Um ano depois da edição mais polémica de sempre, o PCP avança a todo o gás para mais uma Festa do Avante!, em modo semi-desconfinado. Apesar de as regras não terem ainda sido validadas pela Direção-Geral da Saúde, os comunistas adiantaram-se e explicaram aos jornalistas qual o plano que querem pôr em marcha, e que incluirá um “espaço” para fazer testes rápidos e autotestes à entrada da Quinta da Atalaia, no Seixal (ainda não se sabe se serão obrigatórios) e uma “recomendação” para que os visitantes tragam os seus certificados Covid de vacinação, recuperação ou teste negativo.

Para uma sessão de apresentação da 45ª edição da festa, que está marcada para os dias 3, 4 e 5 de julho, os comunistas chamaram a comunicação social à Atalaia para mostrar as estruturas que começam a ser montadas e explicar qual é o plano. Desde logo, menos “densidade” nessas mesmas estruturas — ou seja, mais espaço ao ar livre, como no ano passado –, lugares sentados, máscara nos espaços assinalados, circuitos definidos e esplanadas mais amplas. Pelo menos, foi esse o plano de contingência que o PCP já entregou à DGS — e que espera poder revelar publicamente, com luz verde das autoridades e informação sobre se os testes e certificado podem ser apenas uma “recomendação”, nos próximos dias.

De resto, há novidades que mostram uma intenção de ‘desconfinar’: há espaços que tinham sido retirados no ano passado, como o espaço dedicado às crianças ou às atividades desportivas, e que regressam para esta edição.

Depois da polémica que rodeou o evento, o primeiro destas dimensões feito em tempos de pandemia e na altura ainda sem processo de vacinação, no ano passado, os comunistas garantem que desta vez só há mais razões para confiar. “Tomando a experiência de 2020 e do seu funcionamento reconhecido como exemplar”, explicou Alexandre Araújo, membro do secretariado do comité central comunista, “a Festa voltará a ser o espaço mais seguro para se estar no país”. Com uma ajuda preciosa: “Valorizamos o facto de a população estar a ser vacinada, isso acrescenta segurança”.

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O evento é, de resto, o reflexo do que tem sido o discurso político do PCP sobre a pandemia: se os comunistas desde cedo aumentaram que havia uma linha de alarmismo e “agigantamento” do medo sobre a pandemia, foi logo na Festa do Avante! do ano passado que defenderam que seria possível conjugar o cuidado com a saúde com a continuação da vida cultural e política. Há um ano, a DGS acabou por cortar, a poucos dias do evento, a lotação máxima para 16 mil pessoas — mas nem essa terá chegado a ser atingida, uma vez que o espaço da Atalaia esteve visivelmente muito mais vazio do que o habitual.

A consequência foi um prejuízo de 930 mil euros, segundo noticiava o jornal Eco há dias. Um mau resultado que o PCP explica com a “campanha desferida” contra o evento e o “medo” gerado no ano passado, mas também com os “investimentos” que fez para garantir a “segurança” dos visitantes — aproveitando para garantir que os comunistas não insistiram, afinal, em realizar a festa por “razões económicas”. E recusaram revelar orçamentos ou balanços das entradas já vendidas, esperando apenas que a lotação possa, este ano, ser maior.

Como é habitual, depois de uma sucessão de “60 debates” sobre a “atualidade política nacional”, a Festa será encerrada, no domingo, por Jerónimo de Sousa, num discurso onde será expectável que o líder dê força ao partido para enfrentar umas eleições autárquicas difíceis, a 26 de setembro — até porque os comunistas já avisaram que só querem falar assumidamente da negociação para o Orçamento do Estado depois das eleições, sem misturar os dossiês.

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Já o discurso de abertura do evento, na sexta-feira, voltará, tal como no ano passado, a ser transmitido apenas pelas colunas espalhadas pela Atalaia — há um ano, o PCP justificou a opção dizendo não querer “congestionar as entradas” do recinto em tempo de pandemia.

Apoio a Cuba em palco

Outra marca dos tempos pandémicos é que os comunistas voltam a convidar apenas artistas portugueses ou residentes em Portugal, como fizeram em 2020, para ajudar um setor cultural em dificuldades. Com uma exceção “de última hora”: como detalhou Madalena Santos, que pertence à organização da Festa, a delegação política de Cuba que visitará a Festa integrará uma cantora cubana, Annie Garcés. 

“Entendemos que, estando na representação, deveríamos dar-lhe também o palco”, explicou a representante, apostando no apoio ao regime cubano um mês depois de o governo comunista do país ter visto as maiores manifestações da Histórica recente nas ruas.

A restante aposta cultural juntará duetos de artistas portugueses como Tim (Xutos e Pontapés), Teresa Salgueiro, HMB, Lena d’Água ou Manuel Cruz, alguns dos quais estiveram presentes nesta sessão de apresentação.

Tim fez questão de deixar um agradecimento ao PCP: além de partilhar palco com a “amiga” Teresa Salgueiro, poderá agora “partilhar trabalho” (“são muito valorizados e os cachês são pagos na hora”, garantiu Madalena Santos). A ideia dos comunistas é mesmo essa: mostrar que, um ano depois da polémica, a vida — e a política — podem seguir.