Os primeiros meses da primeira temporada de André Villas-Boas enquanto presidente do FC Porto têm sido atribulados, entre as desilusões na Liga Europa, a goleada sofrida na Luz contra o Benfica e a contestação que já obrigou a conversas com adeptos à porta do Estádio do Dragão. Ainda assim, Villas-Boas mantém-se plenamente confiante no projeto que está a desenhar. E aproveitou uma entrevista ao jornal L’Équipe para o deixar bem claro.

Numa longa conversa com o jornal francês, ao longo de duas páginas, o presidente do FC Porto falou sobre a situação financeira do clube, a confiança em Vítor Bruno e até as memórias de José Mourinho. Desde logo, Villas-Boas começou por garantir que o FC Porto acabaria por ser vendido a um fundo norte-americano se Jorge Nuno Pinto da Costa tivesse sido reeleito no passado mês de abril.

“Não seremos coniventes com este estado de coisas”: a reflexão de Villas-Boas sobre os problemas no futebol (para dentro e para fora)

“Contactámos instituições internacionais para refinanciar a dívida do clube. Conseguimos angariar 115 milhões de euros a 5,62%, quando a dívida do FC Porto era até então indexada a taxas entre 8 e 13% ao ano. Precisávamos de gerar 15 milhões imediatamente para pagar os salários dos funcionários e dos jogadores, a situação era limite. Se não tivéssemos sido eleitos, penso que o clube teria sido vendido a um fundo norte-americano dentro de um ou dois anos, no máximo. Havia oito mil euros na conta à ordem”, disse, reconhecendo que os primeiros dias do mandato foram “difíceis”.

“Quanto tens de deixar pessoas que ganham mil euros por mês à espera, para o clube recuperar e poder fazer o pagamento… É doloroso”, acrescentou. Mais à frente, André Villas-Boas abordou os motivos que levaram o FC Porto a uma situação financeira tão frágil. “Muitos jogadores ficaram livres, houve muito dinheiro que foi para intermediários. Enquanto que, no Benfica e no Sporting, 40% do valor das vendas entrava nos cofres, no FC Porto era apenas 10%, devido a diversos acordos”, indicou.

Ainda assim, o presidente dos dragões assegura que a atual direção está a inverter a questão. “Já estamos numa progressão de 30 para 40% da nossa receita comercial. Sobre as transferências, a taxa média de comissões paga pelo FC Porto a intermediários foi de 13%, reduzimos em 3%. Mudámos o diretor desportivo, de formação, de desempenho, do futebol feminino e do ‘scouting'”, atirou.

“Auditoria tem trazido resultados surpreendentes. Vamos continuar a investigar más práticas nos últimos anos”, garante Villas-Boas

Em relação ao futebol propriamente dito, André Villas-Boas voltou a sublinhar a confiança absoluta que tem em Vítor Bruno. “Foi uma escolha unânime do clube, tem a nossa confiança para fazer os jogadores progredir e atingir os objetivos definidos. As exigências dos adeptos do FC Porto são sempre máximas. Foi sempre assim e sempre será, os nossos sócios estão apegados à mística e à cultura do clube e o Vítor conhece muito bem o FC Porto”, afirmou, antes de ser questionado sobre a recente contestação que o obrigou a falar pessoalmente com alguns adeptos, recordando os tempos difíceis em que treinou o Marselha.

“Tal como em Marselha, saí para falar com os adeptos. Isto não significa que aceito a violência contra a instituição. Mas, nesse dia, tivemos dois mil apoiantes em Moreira de Cónegos [eliminação da Taça de Portugal] poucos dias depois de uma derrota vergonhosa contar o Benfica. Saí para acalmar e agradecer aos adeptos pelo apoio”, disse.

Ida até aos adeptos junto à garagem, a conversa no Olival, Vítor Bruno seguro mas obrigado a dar uma resposta: o momento do FC Porto

Por fim, André Villas-Boas aproveitou uma pergunta sobre Bobby Robson para garantir que as memórias mais bonitas que tem do FC Porto são ao lado de José Mourinho. “Quando era analista dele. Recordo tudo à volta de José Mourinho. As viagens, a preparação, o conhecimento de jogo, a forma de se relacionar com o staff, a pressão que exerce sobre si próprio todos os dias para ser sempre o melhor. Robson é o início de tudo, mas não com este nível de intensidade. Tudo o que está relacionado com futebol, com conhecimento do futebol, com tática, com preparação dos treinos, aconteceu com José Mourinho. Esses foram os melhores momentos”, terminou.