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Um relatório das Nações Unidas publicado esta terça-feira alerta que, com os objetivos climáticos traçados pelos governos mundiais para 2030, a temperatura global vai aumentar pelo menos 2,7ºC, no decorrer deste século. O documento é lançado a menos de uma semana da 26ª Conferência sobre Alterações Climáticas.

Cimeira do clima decisiva para resolver o que ainda falta para cumprir Acordo de Paris

De acordo com o UNEP, sigla inglesa do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, a atualização e cumprimento dos atuais compromissos climáticos para 2030 reduzirá a emissão de gases com efeito de estufa em apenas mais 7,5%, comparando com os objetivos traçados anteriormente. Pode ler-se no comunicado de imprensa que os compromissos “ficam bastante aquém” do que é necessário para atingir os objetivos do Acordo de Paris.

“Para termos uma hipótese de limitar o aumento da temperatura em 1,5ºC, teremos oito anos para cortar as emissões para metade” — o que significa fazer planos, aprovar e implementar medidas políticas e fazer os cortes, segundo Inger Andersen, diretor executivo da UNEP

Para conseguir atingir este objetivo traçado pelo Acordo de Paris, o mundo terá exatamente esse tempo para cortar a emissão de todos os gases com efeito de estufa em 28 gigatoneladas (convertidas em emissões de CO2) — um valor superior ao prometido nos planos nacionais para 2030.

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Para pôr este número em perspetiva, prevê-se que no ano de 2021 só as emissões de dióxido de carbono (CO2) cheguem às 33 gigatoneladas em 2021. Se juntarmos emissões dos restantes gases com efeito de estufa, serão 60 gigatoneladas equivalentes a emissões de CO2.

Os compromissos para atingir o “net zero”, o que significa um equilíbrio entre a quantidade de gases emitidos para a atmosfera e a quantidade que é eliminada, “poderiam fazer uma grande diferença”, segundo os autores do estudo, porque abrangem 49 países mais os 27 da União Europeia. Contudo, os objetivos atuais são “vagos e não estão refletidos” nos planos dos Governos.

Ainda assim, a organização Greenpeace alertou na passada sexta-feira que o “net zero” não representa um esforço para reduzir as emissões para zero, e acrescenta que se o cálculo para atingir esse objetivo for mal feito, pode comprometer o esforço real de redução de emissões.

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O relatório aponta também para uma redução de emissões de metano, o segundo gás que mais contribui para o aquecimento global e que tem um potencial de aquecimento muito superior ao do CO2. Ainda assim, o metano tem um tempo de “vida” na atmosfera de 12 anos, o que significa que uma redução destas emissões poderia abrandar a subida da temperatura mais rapidamente do que os cortes no CO2.

A UNEP diz que a maior parte dos Governos “não aproveitaram a oportunidade”, que veio com a pandemia, de estimular a economia tendo em vista a ação climática.

“A pandemia de Covid-19 levou a um decréscimo nas emissões globais de CO2 em 5,4% em 2020″. Em 2021, espera-se que voltem a subir, ficando só um pouco abaixo do recorde atingido em 2019″, pode ler-se no comunicado relativo ao estudo.

“As alterações climáticas não são um problema do futuro. São um problema de agora”, alerta Inger Andersen.

Segundo a UNEP, até 30 de setembro de 2021, 120 países, correspondentes a pouco mais de metade das emissões globais, atualizaram os seus planos de contribuição climática, ou comunicaram novos.

O relatório é lançado a menos de uma semana da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, COP26, que se vai realizar em Glasgow entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro. O presidente da COP26, Alok Sharma, diz no relatório da UNEP que os compromissos definidos em Paris “poderiam ter baixado o aumento da temperatura em 4ºC.”

Ainda esta segunda-feira, também a Organização Mundial de Meteorologia (OMM) lançou um relatório, alertando para o perigo das emissões de CO2.

Nações Unidas fazem soar o alarme sobre gases com efeito de estufa

A concentração deste gás na atmosfera, que vem principalmente da queima de combustíveis fósseis e produção de cimento, é a principal causa do aquecimento global. Como o CO2 permanece na atmosfera durante séculos, e também no oceano, o aumento da temperatura que já se verifica vai persistir por décadas, mesmo que as emissões líquidas sejam reduzidas a zero rapidamente, disse a OMM.