca (-1,7%), seguidos de quatro países com valores em torno dos 3% — Bulgária, Croácia, Suécia e Chipre.

Para os anos seguintes, o número de estados-membros com défice mais alto do que Portugal deverá aumentar — 19 países em 2022 (num ano em que ainda não deverá haver excedentes no espaço europeu), e outros 19 em 2023, quando só a Alemanha terá conseguido ligeiramente mais receitas do que despesas (+0,3%).

O mais surpreendente, no entanto, fica para o final. A confiança do FMI é tal em Portugal que acredita no maior excedente da UE em 2024, altura em que apenas outros quatro estados-membros deverão ter as contas anuais em terreno positivo — Chipre (+0,02% do PIB), Luxemburgo (+0,03%), Suécia (+0,08%) e Alemanha (0,48%). Portugal deverá ter 0,52%, segundo a base de dados do FMI que acompanha o Fiscal Monitor.

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Há mais de 100 países com défice superior a Portugal este ano

Se as contas forem alargadas a todo o mundo, há 103 países (e alguns territórios), num total de 195, com mais défice do que Portugal este ano, de acordo com as projeções do FMI.

Timor deverá ter, de longe, o pior défice do mundo, com um saldo de -31% do PIB, liderando pela negativa um ranking em que os primeiros 20 países têm défices superiores a 10%, incluindo EUA (-15%), Reino Unido (-11,7%), África do Sul e Austrália (ambos na casa dos 10%).

Fora destes 20 países, mas imediatamente a seguir, surgem Índia, China e Japão (todos na casa dos 9%). Espanha, o pior país da UE neste capítulo, aparece na 30ª posição.

Apenas oito estados deverão ter excedente nas contas públicas este ano e nenhum deles com particular relevância para a economia global: Nauru (na Oceania), com superavit de 15%, seguido de Sudão do Sul (+3,6%), República do Congo (+2,4%), Qatar e Angola (ambos na casa de 1%) e ainda Ilhas Marshall, Turquemenistão e Líbia (todos abaixo de 0,6%).