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Maria de Jesus Silva já tinha a lotação esgotada há uma semana. No Café Brasil, casa bem conhecida dos adeptos do Sporting em Coimbra, há muito que não se via uma azáfama tão grande. Afinal de contas, a espera pelo título de campeão nacional foi longa. Às 18h da terça-feira do dia decisivo, duas horas e meia antes do apito inicial do Sporting-Boavista, já havia quem estivesse à porta, vestido a rigor à espera da vitória. Costuma ser assim sempre que os leões jogam, sobretudo numa época como a atual. Acabou mas aqui já se espera pela próxima.

Não é por acaso que este estabelecimento é o local escolhido pelos adeptos dos leões para ver os jogos da equipa. A família a que pertence este café é adepta ferrenha do Sporting. As paredes estão repletas de cachecóis, posters e bandeiras do clube, e também atrás do balcão todos se vestiram a rigor para o jogo do título. A decoração do café não deixa espaço para dúvida para quem lá entra – até os aventais têm o leão dourado desenhado. O Café Brasil é um bastião dos leões conimbricenses e foi sentados nas suas mesas que muitos adeptos viram o Sporting ser campeão e mais tarde acabar a época com uma goleada na última jornada, tal como em 2000.

Chama-se Brasil, mas é um nome herdado dos donos anteriores, a quem, há 40 anos, Maria Jesus Silva e o marido compraram o estabelecimento. Em Coimbra o restaurante é mais conhecido como “aquele do Sporting” como explica Maria de Jesus Silva. Mas foi há duas décadas que este café passou a ser conhecido fora da cidade, um pouco por todo o mundo. O irmão de Maria conta que já conheceu pessoas de outros continentes que conheciam a história do Café Brasil. Tudo porque a proprietária cumpriu uma promessa feita pelo marido anos antes de o Sporting ter ganho o título em 2000.

De 25 para 100 escudos, a história que “fez” um espaço

De madeixa verde no cabelo – em homenagem a Maria José Valério – Maria Jesus da Silva conta que tudo começou com uma brincadeira entre o marido e amigos benfiquistas.

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“Nunca ganhávamos jogos mas éramos uma equipa boa. Então ele decidiu que enquanto o Sporting não fosse campeão, nunca mais aumentava o preço do café”, recorda a proprietária.

O marido de Maria Jesus da Silva faleceu antes de conseguir ver a equipa leonina ser campeã, mas a promessa ficou cumprida. A 14 de maio de 2000, com a vitória do Sporting por 4-0 diante do Salgueiros, uma bica no Café Brasil passou dos 25 para os 100 escudos. A história atraiu figuras bem conhecidas do desporto.

Isto porque a promessa feita pelo marido e mantida por Maria de Jesus da Silva chamou à atenção a nível nacional. Valeu uma visita do então presidente do Sporting Clube de Portugal, José Roquette. Com 82 anos, Manuel de Jesus, irmão da proprietária do restaurante, lembra-se bem da noite em maio de 2000 em que o Sporting acabou com o jejum de 18 anos sem conquistar o campeonato. Um convívio com muita festa… e alguns excessos.

“Aqui já havia um grande movimento sportinguista e por isso o José Roquette veio cá de propósito. Esteve sentado em cima do balcão. Pagou dois cafés, dançou com toda a gente aqui, partiram quase tudo. Mas foi uma despesa que depois foi compensada com a quantidade de pessoas que trouxe ao restaurante.”

Na altura o preço do café, apesar de barato, acabou por sair caro ao Café Brasil. Manuel de Jesus fala em prejuízos de milhares contos à custa de vender bicas a 25 escudos, mas sublinha que a promessa tinha de ser cumprida. No entanto considera que “para quem ama [o Sporting] não se perde nada”.

“Desta vez não mudámos o preço do café”

Em 2000, o preço do café passou de 25 escudos para 100. Mas hoje em dia para beber uma bica no 530 da Rua do Brasil são precisos 70 cêntimos. Ao contrário do que aconteceu em 2000, a vitória do Sporting na presente época não vai alterar o preçário. Maria de Jesus Silva explica que “foi uma brincadeira da altura e já não se repete”.

Há 19 anos, à porta do restaurante, havia casas e uma oficina. Desta vez, as celebrações à porta do Café Brasil aconteceram na rotunda recém construída. De sorriso nos olhos, Manuel de Jesus viu esse jogo entre Boavista e Sporting sentado à porta do estabelecimento e recorda a festa de há 19 anos. “O trânsito estava completamente interrompido em Coimbra, logicamente que aqui se concentrou uma multidão enorme. Não havia Covid-19 por isso não havia impedimentos. Agora é menos gente, mas é mais fervorosa! Valeu a pena esperar os 19 anos”, diz Manuel Jesus.

Uma semana antes de o País sair em peso à rua, já se antecipava a festa. O herdeiro do Café Brasil, José Silva, conta que, quando o Sporting venceu o Rio Ave por 2-0, esgotaram-se os lugares disponíveis para jantar na noite em que os leões acabaram por se sagrar campeões. Houve até quem ficasse ofendido. “Tive muitos amigos a chatearem-se comigo mas não havia nada a fazer”, conta.

Essa festa do título esgotou a comida no Café Brasil, entre o barulho da festa e de camisola às riscas verdes e brancas, José Silva explica que “acabou tudo, acabou o pão, a carne, o arroz. Só o Sporting é que nunca acaba”.