O primeiro a falar foi Yevgeny Prigozhin, o empresário russo próximo de Vladimir Putin, que fundou o grupo de mercenários que luta pela Rússia na Ucrânia. E foi sobre o Grupo Wagner que falou. Em detalhe, falou de um desses homens, vindo da elite russa, e que se juntou aos mercenários para ir para a frente da batalha. Peskov é o apelido desse homem de 33 anos, o mesmo apelido do porta-voz do Kremlin. Não é coincidência. Nikolai é filho de Dmitry.
“Vou contar isto pela primeira vez. De todos os meus conhecidos, só uma pessoa, Dmitry Sergeyevich Peskov, em tempos conhecido como um liberal completo”, começou por contar o criador do Grupo Wagner, foi falar com ele, sobre o filho.
“Ele, Nikolai, viveu parte da sua vida na América ou no Reino Unido, se não estou enganado. E Peskov disse-me para tratar dele como um simples artilheiro.” E assim foi, explica Prigozhin, durante uma entrevista: “Um simples artilheiro, com lama até os joelhos, na merda, no olho do furacão. Poucas pessoas sabem disso.”
In a recent interview, Yevgeny Prigozhin said that Nikolai, son of Kremlin Press Secretary Dmitry Peskov, served as an artilleryman with Wagner PMC. pic.twitter.com/KkBRNwNskY
— Russians With Attitude (@RWApodcast) April 22, 2023
Esta segunda-feira, questionado pelos jornalistas, o porta-voz do Kremlin confirmou a veracidade da história, mas sem adiantar muito muito mais.
“Ele serviu uma vez nas Forças Armadas, cumpriu o seu dever constitucional. Agora, tomou uma decisão. É adulto. De fato, participou da operação militar especial, mas não gostaria de falar mais nisso, não está relacionado com o meu trabalho”, argumentou Peskov, o pai.
Nikolai diz que tomou a decisão sozinho, mas pediu ajuda ao pai
Foi numa entrevista ao Komsomolskaia Pravda, um tabloide que resiste desde os tempos soviéticos, que Nikolai Peskov contou a sua história. A iniciativa de juntar-se ao Grupo Wagner, disse, foi “absolutamente” sua, assim como a decisão de ir para a linha da frente.
No entanto, pediu conselhos ao pai, já depois de tomada a decisão. “Quando decidi que queria participar, não sabia como chegar lá”, conta, confirmando que teve de pedir ajuda a Dmitry Peskov. “Perguntei-lhe como podia entrar em contacto com o Grupo Wagner e ele ajudou-me com isso.”
O motivo que o levou a combater? “Considerei que era meu dever. Só tinha de participar, tinha de ajudar quem lá estava. Não podia sentar-me à margem e assistir a amigos” a irem para a frente da batalha, explicou.
Em setembro de 2022, quando o comentador político Dmitry Nizovtsev ligou para os filhos de várias figuras importantes do Kremlin, a resposta de Nikolai fez história. Nizovtsev fingia ser um comissário militar e pedia aos homens que se apresentassem para um exame às 10h00 do dia seguinte.
“Vou resolver isto noutro nível”, filho de Peskov recusa apresentar-se para mobilização parcial
“Claro que não vou às 10h amanhã. Se sabe que sou o Sr. Peskov, devia perceber o quão errado é para mim estar lá. Eu vou resolver isto a um nível diferente. Preciso de compreender no geral o que está a acontecer e quais são os meus direitos”, respondeu.
Nikolai Peskov garantiu não ter problemas em defender a sua pátria, mas disse que tem de perceber se é “viável” para si estar no terreno. “Estou pronto para ir, mas não a seu pedido. Se Vladimir Vladimirovich [Putin] me disser para ir, eu irei. Neste momento estou fora dos critérios e da reserva.”
Segundo a versão que Nikolai agora conta, não foi preciso Putin fazer-lhe o pedido. Os seus pais, contou, ficaram preocupados, mas apoiaram a sua decisão. “Toda a família. Disse-lhes que tomei essa decisão. Não responderam. Perguntaram se tinha certeza de que entendia para onde estava a ir. Respondi que sim e eles disseram ‘vá em frente’.”
Dmitry Peskov's son fought in Wagner.
Prigozhin told
According to him, 33-year-old Nikolai Peskov was a gunner.
"Peskov, once known as a liberal, came and said – 'take him as a gunner'.
He worked absolutely fine, knee-deep in mud, in shit." pic.twitter.com/KTIlBNDBCD— Eureka news (@Eureka_News_ENG) April 24, 2023
No campo de batalha, não usou o apelido do pai
Quando se juntou aos outros mercenários do Grupo Wagner, Nikolai diz que foi bem recebido. No entanto, ninguém sabia quem ele era, já que mudou de apelido. “Quando fui para lá, tive de mudar o apelido. Ninguém realmente sabia quem eu era. Como não nos tratamos pelo primeiro nome, nem pelo apelido, mas pelo indicativo de chamada, isso tornou a tarefa mais fácil”, esclareceu.
Quanto ao nome que usou, não quis revelá-lo, já que acredita que pode voltar a precisar de usá-lo.
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Durante os seis meses que esteve com os Wagner, pouco falou com a família. Não recebia chamadas e não era seguro telefonar para casa. Apesar disso, conta que chegou a falar com o pai e com a sua mulher apenas para dizer que estava bem e vivo.
Questionado sobre as zonas por onde andou, e as missões que levou a cabo, Nikolai Peskov escusa-se revelar, por ser confidencial. “Infelizmente, não posso divulgar essa informação. Mas trabalhávamos constantemente, viajávamos com frequência. Muito trabalho.”
As it became known from an interview with Nikolai Peskov, the son of the press secretary of the President of Russia, he took part in a special military operation to demilitarize and denazify Ukraine as part of the Wagner PMC. pic.twitter.com/hWNqmjPCt1
— Avia.Pro – ????️Foreign Affairs – ????Geopolitics (@avia_pro) April 22, 2023
Já depois do final do ano, Nikolai conta que recebeu a Medalha de Coragem. O feito militar, “a façanha que toda a equipa levou a cabo”, ficou por revelar. “Tivemos um passeio interessante. Não posso dizer mais.”
Apesar dos vários relatos, dos Peskov e de Prigozhin, ainda há quem conteste a ideia de que o filho do porta-voz do Kremlin esteve mesmo na frente da batalha, principalmente do lado ucraniano.