Uma peça composta por 177 cilindros torneados manualmente em freixo nacional, feitos em diferentes diâmetros e encaixados, pesando juntos cerca de 100 quilos, num processo de mais de 200 horas de trabalho. Esta é a mesa que vai receber o livro de honra no pavilhão de Portugal na Expo 2025, que se realiza de 13 de abril a 13 de outubro em Osaka, no Japão. Uma peça desenhada pelo arquiteto Kengo Kuma, que é o responsável pelo design de todo o pavilhão, e tornada realidade através da marcenaria tradicional portuguesa. “Esta peça foi super desafiante. Podemos considerar que é uma escultura extraordinária de uma beleza e complexidade fabulosas”, diz ao Observador Mário Rocha, o fundador e CEO da Antarte, marca que materializou as mais de 40 peças que fazem parte do espaço português no evento internacional. O projeto é apresentado oficialmente na tarde desta quinta-feira, 16 de janeiro, no Oceanário de Lisboa, com a presença do primeiro ministro Luís Montenegro.

No Pavilhão com a temática “Oceano, diálogo azul”, Kengo Kuma consegue reproduzir a dinâmica do movimento oceânico através da multiplicação de elementos ritmada, com cordas suspensas e redes recicladas, que criam espaço para a interferência de outros elementos naturais, como o sol e o vento. Um espaço desenhado para destacar um elemento que liga Portugal e Japão: o oceano. Já as peças de mobiliário juntam o minimalismo da arquitetura japonesa às matérias-primas tradicionais e técnicas da marcenaria portuguesas. É o caso da consola criada para colocar o livro de honra. “A técnica de tornear a madeira é algo muito tradicional e muito ancestral português. E na verdade é uma técnica que tem estado um pouco esquecida no fabrico do mobiliário. Imagine ter que tornear 177 peças para criar formas de tubos que se encaixem entre elas. Isso tem tudo a ver com a nossa marcenaria nacional. E tivemos que recorrer um bocadinho ao passado para aplicar nesta mesa contemporânea.”

▲ Mário Rocha é fundador e CEO da Antarte.

Fernando Bretas Junior

Materiais naturais, sustentáveis e portugueses

O processo de fabricação dos móveis, liderado por Mário Rocha em parceria com o gabinete de Kengo Kuma através da arquiteta portuguesa Rita Topa (que também esteve envolvida em outros projetos do japonês em Portugal, como a remodelação do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, finalizada em 2024), começou em novembro e durou até o final de dezembro. Entre protótipos e produções finais, o CEO da marca portuguesa acredita que pelo menos 500 horas de trabalho foram dedicadas à produção das peças. São bancos, bancos altos, mesas e sofás que estarão dispostos nos diversos ambientes do pavilhão: VIP lounge, restaurante, cafetaria e salas multiuso. “Aquilo que nós conhecemos do gabinete, e em especial de Kengo Kuma, é o cuidado que ele tem em respeitar as matérias-primas e técnicas de produção que valorizem o saber ancestral da região onde está, neste caso do país”, explica-nos o CEO da Antarte, marca de mobiliário que foi fundada em 1998 em Rebordosa e hoje tem lojas em todo o país e quatro lojas internacionais, no Dubai, em Luanda, em Accra e em São Tomé e Príncipe.

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Seguindo o tema da exposição portuguesa e o estilo de Kengo Kuma, os móveis foram fabricados privilegiando materiais naturais e sustentáveis. “O projeto é muito inspirado na sustentabilidade e aqui temos o cuidado de procurar matérias-primas que também elas fossem sustentáveis. Utilizámos o freixo nacional de florestas sustentáveis em termos de madeira, mas também tivemos outros cuidados. Por exemplo, os sofás são revestidos a tecidos de fibras naturais de algodão e foram impermeabilizados em seguida. Se fosse um sintético o sofá teria alguma proteção, com o algodão tem menos proteção então nós utilizámos a matéria-prima natural, nomeadamente o algodão, e depois os tecidos foram impermeabilizados”, explica Mário Rocha, sobre o sofá arredondado, desenhado para ocupar uma sala circular, que parece imitar a curva de uma onda do mar. Já os bancos altos e baixos criados para a zona de restauração têm como destaque um dos materiais nacionais mais admirados no exterior, que também ele é natural e sustentável. “Utilizámos a cortiça portuguesa, em forma de aglomerado de cortiça, uma vez que os bancos foram torneados manualmente. Mas é aglomerado porque a sua dimensão e a sua altura não permitiria ser uma peça só de cortiça”, conta o fundador da marca, que participou ativamente de todas as etapas de produção destes móveis.

▲ As mesas feitas para o restaurante e na cafetaria transformam-se numa mesa oval com 6 a 8 lugares.

Conquistar os japoneses com a marcenaria portuguesa

A nível de design, Mário Rocha destaca ainda as mesas que compõem o restaurante e a cafetaria, que pelo formato semioval permitem serem unidas e formar uma mesa maior. “É uma ideia tão simples e ao mesmo tempo tão genial porque pode ser uma mesa para duas a três pessoas como podem juntar-se e formar um grupo maior de 6 a 8 pessoas.” Ideias que a Antarte pretende levar ao próprio catálogo muito em breve. “Neste momento estamos a preparar o protocolo para assinar com o gabinete de Kengo Kuma”, conta o CEO da marca, que revela que a coleção “Osaka” deve ser lançada juntamente com o arranque da Expo 2025, e vai trazer algumas das peças presentes no Pavilhão de Portugal.

Os móveis seguem para o Japão nas próximas semanas, em contentores por via marítima. “São peças pesadas e minuciosas, é preciso muito cuidado”, explica. A marca tem agora a responsabilidade de apresentar aos criteriosos japoneses a marcenaria portuguesa. “Somos admiradores do design escandinavo e os japoneses estão de braços dados”, garante-nos Mário Rocha, que assume o desejo de levar a marca para o mercado japonês. “Sabemos que a Expo vai ser visitada cerca de 80% por japoneses, e sabemos que os japoneses são muito perfeccionistas”, diz o CEO da marca, que remata: “A Antarte não vende para o Japão. Está representada em quatro continentes. O nosso objetivo é esse, esperamos que consigamos de certa forma alavancar a Antarte no mercado para os japoneses, conscientes de que eles são fortes neste setor e fazem muito bem o mobiliário. Mas também sabemos que eles têm uma admiração pela Europa e pelos produtos europeus”.