Ter estado infetado com o SARS-CoV-2 e também ter sido vacinado contra a Covid-19 é mais protetor contra a variante Ómicron do que só estar vacinado ou só ter tido Covid-19, concluiu um estudo preliminar austríaco publicado esta semana. O relatório em pré-publicação indica também que quem foi vacinado com duas doses da Pfizer pode ter mais anticorpos contra a nova variante do que quem recebeu o esquema da Moderna ou da AstraZeneca, mas o melhor ainda é ter recebido a primeira dose da AstraZeneca e a segunda da Pfizer.
No estudo do Instituto de Virologia da Universidade Médica de Innsburck, na Áustria, os cientistas analisaram a quantidade de anticorpos neutralizantes para a variante Ómicron no plasma sanguíneo de pessoas recuperadas da Covid-19 ou de pessoas vacinadas contra a doença. Os números foram comparados aos títulos de anticorpos neutralizantes para as três variantes dominantes anteriores — Alfa, Beta e Delta. Estas foram as conclusões a que chegaram.
Os anticorpos de pessoas que já foram vacinadas contra a Covid-19 e que também já estiveram infetadas por outras variantes do SARS-CoV-2 foram mais eficazes a neutralizar a variante Ómicron do que os anticorpos de pessoas que estavam completamente vacinadas, mas que nunca tinham sido expostas ao coronavírus. Parece ser mais eficaz ter Covid-19 e depois ser vacinado do que o contrário, mas mesmo nestes casos a variante Ómicron consegue escapar mais aos anticorpos do que a variante Delta.
Houve mais pessoas com uma quantidade de anticorpos neutralizantes detetável entre quem foi completamente vacinado contra a Covid-19 sem nunca ter estado infetado do que entre quem já esteve infetado com outras variantes mas nunca foi inoculado. Entre as 70 amostras de pessoas vacinadas contra a Covid-19 que nunca estiveram infetadas, 23 (ou seja, 33%) desenvolveram um título de anticorpos neutralizantes detetável contra a variante Ómicron. No caso das 25 amostras de pessoas recuperadas da infeção, mas que nunca receberam a vacina, só duas (8%) tinham uma quantidade de anticorpos detetável contra a nova variante.
Foi melhor receber a primeira dose da AstraZeneca/Universidade de Oxford e a segunda da Pfizer/BioNTech do que receber duas doses da mesma marca — há mais pessoas com anticorpos neutralizantes e a sua quantidade também é maior. Das 20 pessoas que completaram um esquema heterólogo de vacinação contra a Covid-19, 13 delas (65%) tinham anticorpos neutralizantes detetáveis para a variante Ómicron. Entre as 50 pessoas que receberam duas doses iguais da vacina contra a Covid-19, só 10 (20%) tinha anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2 em quantidades detetáveis.
Entre as pessoas vacinadas com um esquema vacinal homólogo (com duas doses iguais), o plasma de quem cumpriu o esquema da Pfizer/BioNTech foi o que mais anticorpos neutralizantes tinha. E também houve mais pessoas com anticorpos detetáveis entre quem recebeu as doses dessa marca: foram nove em 20 das amostras (45%). Não foram detetados anticorpos neutralizantes em quaisquer das 20 amostras de plasma de pessoas vacinadas com a AstraZeneca/Universidade de Oxford e só houve uma deteção entre as 10 amostras de vacinados com a Moderna.
Vacinados ou recuperados, ou então mesmo as duas coisas, não há nenhuma circunstância em que a quantidade de anticorpos neutralizantes contra a variante Ómicron tenha sido tão elevada quanto a desenvolvida perante as três variantes anteriores — Alfa, Beta e Delta. Estes dados vão ao encontro de outros estudos que apontam que a variante Ómicron tem capacidade para escapar à resposta imunitária desencadeada estimulada pelas vacinas e desencadeada após uma infeção por outras linhagens.
Note-se, no entanto, que é necessária cautela na interpretação destes dados, uma vez que o estudo ainda está em pré-publicação na plataforma medRxiv e ainda não foi revisto pelos pares — um passo em que outros cientistas revisitam os resultados da investigação e as conclusões dos autores para avaliar a validade científica das informações transmitidas no relatório.
Algumas das limitações deste estudo são o número reduzido de amostras estudadas e a falta de informações adicionais sobre os participantes. A quantidade de anticorpos desenvolvida depende de vários fatores: por exemplo, a resposta imunitária das pessoas idosas ou com doenças imunocomprometedoras (com a sida, por exemplo) tende a ser menos robusta do que a de pessoas jovens e saudáveis.
Além disso, os anticorpos em circulação são apenas uma das frentes de batalha do sistema imunitário: uma pessoa que não tenha anticorpos detetáveis pode continuar protegida contra o SARS-CoV-2, graças à memória das células envolvidas na resposta imune.