“Estamos a ser, talvez, a pior equipa da história do Manchester United”. A frase fez manchetes, apareceu em todos os jornais e foi assunto em programas de televisão. Este domingo, depois da derrota contra o Brighton em Old Trafford, Ruben Amorim não teve grandes pruridos na hora de lembrar que “não é aceitável” perder tantos jogos. Mas nem o facto de se ter colocado no olho do furacão amainou a tempestade.

Atualmente, o Manchester United está no 13.º lugar da Premier League, dez pontos acima da zona de despromoção e a 12 do apuramento para as competições europeias, e só ganhou um dos últimos seis jogos para o Campeonato. Os red devils levam seis derrotas em Old Trafford, um registo negativo que não se via desde o final do século XIX, e Ruben Amorim já disse várias vezes que esta temporada serve apenas “para sobreviver”.

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Se é certo que o treinador português é o primeiro a assumir as próprias responsabilidades, também é certo que Ruben Amorim não abdica das próprias ideias. O técnico levou o 3x4x3 do Sporting para o Manchester United e o novo sistema tático está longe de reunir consenso ou unanimidade, provocando muitas críticas e dúvidas pela autêntica revolução de dinâmicas e hábitos que acabou por implementar. O último a questionar o plano de Amorim, já esta segunda-feira, foi Alan Shearer.

“Eles estão piores agora do que eram com Ten Hag, porque este treinador quer jogar neste sistema. Os jogadores simplesmente não conseguem jogar da forma que ele pretende”, começou por dizer o antigo avançado inglês, que disse perceber o porquê de Ruben Amorim ter sido tão direto na conferência de imprensa. “É para comprar tempo. É muito incomum que olhes para um dos maiores clubes do mundo, se não o maior, e que o treinador diga ‘esta é a pior equipa da história’ por causa de onde estão de algumas exibições”, acrescentou Shearer no podcast “The Rest is Football”.

Para o antigo capitão do Newcastle, Ruben Amorim tem “uma espécie de passe livre até ao final da época”, mas terá de aproveitar as janelas de transferências. “Alguém tem de entrar ali e despir a equipa de volta à sua base, é exatamente disso que precisam. Isto vai demorar tempo e qualquer pessoa que entrasse ali iria encontrar este cenário. Precisam de um recrutamento massivo, agora e no verão, mas vai demorar bem mais do que isso a emendar o clube”, garantiu.

Alan Shearer, porém, está longe de ser o primeiro a criticar a insistência de Ruben Amorim no atual sistema tático. No início do mês, depois da derrota do Manchester United com o Newcastle, também Danny Murphy escreveu que a interpretação do treinador português do jogo tinha sido um “suicídio futebolístico” e lembrou que o 3x4x3 “resultou muito bem no Sporting, mas a Premier League é um sítio implacável”.

“Não é aceitável.” O Manchester United não perdia tanto em casa desde o século XIX

De forma natural, o próprio Ruben Amorim foi questionado sobre o sistema com três centrais depois da derrota deste domingo, garantindo que já sabia que seria “difícil implementar uma nova ideia”. “Algo completamente diferente. Mas quando perdemos jogos, quando não há aquela sorte de vencer três jogos consecutivos, torna-se muito difícil. É por isso que digo que vamos sofrer. Vou continuar a fazer a mesma coisa. Ajudar os jogadores é dar-lhes as ferramentas para jogarmos neste sistema, mas sem treinar é muito difícil e dá para sentir isso no final do jogo. Toda a gente estava a trocar de posições… E isso é algo que não pode acontecer novamente. Se quisesse mostrar algo à comunicação social ou aos adeptos colocava dois avançados. Não o fiz porque se o fizesse seria ainda mais difícil perceber a maneira como queremos jogar”, sublinhou.

O momento atual do Manchester United, contudo, não se pode explicar apenas através da mudança de sistema tático. Ruben Amorim foi muito claro na hora de lembrar que “todos os jogadores estão em subrendimento”, numa fase em que Antony está de malas feitas para ser emprestado ao Betis, e terá de resolver o dossiê de Marcus Rashford durante o mês de janeiro. Este domingo, sobre o avançado inglês e depois de um dia em que este não foi novamente convocado, limitou-se a dizer que Rashford “está de fora”, mas lembrou que “a escolha” é do próprio jogador.

Ao caso de Rashford somam-se os de Alejandro Garnacho, que também já foi afastado por motivos disciplinares, Casemiro, que é dos mais bem pagos do plantel mas não tem rendimento desportivo, Joshua Zirkzee, que custou 45 milhões de euros no verão e leva quatro golos marcados, ou até Eriksen, Lindelof e Luke Shaw, cuja continuidade está longe de estar garantida. Por fim, o protagonista do fim de semana.

André Onana voltou a comprometer durante o fim de semana, cometendo um erro clamoroso que abriu a porta ao terceiro golo do Brighton, e terminou o jogo com números ilustrativos: 52% de eficácia de passe, 27% de eficácia no passe longo, três golos sofridos e zero defesas. O guarda-redes camaronês tem sido a cara de muitos dos desaires recentes do Manchester United, entre defesas incompletas, abordagens erradas ou fragilidade a jogar com os pés, e muitos adeptos já defendem a titularidade de Altay Bayındır, turco que até foi crucial na decisão por grandes penalidades contra o Arsenal na Taça de Inglaterra.

Ainda assim, a verdade é que a frase fatalista de Ruben Amorim não deixa de estar perto da verdade. Atualmente, a pior temporada de sempre do Manchester United na Premier League foi precisamente a anterior, em 2023/24, onde a equipa de Erik ten Hag não foi além do oitavo lugar. No que toca a pontos, o registo negativo de 58 remonta a 2021/22, época em que Ole Gunnar Solskjaer foi despedido e deu o lugar a Ralf Rangnick. No 13.º lugar e com 26 pontos em 22 jornadas, os red devils terão de fazer bem melhor na segunda metade do ano para fugir ao carimbo que o treinador português já assumiu.