O ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert pediu esta quinta-feira à União Europeia (UE) para abandonar a diplomacia tradicional, amável e hipócrita em relação ao Médio Oriente por ser urgente parar a guerra na região.
“Temos de começar a fazer alguma coisa extraordinária e não continuar a atuar da forma diplomática tradicional, educada, comedida, simpática, gentil. Deixemos de ser cavalheiros, isto é uma guerra, temos de a parar e de fazer a paz”, disse Ehud Olmert, em Madrid, onde participou numa conferência do Real Instituto Elcano ao lado do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Autoridade Palestiniana Nasser al Kidwa.
Ehud Olmert e Nasser al Kidwa têm um plano de paz conjunto para o Médio Oriente e ambos defendem que a única solução para a região e para alcançar a paz a longo prazo é a concretização dos dois Estados (Palestina e Israel).
“Somos dois tipos duros. O novo objetivo é servir os nossos dois povos. Não temos de gostar uns dos outros, mas temos de aprender a coexistir. Os nos aniquilamos ou coexistimos”, disse Nasser al Kidwa.
Ehud Olmert desafiou os 27 ministros dos Negócios Estrangeiros (MNE) da UE a quebrarem “o protocolo da hipocrisia e da amabilidade diplomática”, fazendo uma reunião em Bruxelas em que ele próprio e Nasser al Kidwa apresentariam a sua proposta para o Médio Oriente e à qual a Europa no seu conjunto manifestaria apoio.
“Isto criaria um eco enorme em toda a Europa e na comunidade internacional e depois talvez ajudasse os americanos, os sul-americanos, o sudoeste asiático e outros [a dar um passo]”, afirmou.
Ehud Olmert e Nasser al Kidwa concordaram em que, para além da comunidade internacional, os dois lados — israelita e palestiniano — “têm de fazer mais” em prol da coexistência e da paz e que enquanto o primeiro-ministro de Israel for Benjamin Netanyahu não há possibilidades de avanço em qualquer solução.
Ehud Olmert disse que Israel tinha de responder ao ataque de 7 de outubro de 2023 do grupo islamista Hamas, mas considerou que a operação militar de Telavive em Gaza já devia ter parado há muito meses, que são injustificadas tantas baixas de soldados e tantas mortes de civis palestinianos.
Para o primeiro-ministro de Israel entre 2006 e 2009, a continuação da guerra em Gaza acabou também, provavelmente, com qualquer possibilidade de resgatar todos os reféns que o Hamas fez há um ano.
Sobre a guerra no Líbano, para combater a milícia Hezbollah, Ehud Olmert defendeu que a via diplomática é a solução, até para evitar um conflito entre o Irão e Israel, que se transformaria num conflito entre o Irão e os Estados Unidos.
Quanto ao cenário pós-guerra, o antigo primeiro-ministro disse que Israel até pode declarar “vitória total” e dizer que eliminou os ativistas do Hamas ou do Hezbollah, mas considerou que o Governo do país não está preparado para dar as respostas fundamentais sobre o futuro e “pode estar a condenar-se a si próprio”.
“Continuará a haver seis milhões de palestinianos. Que faremos? Vamos continuar a ocupar-lhes territórios, a negar-lhes o direito à autodeterminação, os direitos políticos, a liberdade de expressão e de movimentos?”, questionou.
“Israel pode estar a condenar-se a si próprio, tudo isto seria intolerável aos olhos da comunidade internacional” e “a liderança israelita não está preparada” para responder a estas questões, disse Ehud Olmert.
Quanto ao lado palestiniano, Nasser al Kidwa disse que há “impotência” parte da Cisjordânia e da Autoridade Palestiniana “e um bando de loucos” (o Hamas) em Gaza, sendo necessária uma mudança completa.
“A situação palestiniana é realmente miserável”, disse Nasser al Kidwa, que considerou essencial haver um verdadeiro “maestro palestiniano”, que seja a voz da Palestina a nível interno e internacional e que crie as condições para haver também “uma posição árabe comum”.
Os dois destacaram ainda o papel fundamental dos Estados Unidos e desejaram que a atual vice-presidente e candidata democrata Kamala Harris ganhe as eleições presidenciais norte-americanas de novembro.
“Nem quero pensar no que acontecerá se Trump ganhar”, disse Nasser al Kidwa.