A greve dos maquinistas da CP – Comboios de Portugal levou esta sexta-feira à supressão de 788 dos 1.048 comboios programados (71,4%) entre as 00h e as 19h, segundo dados enviados pela empresa à agência Lusa. O Metro do Porto só está a funcionar no tronco comum (Senhora da Hora — Estádio do Dragão) e os passageiros queixam-se de um elevado tempo de espera, que passou dos dois minutos habituais para cerca de 15.
Segundo a CP, nas ligações urbanas de Lisboa estavam programados 479 comboios e foram suprimidos 369. Já nos comboios urbanos do Porto foram suprimidos 161 dos 217 programados. Quanto aos comboios de longo curso, estavam programados 67 comboios, dos quais 51 foram suprimidos. Nos comboios regionais, foram suprimidos 195 dos 257 programados.
Em Lisboa, na Gare do Oriente, Nuno Carvalho, um dos passageiros afetados, conta que não tinha conhecimento prévio da greve dos maquinistas marcada para esta sexta-feira e fala em “vergonha”. “É uma vergonha. Fazem tudo o que querem agora e nós temos que nos aguentar”, afirma, em declarações à Rádio Observador, após ser questionado sobre a paralisação, que o levou a chegar atrasado ao trabalho.
Na estação de Entrecampos, os maquinistas da CP conseguem algum apoio. Uma das passageiras afetadas diz à Rádio Observador que está “de acordo com a greve” e que os funcionários “precisam, sim, de se movimentar”, mesmo que isso cause constrangimentos. “A legislação precisa de prever o funcionamento mínimo, o mínimo os sindicatos precisam de respeitar, mas [a greve] é a forma de os trabalhadores conseguirem alguma coisa”, acrescenta.
No Porto, a segunda região do país mais afetada pela greve, a estação de São Bento está mais silenciosa do que o habitual. Diogo Rodrigues, estudante da Universidade do Minho, sabia que os maquinistas da CP estariam em greve esta sexta-feira, mas precisava de apanhar o comboio para chegar às aulas.
Ainda assim, apesar de o comboio que deveria ter apanhado ter passado pela estação, não o apanhou. “Não me compensava muito. Iria acabar por chegar atrasado às aulas e, por causa da greve, em princípio só teria comboio para voltar por volta das 18h, o que faria com que só chegasse a casa muito mais tarde do que o normal”, justifica Diogo Rodrigues à Rádio Observador.
No Metro do Porto, a paralisação é quase total, circulando apenas algumas carruagens no tronco comum, entre a Senhora da Hora e o Estádio do Dragão. Na estação do Bolhão, uma das que não está fechada e por onde o metro ainda passa, vários foram os passageiros que se queixaram ao Observador do elevado tempo de espera — que aumentou dos habituais 2 minutos para cerca de 15.
Rita Gonçalves, de 20 anos, teve “sorte” porque conseguiu boleia do pai para a estação de Senhora da Hora, onde apanhou o metro. Contudo, disse não saber como vai chegar a casa no final do dia: “Não sei como vou fazer. Porque se fosse de autocarro tinha de apanhar dois e andar mais 20 minutos a pé. Se calhar vou chamar um Uber”. “Em vez de chegar a casa às 15h, vou chegar quase às 16h. E vou pagar 20 euros de Uber, tendo em conta que para mim o passe é gratuito [por ser menor de 23 anos]”, explica, acrescentando que vários colegas não foram às aulas porque não conseguiram apanhar comboios e metros, enquanto outros chegaram “muito atrasados”.
▲ O Metro do Porto quase não circula
Direitos Reservados
Os constrangimentos no Metro do Porto começaram na quinta-feira à noite, com as últimas partidas, ao contrário do habitual, a terem-se registado entre as 22h e as 23h.
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Na Fertagus, que faz a ligação ferroviária entre Setúbal e Lisboa, com passagem pela Ponte 25 de Abril, “a greve dos maquinistas não está a afetar” o serviço, que decorre “sem alteração” e com “todas as circulações de um dia normal”, segundo fonte oficial da empresa.
O Sindicato Nacional dos Maquinistas dos Caminhos de Ferro Portugueses (SMAQ) convocou uma greve geral, face à ausência de clarificação do Governo sobre relação entre sinistralidade ferroviária e taxa de álcool destes trabalhadores e para exigir condições de segurança adequadas.
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Em causa estão as declarações do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, após o Conselho de Ministros de 14 de novembro, quando afirmou que “não é muito conhecido, mas Portugal tem o segundo pior desempenho ao nível do número por quilómetro de ferrovia de acidentes que ocorrem” e tem “um desempenho cerca de sete vezes pior do que a primeira metade dos países europeus”.
O Governo aprovou uma proposta de lei que reforça “as medidas de contraordenação para os maquinistas deste transporte ferroviário, criando uma proibição de condução sob o efeito de álcool”, referiu ainda o ministro.
“Estando Portugal numa das piores situações em termos de nível de acidentes, tem do quadro contraordenacional mais leve e mais baixo da Europa”, rematou então o governante.
No dia em que emitiu o comunicado sobre a greve, o SMAQ adiantou que não obteve qualquer resposta à exigência feita ao ministro para que clarificasse e retificasse publicamente as declarações.
Na quinta-feira, em comunicado, o Ministério das Infraestruturas e Habitação (MIH) anunciou que vai avançar com várias medidas para reforçar a segurança ferroviária, que disse darem resposta às reivindicações dos maquinistas.
Na nota, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, “lamenta a decisão do SMAQ em manter a greve geral de maquinistas para o dia 6 de dezembro de 2024, que terá um impacto negativo na circulação de comboios e consequentemente na vida de milhares de cidadãos que utilizam o transporte público”.
Governo avança com medidas que diz darem resposta a reivindicações de maquinistas
De acordo com a tutela, as medidas passam pelo “reforço da utilização do sistema ATP (Automatic Train Protection) nos veículos que circulam na Rede Ferroviária Nacional”, pela “diminuição do recurso à utilização das Limitações de Velocidade Temporárias, privilegiando um maior recurso aos períodos azuis previsto no Diretório de Rede” e pela “melhoria contínua dos Sistemas de Gestão de Segurança do Gestor da Infraestrutura e dos operadores ferroviários”.
O Ministério vai ainda avançar com a “definição de indicadores de desempenho para monitorizar o progresso e eficácia das medidas” e com o “reforço das condições de segurança respeitantes à sinalização e proteção de Limitações de Velocidade Temporárias, através da revisão e clarificação dos regulamentos de segurança em vigor”.