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▲Celebrações no sul da Faixa de gaza, depois do anúncio

AFP via Getty Images

▲Celebrações no sul da Faixa de gaza, depois do anúncio

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A pressão de Trump, o papel de Biden e o "medo" de Netanyahu e do Hamas. Como se chegou a um cessar-fogo em Gaza. E vai durar?

Acordo gradual foi proposto por Biden em maio. Depois de bloqueios sucessivos, Hamas e Israel chegaram a acordo dias antes de Trump tomar posse. O que mudou nos últimos meses para se ter chegado aqui?

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33 reféns vão regressar a Israel, centenas de prisioneiros palestinianos serão libertados e a ajuda humanitária poderá voltar a entrar através da passagem de Rafah. Ao fim de meses de negociações, Israel e Hamas assinaram esta quarta-feira o segundo acordo de cessar-fogo desde que as Forças de Defesa de Israel (IDF) entraram em Gaza, na sequência dos ataques de 7 de outubro, quando o grupo palestiniano matou quase 1.200 pessoas em território israelita.

Os termos agora acordados não diferem totalmente do plano de cessar-fogo gradual que foi apresentado pelo Presidente Joe Biden em maio do ano passado. Porém, no passado, este mesmo acordo tinha sido bloqueado devido a uma série de condições — de ambas as partes — que eram vistas como “linhas vermelhas”. O último destes bloqueios foi atingido em agosto do ano passado, quando uma exigência do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, fez o acordo cair por terra.

“Coisas que Netanyahu tinha cunhado como questões de vida ou de morte (ainda alguém se lembra da base da nossa existência, o Corredor de Filadélfia?) desapareceram subitamente”, escreveu o jornalista israelita Amos Harel, na passada terça-feira. Então, o que mudou desde agosto para fazer desaparecer estas questões? Militarmente, houve vários desenvolvimentos, como por exemplo a ofensiva israelita no Líbano e posterior cessar-fogo. Mas os especialistas destacam um outro acontecimento, de cariz político: a reeleição de Donald Trump.

Greves, protestos e Biden impaciente. De olhos postos no “corredor de Filadélfia”, Netanyahu resiste a acordo de cessar-fogo

“Trump ter entrado em cena e ter dito que quer isto resolvido é um fator significativo e há pressão nos últimos dias para acabar o acordo antes da tomada de posse — pôs toda a gente a trabalhar”, afirma a analista israelo-americana Mairav Zonszein ao Observador, horas antes de o acordo ter sido anunciado. Minutos depois do anúncio, o próprio Donald Trump reagiu, classificando-o como “um acordo épico“, enquanto Biden reivindicava os seus próprios louros, a dez dias de sair do cargo.

No entanto, a especialista na questão israelo-palestiniana do think tank Crisis Group mostra-se cética sobre o real potencial a longo prazo deste cessar-fogo. “Isto não muda a questão fundamental: Netanyahu insistiu em não acabar a guerra e a forma como o acordo está construído e escrito ainda permite ambiguidade”, argumenta. Afinal, o que se sabe sobre os termos deste acordo e como é que isso difere dos acordos anteriores?

Reféns libertados, ajuda humanitária e presença militar. O que está incluído no cessar-fogo

Este acordo é semelhante aos anteriores, na medida em que adota o sistema de três fases: a primeira, focada na libertação dos reféns, a segunda, focada no fim de todas as hostilidades, e a terceira, focada na reconstrução material e política da Faixa da Gaza. Tal como no acordo de agosto, cada fase deverá demorar 42 dias, com a primeira fase a começar já dia 19 de janeiro, domingo.

