Na sua estreia enquanto líder do PCP a partir do palco da Quinta da Atalaia, Paulo Raimundo confirmou qual será a prioridade dos comunistas no ano político que agora começa: incentivar a “luta” — os movimentos de contestação social que Raimundo, dadas as funções que já desempenhou dentro do partido, conhece por dentro — contra a “chocante contradição” entre a “vida dura” dos trabalhadores e a “riqueza” dos grandes grupos económicos.

“A verdade é que, enquanto uns poucos se apropriam da riqueza, a grande maioria nem lhe sente o cheiro“, atirou Raimundo, no comício de encerramento de um Avante em que, ao contrário do costume, a chuva atrapalhava a tarefa dos militantes que agitavam bandeiras vermelhas diante do palco. Com ou sem chuva, o que importa é que trabalhadores e juventude estejam “juntos”, pediu Raimundo, referindo já as próximas grandes “ações de luta” pelo SNS, Habitação e contra o aumento do custo de vida, marcadas para setembro e outubro.

“A única inevitabilidade é a luta”, sentenciou o sucessor de Jerónimo de Sousa, acrescentando de improviso: “E a sua intensificação”. E quando os trabalhadores — a “grande maioria” que sofre com as desigualdades — perceberem a força que têm, “então é que isto vai mesmo, mesmo mudar”, profetizou, rematando com mais um ataque dirigido ao PS e ao seu mantra das contas certas: “As contas certas deles desacertam e de que maneira as nossas vidas”.

A mensagem para o partido que “não cede”

Consciente de que por agora os ventos estão longe de soprar a favor do PCP, parte da mensagem foi dirigida às tropas comunistas, pedindo-lhes que não desanimem: “Aqui está o Partido confiável e que não anda ao sabor do vento, que não cede ao medo, à chantagem, à ameaça, à mentira, e que em nenhum momento abandona os trabalhadores e o povo”, lançou Raimundo, para gáudio da audiência. E acrescentou: o PCP conhece bem “o poder do inimigo” e até acredita que é vítima de “silenciamentos mais ou menos organizados”, mas lutará contra todas as “sentenças” — de morte, ou desaparecimento, presume-se — que lhe “decretem”.

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Entretanto, o PCP promete apresentar propostas que ajudem a tal maioria que vive em esforço, e Raimundo referiu algumas delas — embora já vão longe os tempos em que o palco da Atalaia servia ao PCP para enviar ao Governo recados e exigências para as maratonas de negociação orçamental em que se sentavam à mesma mesa, a da geringonça.

Agora, o partido quer ver aumentadas todas as pensões em 7,5%, com um mínimo de 70 euros; vai reapresentar no Parlamento propostas para travar penhoras e despejos e impor “como limite máximo 0,43% de aumento para todas as rendas no próximo ano”; fixar a partir da Caixa Geral de Depósitos um spread máximo de 0,25%; pôr os lucros “colossais” da banca a suportar o aumento das taxas de juro; aliviar o IRS para os trabalhadores e reformados; aumentar do número de escalões e actualização do valor da dedução específica; baixar o IVA na electricidade; e tributar dos lucros dos grupos económicos. “Estamos curiosos sobre o posicionamento dos que enchem todos os dias a boca com os impostos quando forem confrontados com estas propostas”, atirou Raimundo, voltando a colar, como fez várias vezes durante este discurso de estreia, o PS a PSD, Chega e IL.

EUA, NATO e UE responsáveis por “confrontação”

Quanto ao assunto polémico que tem dificultado a vida ao PCP — a sua posição sobre a guerra, que nesta edição deu mote a um número muito consideravelmente menor de debates durante a Festa, relativamente ao ano passado — Raimundo arrumou-o falando da “autoridade” que o PCP tem porque “desde sempre se empenhou e empenha contra a guerra e pela construção de um mundo seguro; afirmamos que é preciso dar uma oportunidade à paz, que precisamos mais de amizade e cooperação e menos de ódio e belicismo”.

“É preciso agir, face aos que, indiferentes à morte e à destruição, apostam no conflito militar em vários pontos do mundo e insistem a todo o custo na continuação de uma guerra que na Ucrânia já leva nove anos, que nunca deveria ter começado e que é urgente parar”, atirou, conseguindo com isso um dos maiores aplausos dos largos minutos em que discursou. Já no arranque do discurso tinha acontecido o mesmo, ao acusar EUA, NATO e UE de “intensificarem a exploração e confrontação por todo o mundo”.

Enquanto isso, “faça chuva ou faça sol” o PCP cá estará, gracejava de improviso Raimundo, já na parte final do discurso. “Boda molhada é boda abençoada”, ouvia-se nos bastidores do palco, enquanto se protegiam com capas de plástico os aparelhos mais sensíveis à chuva. Neste caso, o PCP desejará que seja uma estreia abençoada para um caminho difícil, que levará o partido já a duas eleições nos próximos meses (na Madeira e na Europa).