A regra é clara: André Ventura fala aos jornalistas uma vez por dia antes do comício da noite. Mas a atualidade noticiosa já o obrigou a duas exceções, uma delas este sábado, depois de a TVI ter noticiado que uma auditoria da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) encontrou indícios de “incumprimento da lei dos donativos” e “eventuais financiamentos proibidos” nas contas do Chega de 2019. O líder do Chega fez questão de esclarecer o que está em causa: há problemas nas contas de 2019, mas assegura que as informações de que o partido não entregou as listas de donativos em 2021 e 2022 “não fazem sentido”.

Ora, Ventura esclareceu que não se trata de uma “suspeita [da Entidade de Contas] de financiamento ilegal” e explica que o problema está no pelo facto de, “por não terem sido identificadas algumas verbas” de doadores, a auditora não ter conseguido “fazer esse trabalho” — “Fomos nós que dissemos à auditora.”

E justificou o porquê de ter acontecido isto no ano em que o partido foi fundado: “Em 2019 o Chega tinha um sistema, que ainda muitos partidos têm, de mera transferência. No final do ano, o Chega entregou todas as transferências com nomes e extratos e houve alguns desses extratos que não foram possíveis de identificar, o Chega recebeu a notificação e foi ao banco para identificar pessoas, [mas] houve casos em que o banco se recusou a fazê-lo.”

Por outras palavra: nessa altura, o Chega recebia transferências, mas só “aparecia o nome” da pessoas e Ventura explica que “aparentemente não foi conseguido identificar uma pessoa concreta” com o nome que disponibilizado pelo banco. Como tal, a Entidade de Contas não sabe quem são algumas das pessoas que fizeram donativos ao Chega.

“E não podemos fazer mais nada”, acredita o presidente do Chega, frisando que a entidade “não deu nenhuma solução”, já que a “responsabilidade” é do partido, que terá de “voltar a pedir os dados ao banco” e, se não forem disponibilizados os dados, o Chega vai “reportar ao Ministério Público” porque “tem de ser uma autoridade judiciária a pedir esses nomes”.

Questão diferente é o facto de, segundo a TVI, o partido ter deixado de entregar as listas de donativos nos anos mais recentes em 2021 e 2022. André Ventura rejeitou essa informação e disse que “o Chega entregou todos os documentos”, justificando que depois do que aconteceu em 2019 o partido “mudou o sistema de faturação de donativos e hoje tem um sistema muito mais completo do que todos os outros”.

“Todos os meses a Autoridade Tributária recebe todos os que fazem donativos ao Chega”, explicou, garantindo que “a Entidade de Contas manda fazer a auditoria e tem esses documentos”. “O Chega é o partido mais transparente de Portugal e entrega todos os meses isso à Autoridade Tributária e, digo mais, se vocês quiserem será entregue a vocês”, insistiu, garantindo que “não fazem sentido” as informações noticiadas esta sexta-feira. E perante a insistência dos jornalistas, explicou que em 2021 e 2022, anos referidos pela reportagem, o “sistema está diferente” e agora, perante transferências, “emite um recibo com nome, morada, data de nascimento e residência”. “Quando começa a auditoria têm acesso a tudo e é muito mais completo do que os outros”, assegurou, apelando a que “todos os partidos tenham um sistema” igual ao do Chega.