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Nestes primeiros dois meses, deverão ser libertados 33 reféns israelitas em Gaza, incluindo mulheres, crianças, idosos feridos e doentes. Já Israel deverá libertar entre 990 e 1.650 prisioneiros palestinianos — uma parte está a cumprir penas perpétuas, mas nenhum dos libertados terá tido envolvimento na organização ou execução do 7 de outubro. Telavive vai libertar 30 prisioneiros por cada refém civil e 50 por cada soldado. Estas condições mantêm-se inalteradas.

epa10993393 People with an Israeli flag looks on as an Israeli army helicopter carrying Israeli children hostages who were held by Hamas in Gaza, landed at the helipad of the Schneider-Children's Medical Center in Petah Tikva, Israel, 24 November 2023. Israel and Hamas agreed to a four-day ceasefire agreement, mediated by Qatar, the US, and Egypt, that came into effect at 05:00 AM GMT on 24 November, with 50 Israeli hostages, women and children, to be released by Hamas and 150 Palestinian women and children that were detained in Israeli prisons to be released in exchange. More than 14,000 Palestinians and at least 1,200 Israelis have been killed, according to the Gaza Government media office and the Israel Defense Forces (IDF), since Hamas militants launched an attack against Israel from the Gaza Strip on 07 October, and the Israeli operations in Gaza and the West Bank which followed it.  EPA/ABIR SULTAN

▲ Em novembro de 2023, já tinham sido libertados alguns reféns num breve acordo de cessar-fogo

ABIR SULTAN/EPA

Outra questão que também já tinha sido acordada é a reabertura da passagem de Rafah, na fronteira sul da Faixa de Gaza, e a entrada progressiva de ajuda humanitária no enclave, assim como a retoma da circulação entre o norte e o sul de Gaza. Neste momento, isto não é possível, devido à presença israelita no corredor de Netzarim, uma faixa de território militarizado que se estende do mar Mediterrâneo até Israel, no centro da Faixa de Gaza. As IDF deverão retirar de Netzarim, mas poderão assegurar postos de controlo na circulação, para evitar a passagem de armas e a reconstrução do Hamas.

A maior mudança é, precisamente, a referência à presença no corredor de Filadélfia, que liga Gaza ao Egito. As IDF vão retirar do centro de Gaza e das áreas mais populosas, formando um cordão de segurança nas fronteiras. Antes do acordo, fontes do Hamas já tinham avançado que este tampão seria uma zona de “800 metros dentro de Gaza, que se estende desde Rafah, no sul, a Beit Hanoun, no norte”. Já no corredor de Filadélfia serão assegurados “acordos de segurança”. Contudo, não é claro do que se tratam estes “acordos”, daí que Zonszein mencione a “ambiguidade” do texto.

A ambiguidade mantém-se relativamente à segunda fase. Sobre esta, sabe-se que as negociações devem começar no 16.º dia da primeira fase e que está previsto o regresso dos restantes reféns — homens das IDF, homens em idade militar. Contudo, as discussões sobre o acordo focaram-se principalmente neste ponto: o fim da segunda fase significa o fim total dos combates? O Hamas defendeu que sim, Israel quis reservar a possibilidade de responder militarmente a potenciais violações do acordo. A Reuters avança que, na segunda fase, o cessar-fogo será permanente.

"Muita gente acredita que o governo só vai cumprir a primeira fase, o que significa, em último caso, a ideia de não retirar completamente da guerra."
Mairav Zonszein, analista de Israel no think tank Crisis Group

Uma vez que se trata de um acordo gradual, a terceira fase, a longo prazo, é a menos clara e deverá continuar a ser negociada enquanto se implementam as fases mais urgentes do acordo. Sabe-se apenas que está previsto o regresso de todos os corpos levados para Gaza ou que morreram em cativeiro. “A grande questão é se todas as fases vão ser alcançadas”, considera Mairav Zonszein. Esta preocupação já tinha sido apresentada pelos familiares dos reféns, cuja libertação só está prevista para a segunda fase, e que pressionaram Netanyahu para assinar um “acordo completo”.

A analista israelo-americana dá voz a estas preocupações. “Muita gente acredita que o governo só vai cumprir a primeira fase, o que significa, em último caso, a ideia de não retirar completamente da guerra”, expõe ao Observador. Da mesma forma que têm feito até aqui, os Estados Unidos devem continuar a mediar o cessar-fogo nas etapas seguintes. Porém, nas últimas semanas, esta mediação sofreu uma reviravolta significativa na sua liderança.

