Quando o coração de D. Pedro I do Brasil (IV de Portugal) fez a viagem para terras de Vera Cruz, para ser recebido por Jair Bolsonaro no âmbito das comemorações do bicentenário da independência, foram várias as vozes críticas que se fizeram ouvir. Entre historiadores que lembravam a relação complicada do primeiro imperador brasileiro com o país, passando por políticos da oposição que questionavam o impacto que a viagem teria sobre as contas públicas, a transladação do órgão esteve longe de ser pacífica, e levantou questões sobre as verdadeiras razões que motivaram o executivo brasileiro.
Oposição questiona viagem do coração de D. Pedro até ao Brasil, que causa polémica e memes
Bolsonaro recebeu pessoalmente o coração de D. Pedro durante as comemorações do bicentenário da independência
De facto, para lá do simbolismo histórico, a celebração teve também um significado político. A presença do coração de D. Pedro serviu sobretudo para lembrar o passado imperial do Brasil — um passado ao qual Jair Bolsonaro faz questão de se ligar e de manter vivo.
O Presidente do Brasil tem cultivado durante o seu mandato uma relação próxima com a família imperial brasileira. Apesar de o país ter abolido a monarquia em 1889 (mais de duas décadas antes de Portugal), a casa Orleães e Bragança, atualmente chefiada pelo príncipe Bertrand, de 84 anos, tem conservado ao longo dos anos algum poder político, que a tornam uma aliada importante do atual executivo.
Tal deve-se, em parte, à existência de uma franja significativa da população que se revê da monarquia. Estudos de opinião recentes dão conta de que 1 em cada 10 brasileiros veria com bons olhos um regresso da família imperial ao poder. São cerca de 21 milhões de pessoas; ou, na perspetiva de Bolsonaro, 21 milhões de eleitores com potencial para influenciar as eleições presidenciais.
O pretendente ao trono tem feito a sua parte para apelar aos súbditos. Numa carta aberta, publicada três dias antes da primeira volta das eleições, D. Bertrand apelou aos seus partidários, numa crítica clara ao Partido Trabalhista e a Lula da Silva, para “não votarem naqueles que querem trazer de volta uma agenda vermelha, que há tão poucos anos causou danos tão severos à nossa pátria”.
Mas, desengane-se quem pensa que a relação de Bolsonaro com os Orleães e Bragança é apenas motivada por interesse. Pelo contrário, monárquicos e bolsonaristas partilham vários ideiais políticos, ligados por um nacionalismo ultra-conservador comum aos dois campos.
Um “amor real” e a possibilidade de um vice monárquico
As semelhanças ideológicas tornaram possível que membros e apoiantes da família imperial tenham nos últimos anos integrado a plataforma política de Bolsonaro e ascendido a cargos de poder no seu governo. O secretário Nacional de Economia Criativa e Diversidade Cultural, Rafael Nogueira, é monáquico e ultraconservador, pertencente a uma ala que no Brasil foi batizada de “Olavismo”, numa referência a Olavo de Carvalho, professor universitário considerado o “guru político” de Bolsonaro, e que morreu no início do ano — com o chefe de Estado brasileiro a decretar luto nacional após a sua morte.
Escritor brasileiro e guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho morre aos 74 anos
O caso mais mediático foi no entanto o de Luiz Philippe de Orleães e Bragança. O príncipe, de 53 anos, tornou-se em 2018 o primeiro membro da família imperial a ser eleito deputado federal, concorrendo pelo Partido Liberal às eleições no Estado de São Paulo. Em 2022 chegou a ser apontado como provável vice-presidente de Bolsonaro na corrida à reeleição, tendo mesmo chegado a haver um encontro entre os dois.
A presumível candidatura acabou por não seguir em frente; de acordo com a comunicação social brasileira, o Presidente brasileiro tomou a decisão na sequência de alegações de que este teria participado numa orgia gay. Luiz Philippe negou:
Não sou gay e nem sei onde se fazem orgias. Quiça isso me trouxesse alguns pontos junto da comunidade LGBT”.
A verdade é que o caso acabou por manchar a reputação do príncipe, que acabou por ser reeleito para a Câmara dos Deputados nas eleições de 2 de outubro, mas com 40 mil votos a menos do que em 2018.
Além das repercussões políticas, as alegações fizeram mossa junto da família imperial, cujos ideais conservadores vão muito para lá da maior parte das monarquias modernas. A título de exemplo, ao contrário do que acontece com outras famílias reais no século XXI, a realeza brasileira está obrigada a casar com outros membros da nobreza, sob pena de perderem os seus direitos reais. Luiz Phillipe, que seria teoricamente um dos herdeiro de D. Bertrand, como seu sobrinho — Bertrand e o anterior pretendente, D. Luiz Gastão, o seu irmão, não tiveram filhos — ficou excluído da linha de sucessão por causa do casamento do seu pai com uma plebeia.
Rafael de Orleães e Bragança é o herdeiro de D. Bertrand, atual pretendente ao trono do Brasil.
O atual herdeiro direto de D. Bertrand, Rafael de Orleães e Bragança, de 34 anos, tem já o sangue 100% real. Por ser filho da princesa Cristina de Ligne, do Luxemburgo, pretence às família reais do Grão-Ducado e da Bélgica.
“Como Príncipe de Grão-Pará, comprometo-me a dedicar toda a minha vida ao Brasil, trabalhando em prol dos brasileiros sempre que necessário”, declarou em comunicado este verão, aquando da morte do anterior pretendente ao trono, D. Luiz Gastão. Rafael, que é empresário e reside em Londres, não é casado, estando assim ainda à procura do seu “amor real”.