A morada do convite indicava que o desfile de outono/inverno de Ralph Lauren seria no quartel-general da marca, na novaiorquina Madison Avenue. Mas, ao contrário de outros momentos que foram verdadeiros acontecimentos sociais, esta segunda-feira à noite uma audiência limitada a 100 convidados viu a coleção de 45 looks e viajou no tempo, até 1972, quando o designer apresentou as suas primeiras criações femininas naquele mesmo local. Não faltaram, no entanto, o brilho, o carisma e as celebridades habituais, afinal Ralph Lauren é da realeza da moda.

Christy Turlington, do restrito grupo de super models dos anos 1990, abriu o desfile e definiu o tom, tanto na elegância da sobriedade como nas cores. A coleção dançou entre tons de bege e cinza que não se deixaram definir por nome, mas sim por texturas como as camisolas de malha sobre saias acetinadas, as transparências dos tules ou a resistências das fazendas. Depois vieram os castanhos escuros e, claro, o preto. Na coleção que a marca diz ser de Fall/Holiday 2024, lá estiveram os elementos clássicos da marca, como os chapéus de cowboy ou o chique instantâneo que Lauren faz parecer fácil ao juntar uma saia comprida com uma camisola de malha, os vestidos brilhantes que parecem deslizar pelo corpo ou as peças roubadas ao guarda-roupa masculino tornadas sensuais e femininas. No geral, não houve surpresas ou looks arrebatadores, mas Ralph Lauren aplicou a receita de elegância descontraída para a qual só ele parece ter o ingrediente secreto.

O designer já criou os seus próprios desfiles espetáculo, como por exemplo quando celebrou os 50 anos da marca com uma passerelle montada no Central Park, em Nova Iorque, em 2018, ou quando abriu as portas da garagem onde guarda a sua coleção de carros, para a coleção de outono/inverno de 2017/18. Embora estes exemplos reflitam, sem dúvida, a essência da marca, desta vez a máxima parece ter sido recentrar e apostar na elegância sóbria.

O próprio Ralph Lauren começou por fazer uma viagem no tempo até 1972, quando apresentou a sua primeira coleção de prêt-à-porter para mulher, uma altura em que se sentia como o “Sr. Couture”, disse aos jornalistas.  Contudo, o regresso às origens foi apenas para inspiração, porque o designer de 84 anos já conta mais de 50 dedicado à moda e conhece bem o seu público. “Eu queria fazer algo muito simples e fácil”, disse Lauren aos jornalistas em antevisão do desfile citado pela Women’s Wear Daily (WWD). “Não é uma história, não é um statement. Não creio que as mulheres jovens se vistam assim hoje, ou alguém que seja. As pessoas misturam, querem ser casuais e ecléticas e ter uma voz.”

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Glenn Close e Jessica Chastain duas das convidadas famosas do desfile de Ralph Lauren

Apesar de todo o brilho da coleção, não faltou o toque de magia de alguns membros da legião de clientes celebridades que há anos acompanha Ralph Lauren. A atriz Glenn Close usou um fato branco de calças e blazer que foi feito especialmente para ela há cinco anos e com o qual, segundo contou a própria, ganhou um prémio SAG. “Continua igualmente bonito. É uma pena usar algo assim apenas uma vez”, cita a ABC News. Houve mais rostos conhecidos do cinema, como por exemplo, Jessica Chastain, Jodie Turner-Smith ou Kerry Washington. Também Anna Wintour deu o selo de aprovação.

A uma semana da Met Gala, o evento galático que desenrola em Nova Iorque a mais importante passadeira vermelha do ano, David Lauren, filho do fundador, avisa que este ano a marca não está focada nesta festa, mas sim em vestir a equipa norte-americana para os Jogos Olímpicos e na próxima semana de moda masculina em Milão. Depois do desfile, os convidados terão caminhado pela rua para um restaurante do grupo, Polo Bar. Relata alguma imprensa que as modelos terão seguido pela rua a usar as roupas do desfile, num movimento espontâneo que poderia perfeitamente ter sido uma campanha da marca.

Fora das passerelles é nas pistas que Ralph Lauren encontra outra das suas paixões, uma vez que é um colecionador de automóveis notável. Vê “os carros como arte em movimento” e a sua vasta e rica coleção já foi objeto de, pelo menos, um documentário e uma exposição.

Antes de ser o Sr. Lauren, Ralph nasceu a 14 de outubro de 1939 com o nome de família Lifshitz, filho de imigrantes judeus no Bronx. As passagens pela faculdade de Nova Iorque, pelo serviço militar, pelos armazéns de luxo Brooks Brothers como assistente de vendas e como vendedor da gravatas da marca Rivetz foram tudo aprendizagens de um empreendedor. Começou o seu percurso na moda a criar gravatas que vendia numa gaveta num espaço no Empire State Building. Foi aí que arrancou o império que hoje o nome Ralph Lauren representa. De forma muito resumida, o próximo objetivo foi o vestuário masculino e só depois o feminino. O famoso Polo nasceu em 1972 e 50 anos depois podemos confirmar que se tornou um clássico.

Uma das características que distingue Ralph Lauren é que o fundador tornou-se a imagem da sua marca e com ele a sua família. Ralph casou-se em 1964 com Ricky Low-Beer, uma rececionista de um consultório que viria a tornar-se uma dos protagonistas do sonho americano que o marido queria vender. Tiveram três filhos: Andrew, que se dedicou à indústria do cinema, David, que assume um cargo na presidência da empresa criada pelo pai, e Dylan, a fundadora de uma marca de doces.

Em 1987 foi submetido a uma cirurgia para remover um tumor benigno no cérebro, o que não o fez desacelerar. Só viria a deixar o comando como CEO do império em 2015, mas mantém-se por perto e atento. Quando era jovem, Ralph Lauren encontrou inspiração na magia do cinema. Anos mais tarde viria ele a ser a personagem principal de uma série de momentos em que os seus feitos foram celebrados por todo o mundo, entre os quais uma cerimónia no Palácio Buckingham em que o então príncipe Carlos fez de Mr. Lauren o primeiro norte-americano a ser Kight Commander of the Order of the British Empire (KBE) por serviços prestados à moda. Apesar de o vermos muito, ouvimos pouco, porque Ralph Lauren dá raras entrevistas. Mas o documentário “Very Ralph” lançado na HBO em 2019 dá uma ajuda a contar a sua história.