A pressão de Witkoff, a ameaça das “portas do inferno” e o longo trabalho da administração Biden

No passado sábado, o enviado de Donald Trump ao Médio Oriente, Steve Witkoff, reuniu-se em Jerusalém com Benjamin Netanyahu. Horas depois da reunião, o chefe do executivo israelita aprovou a viagem dos líderes da equipa de negociação israelita para o Qatar, onde estavam a decorrer os diálogos. O enviado de Trump foi mais convincente numa reunião do que os representantes de Biden ao longo de um ano, avaliou um responsável árabe envolvido nas reuniões ao Times of Israel.

A presença norte-americana nas negociações tem sido vincada. Foi Joe Biden que apresentou a proposta faseada que está a ser utilizada como modelo. O seu secretário de Estado, Antony Blinken, deslocou-se regularmente ao Médio Oriente. E o Presidente norte-americano chegou mesmo deixar ultimatos a Netanyahu. “A minha administração vai deixar a próxima com uma mão muito forte para jogar”, autocongratulou-se Biden no seu último discurso de política externa na Casa Branca. Já depois do anúncio do acordo, Biden sublinhou “a meticulosa diplomacia americana” no processo e o facto de ter definido “os contornos do plano”, no dia 31 de maio, há oito meses.

"Witkoff não é um diplomata. Ele não fala como um diplomata e não tem interesse em maneiras e protocolos diplomáticos. É um homem de negócios que quer chegar a um acordo rápido e avança de forma invulgarmente agressiva."
Responsável israelita sobre o enviado de Trump

Mas a verdade é que a entrada em cena de Donald Trump acelerou as negociações, por múltiplos motivos. O mais óbvio é a pressão exercida pelo seu enviado sobre o executivo israelita. “Witkoff não é um diplomata. Ele não fala como um diplomata e não tem interesse em maneiras e protocolos diplomáticos. É um homem de negócios que quer chegar a um acordo rápido e avança de forma invulgarmente agressiva”, relatou um diplomata israelita, sob anonimato, ao jornal Haaretz. Esta postura também reflete o currículo de Donald Trump, de empresário antes de ser Presidente.

Telavive não se terá mostrado avessa a satisfazer esta vontade do Presidente eleito. “A pressão é a essência da questão”, declarou na segunda-feira um dos porta-voz de Netanyahu, Jacob Bardugo. No entanto, o antecessor de Netanyahu, Ehud Olmert, apresentou outra justificação para a cedência israelita: “Ele tem medo de Trump“, acusou o antigo primeiro-ministro ao Politico.

O eventual medo que Netanyahu possa ter de Trump não é totalmente injustificado. Afinal, para além da pressão sobre Israel, o republicano também deixou duras ameaças de que iria “abrir as portas do inferno” sobre o Hamas caso o grupo palestiniano não aceitasse os termos da trégua — expressão que utilizou em várias ocasiões. “Permitir a Israel desmantelar os últimos batalhões do Hamas é o que Trump quer dizer com ‘inferno'”, esclareceu o seu vice, JD Vance, no domingo.

epa11554850 A handout photo made available by the Israeli Government Office (GPO) shows Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu (R) shaking hands with US Secretary of State Antony Blinken during a meeting in Jerusalem, 19 August 2024. Blinken arrived in Israel to discuss a ceasefire deal in the Gaza war.  EPA/CHAIM TZACH/Israeli Government Office (GPO) HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Antony Blinken deslocou-se múltiplas vezes ao Médio Oriente para mediar as negociações

CHAIM TZACH/Israeli Government Office (GPO)/EPA

A dura posição de Trump também poderá ter sido um trunfo utilizado por Joe Biden nas negociações — que, apesar da presença de Witkoff, continua a ter mão na administração democrata. “‘Ou chegam a um acordo connosco ou recebem o Presidente ‘inferno na terra’” é uma moeda de troca útil para os negociadores”, analisa o Politico.

Independentemente do impacto real que Joe Biden e Donald Trump tenham tido na assinatura de um acordo, a verdade é que o Presidente-eleito assumiu total responsabilidade pelo acordo. “Este acordo épico só podia ter acontecido com a nossa Vitória Histórica em novembro, que assinalou ao mundo inteiro que a minha administração iria procurar a paz e negociar acordos que garantem a segurança de todos os americanos e dos nossos aliados”, escreveu Donald Trump na Truth Social esta quarta-feira.

