Esta manhã esteve limpa, já a relação institucional entre Belém e São Bento já esteve mais inteira — embora este sábado tenha havido momentos de uníssono, reduzidos a pouco mais do que uma canção (de fácil harmonia), um chocalho e a um copo de vinho. No almoço comemorativo dos 50 anos da criação do Movimento dos Capitães, em Alcáçovas, deu-se o primeiro encontro público entre Presidente e primeiro-ministro, depois da semana tumultuosa, onde entoaram juntos o “Grândola” e onde Marcelo normalizou “divergências”, garantindo ter uma “relação exemplar” com Costa, na política externa e, pelo menos, “no fundamental” da política interna. Mas Costa evitou estar ao seu lado nessas declarações.

“Tivemos sorte com o tempo”. Quando não há muito mais a dizer, é sempre um bom desbloqueador de conversa e foi este que Marcelo usou com Costa, em Viana do Alentejo onde o final da manhã estava sem chuva e até com algum calor. O primeiro-ministro concordou, embora com um esgar de quem diz que o calor estava a mais. Não tão quente como a última semana política que levou António Costa a sinalizar publicamente que cada órgão de soberania deve dedicar-se às suas funções e que a oposição é feita… pela oposição (e não pelo Conselho de Estado). Já o Presidente passou o resto da semana a interpretar que não era com ele que Costa estava melindrado.

Seja como for, este sábado de manhã, Costa preferiu não fazer declarações ao lado do Presidente — ainda que tenha sido convidado a isso — e remeteu para o ministro dos Negócios Estrangeiros o que o Governo tinha para dizer neste dia de sismo em Marrocos. O primeiro-ministro afastou-se, assim, do local onde os jornalistas rodeavam o Presidente que ficou a falar do apoio português a Rabat e da “convergência total” e da “eficácia total” que existe no plano institucional na política externa.

E no plano interno? “Nunca houve divergências que não sejam de funcionamento normal da democracia”, disse Marcelo quando confrontado com as discordâncias das últimas semanas. “São divergências normais que acontecem ao longo de oito anos de funcionamento de sucessivos governos, mas em política externa, como interna no fundamental, como sabem Portugal é exemplar, a convergência é total e a eficácia é total.”

No Monte Sobral, onde há precisamente 50 anos se reuniu pela primeira vez o Movimento dos Capitães, para preparar o golpe de abril seguinte, a sintonia entre os dois aconteceu, no fundamental, enquanto ouviam um grupo de cante alentejano cantar o Grândola e iam repetindo, cada um dos dois, a letra, “em cada esquina um amigo”. Depois também tocaram juntos os chocalhos que lhes foram oferecidos pelo presidente da câmara local.

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Capitão de abril no ataque aos “atropelos”

Antes do almoço e já depois de ter servido um copo de vinho, que Costa aceitou, o Presidente fez uma longa intervenção a louvar o 25 de Abril onde aproveitou para garantir que o país é “um exemplo de estabilidade política a institucional” e para defender que não se pode “querer democracia com tiques de ditadura”.

A conversa não enchia as medidas à plateia onde estavam 47 dos 136 capitães que estiveram na reunião de há 50 anos. Entre eles  Vasco Lourenço, um dos principais promotores do Movimento de Capitães, que já tinha atirado “folclore” e aos “órgãos de soberania” que “parecem atropelar-se uns aos outros”, quando se queixava da falta de resposta para as reivindicações dos militares.

Mas Marcelo ia embalado e embora admitisse como “legítimo” que os que fizeram o 25 de abril “olhem para trás e para os seus sonhos e encontrem uma parte realizada e outra para realizar”, apresentava-se otimista dizendo que isso também é “um sinal de insatisfação, de querer mais e melhor”. E recuou até às suas origens e passado familiar (do pai) ligado à ditadura para avisar que acompanhou “por dentro e por fora o que era a ditadura” por isso: “Não me venham dar lições agora, que a democracia e o 25 de abril não valeram a pena e não marcaram a diferença total relativamente ao passado anterior”. Pediu mesmo “pedagodia para o futuro” contra “apelos mais ou menos propagandisticos de ruturas e mudanças radicais”.

Momentos antes, tinha pegado num bebé, ali também no Monte Sobral. O bebé dormia profundamente ao colo de Marcelo que ia garantindo a todos que ali estava “o futuro”, enquanto repetia “25 de abril, sempre”. António Costa não disputou colos e notou apenas que a criança tinha o punho fechado e erguido, imitando o gesto com o punho esquerdo no ar (como o símbolo do PS). A Marcelo, que este sábado quis dar colo à estabilidade e convergência, tanto faz. Também isso é o abril que trouxe o “pluralismo” de “ter um Presidente de direita e um primeiro-ministro de esquerda”, como fez questão de sublinhar no seu discurso que Costa acompanhava atentamente. Cá dentro, tudo aparentemente sereno (a julgar pelo Presidente), entretanto, lá fora já chovia.