“Alcançámos tanto mesmo sem estar na Casa Branca. Imaginem todas as coisas maravilhosas que vão acontecer quando eu regressar à Casa Branca”, rematou, renovando a sua promessa de instaurar a “paz pela força” em toda a região.

O futuro de Israel. Ameaças da extrema-direita, descontentamento das IDF e o desejo de Trump por um Nobel

Outro dos grandes obstáculos à assinatura de um acordo, que parece ter desaparecido, é a oposição interna da extrema-direita israelita. O governo de coligação de Benjamin Netanyahu depende de ministros deste espectro político, que sempre se opuseram a um acordo que classificam como uma capitulação ao Hamas.

O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, manteve esta posição crítica. No entanto, “Ben-Gvir pode demitir-se, mas não tem membros suficientes para derrubar o governo”, explicou Mairav Zonszein ao Observador. Neste sentido, o ministro israelita apelou a Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, que se juntasse a ele nesta recusa, apelo que não teve a resposta esperada. Ainda que tenha mantido as duras críticas e o apelo a uma “vitória total”, Smotrich não se comprometeu com um chumbo do acordo, nem ameaçou demitir-se. Zonszein esclarece esta posição de Smotrich: “Os outros ministros têm mais a perder [que Ben-Gvir] se abandonarem o governo”.

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▲ Itamar Ben-Gvir (à direita) opõe-se ao acordo, mas não tem peso suficiente para o fazer cair

AFP via Getty Images

Benjamin Netanyahu ultrapassou, assim, os obstáculos que lhe eram colocados pela extrema-direita no seio do seu executivo. Mas isso não quer dizer que saia isento de críticas. As famílias dos reféns, tal como questionaram um acordo gradual, questionam agora uma mudança de posição que abandona linhas vermelhas anteriores — “Acho que nunca ninguém acreditou que Filadélfia era uma linha vermelha”, atira Zonszein.

Entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, oito reféns morreram em cativeiro (seis deles mortos pelo Hamas, outros dois em ataques israelitas). No mesmo período de tempo, morreram em Gaza mais 122 soldados das IDF. Se o Exército já se tinha mostrado favorável a um cessar-fogo no verão do ano passado, o descontentamento dos soldados cresceu.

“Netanyahu pode dar a volta a isto de várias maneiras – pode dizer que foi forçado por Donald Trump ou que o Hamas chegou a um ponto em que está desesperado por um acordo”, pondera a especialista do Crisis Group, recusando que a comoção interna seja um obstáculo. Por agora, a maior preocupação em Telavive é o futuro da sua relação com Washington.

“Algumas pessoas consideram que Trump vai deixar Israel afirmar que o Hamas violou o acordo de cessar-fogo e permitir que voltem a entrar [em Gaza] com ainda mais força”, conjetura Zonszein. O jornalista Amos Harel apresenta outras possibilidades que Trump pode permitir: a reentrada das IDF no norte de Gaza ou a anexação da Cisjordânia.

Porém, assinado o cessar-fogo, as prioridades de Donald Trump parecem afastar-se dos interesses de Telavive para se focar nos seus próprios interesses. “Trump tem outros problemas na sua agenda”, argumentou Yossi Beilin, antigo ministro israelita, no cargo durante os acordos de Oslo de 1995. Beilin acredita que os dois líderes têm uma “amizade muito, muito frágil”, que poderá não sobreviver às ambições futuras de ambos.

epa08939629 (FILE) US President Donald J. Trump (R) shakes hands with Prime Minister of Israel Benjamin Netanyahu (L) while unveiling his Middle East peace plan in the East Room of the White House, in Washington, DC, USA, 28 January 2020. The presidency of Donald Trump, which records two presidential impeachments, will end at noon on 20 January 2021.  EPA/MICHAEL REYNOLDS *** Local Caption *** 55828472

▲ Netanyahu poderá estar à espera de benefícios futuros na sua relação com Trump

MICHAEL REYNOLDS/EPA

“Trump quer o prémio Nobel da Paz“, declara um empresário que se cruza regularmente com a família Trump e a família Netanyahu nos edifícios residenciais do Hotel Four Seasons, em Nova Iorque. Harel também menciona o Nobel, pondo ainda em cima da mesa a normalização das relações com a Arábia Saudita e a assinatura de um acordo nuclear com o Irão como ambições da nova administração norte-americana.

O futuro de Gaza. Administração da AP, intervenção da Arábia Saudita e o sonho do Estado palestiniano

Desde agosto, enquanto os Estados Unidos em campanha eleitoral tentavam mediar um acordo e Israel tentava equilibrar coligações governamentais, Gaza ressentia-se com o avançar da guerra. No período desde as últimas negociações, foram mortas em Gaza mais de 20 mil pessoas, segundo os números do Ministério da Saúde palestiniano. Além disso, as IDF reentraram no norte de Gaza, onde realizaram um cerco militar em que se estima que tenham sido mortas 5 mil pessoas.

Entre os milhares de vítimas das IDF em Gaza, há uma que enfraqueceu particularmente o Hamas: Yahya Sinwar, líder do grupo palestiniano em Gaza, morto em outubro. Às baixas do Hamas somaram-se as perdas de um dos seus aliados mais próximos, o Hezbollah. No mesmo período de tempo, Israel começou uma ofensiva no Líbano que matou mais de 3 mil pessoas, incluindo a maior parte da cadeia de comando do Hezbollah e o homem no topo da mesma, Hassan Nasrallah. Por fim, assinou um acordo de cessar-fogo que pôs fim a esta ofensiva.

Para além dos ataques diretos ao Hamas e Hezbollah, Israel também foi alvo de um ataque iraniano e respondeu militarmente. A contabilização de todos os acontecimentos no terreno ao longo dos últimos cinco meses serve para ilustrar a concretização de um dos objetivos que Israel declarou para Gaza: o enfraquecimento do Hamas.

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▲ Desde as negociações falhadas em agosto, Israel reentrou no norte de Gaza

Anadolu via Getty Images

Alcançado esse objetivo, coloca-se uma questão simples: e agora? Depois da reconstrução humana de Gaza, prevista na primeira fase do acordo, quando se vai dar a reconstrução política do enclave? A resposta devia estar na terceira fase do acordo, mas esta ainda não começou a ser negociada. Israel coloca fora de questão um novo governo do Hamas. Antony Blinken propôs que a Autoridade Palestiniana (AP) — que governa a Cisjordânia — devia assumir o controlo interino de Gaza, em colaboração com as Nações Unidas e parceiros internacionais, como o Egito e o Qatar, que mediaram as negociações.

A outra opção poderá ser a entrada em cena da Arábia Saudita, com a contratação de militares privados como parte de uma força de manutenção da paz, avançou a Reuters. Contudo, nenhum destes acordos prevê uma solução de longo prazo ou passos para a consolidação de um Estado palestiniano — proposta que os Estados Unidos já disseram apoiar no passado — e a legitimidade da AP para assumir a liderança é questionada.

Em cima da mesa chegou a estar um outro nome, com capacidade de unificar a causa palestiniana sob uma bandeira que represente uma ameaça de segurança menor para Israel: Marwan Barghouti. Apelidado por alguns de “Mandela palestiniano”, Barghouti é membro da Fatah e uma das figuras chave da Primeira e da Segunda Intifada. Acabou por ser preso em 2002 em Israel, onde está a cumprir múltiplas penas perpétuas.

No passado, o Hamas apelou à sua libertação, mas, agora, o seu nome não faz parte das listas de prisioneiros que querem ver libertados de prisões israelitas com o cessar-fogo. A possibilidade de participar na reconstrução política de Gaza cai assim por terra. De regresso à estaca zero, tudo depende da negociação que continuar a ser feita para a terceira fase do acordo.

Mas o acordo assinado esta quarta-feira não permite fazer previsões a longo prazo. “O acordo está escrito de forma a que as pessoas argumentem simultaneamente que vai levar ao fim da guerra — como o Hamas [faz] –, e que pode não o fazer, como a direita em Israel. Mantém a ambiguidade”, avalia Mairav Zonszein.

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