A solução de acolher a Academia de Amadores de Música (AAM) num edifício municipal na Rua Vítor Cordon, na zona do Chiado, foi anunciada pelo presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas (PSD), numa reunião pública em 27 de novembro de 2024, mas a proposta foi, posteriormente, contestada pelo presidente da Junta de Freguesia de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho (PS), que ocupa parte do espaço e que não foi consultado previamente.

Na reunião de hoje da Assembleia Municipal de Lisboa, no período de intervenção aberto ao público, o presidente da AAM, Pedro Barata, disse que as instalações na Rua Vítor Cordon “são, efetivamente, do agrado da Academia”, porque possibilitam a continuidade da sua atividade na zona de Lisboa onde está há 140 anos e permitem a colaboração com outras entidades artísticas da mesma zona, como o Teatro Nacional de São Carlos, com quem tem colaboração efetiva há vários anos.

Referindo que a AAM é “a segunda escola mais antiga de educação musical do país”, Pedro Barata lembrou que a Academia se encontra numa “situação complicada”, porque tem de sair das suas atuais instalações no centro de Lisboa “até ao final do mês de agosto deste ano, daqui a sete meses”.

“Desde 2017 que alertámos continuamente para a urgência da nossa situação”, apontou o presidente da AAM, reforçando que existe uma “enorme instabilidade e insegurança quanto ao futuro desta escola de música, dos seus empregados, funcionários, professores, alunos, pais”.

Pedro Barata adiantou que a primeira reunião que teve com a Câmara Municipal de Lisboa foi em 2018, com a então vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto (PS), e, no atual mandato 2021-2025, teve “pelo menos quatro reuniões” com o vereador da Cultura, Diogo Moura (CDS-PP), mas foram “infrutíferas” quanto ao objetivo de encontrar uma solução para a relocalização da AAM.

“Em face da falta de resposta de múltiplas entidades, seja da administração central, seja da administração local”, em 31 de outubro de 2024, o presidente da AAM expôs a situação em reunião pública da Câmara de Lisboa. “O presidente Carlos Moedas afirmou então estar constrangido por estarmos a pedir com tão pouca antecedência sobre o final do atual contrato de arrendamento, convenientemente esquecendo as múltiplas reuniões tidas com o seu executivo”, atirou Pedro Barata.

No entanto, o dirigente concedeu que “muito rapidamente” os serviços municipais intervieram e, em 27 de novembro, surgiu a informação quanto à possibilidade de um espaço na Rua Vítor Cordon. Quando a AAM foi informada sobre essa solução foi lhe pedida discrição, pelo facto de a mesma se encontrar a uso de diferentes entidades, incluindo o Teatro Nacional de São Carlos e a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, mas nesse mesmo dia à tarde houve o anúncio público por parte do presidente da câmara, indicou Pedro Barata, referindo que a Academia teve conhecimento disso por uma vereadora da oposição.

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“Essa mesma deselegância foi estendida ao presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, atual ocupante das instalações em causa”, expôs, referindo que a AAM foi confrontada depois pela indisponibilidade da junta para colaborar com a solução avançada pela câmara, “chegando mesmo a não permitir a visita às instalações”. Para a Academia, a solução proposta na Rua Vítor Cordon é “a única viável, até ao momento”.

Pedro Barata referiu então que, a 17 de dezembro, houve um comunicado da junta a informar que, após reunião com o presidente da câmara, houve “um consenso sobre a impossibilidade de cedência das instalações da Rua Víctor Cordon” e o autarca de Santa Maria Maior apresentou “duas soluções alternativas” que poderão permitir a continuidade da AAM no centro histórico de Lisboa. “A Academia não tem nenhum conhecimento dessas negociações”, afirmou.

No âmbito da apresentação do programa do centenário de Carlos Paredes, feita esta segunda-feira no Museu do Fado, o Observador perguntou a Carlos Moedas que novidades poderia adiantar quanto ao processo de procura de um espaço para a Academia de Amadores de Música, tendo este respondido “já temos um segundo espaço”.

“Estamos a tentar encontrar o mais depressa possível, mas isso não se faz em dois dias. Esta é uma das minhas maiores prioridades, a Academia dos Amadores de Música sabe que estamos a trabalhar e em breve vou-lhe enviar quando assim tiver a solução. São soluções que demoram, é preciso fazer obras, é preciso fazer isso tudo”, declarou o autarca. Instado a confirmar se de facto o executivo já tinha um novo espaço em mente para propor, Moedas reiterou essa afirmação, acrescentando, no entanto, que não poderia, para já, adiantar mais detalhes para não ocorrer uma nova situação como a decorrida a 27 de novembro.

Munido desta informação, o Observador contactou Pedro Barata a fim de confirmar se o presidente da AAM já tinha sido informado desta putativa nova solução, tendo o dirigente negado saber de quaisquer novidades nesse sentido.

A mesma resposta foi dada pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, cujo departamento de comunicação disse que “não tem, até ao presente momento, conhecimento da solução encontrada para a Academia de Amadores de Música, nem que tal tenha sido efetivado”. Questionado também se tal espaço poderia estar relacionado com as duas sugestões feitas por Miguel Coelho a Carlos Moedas no âmbito da reunião de dezembro tornada pública pelo comunicado da junta, retorquiu que “em nome das boas relações institucionais, mantemos reserva sobre as opções apresentadas”.

A este propósito, Pedro Barata disse que o tratamento que os presidentes da câmara e da junta estão a dar à situação da AAM reflete “um comportamento indigno e uma demonstração de falta de respeito” para uma instituição histórica da cidade de Lisboa e sobretudo, para os alunos, professores, pais e funcionários desta Academia, apelando a ambos os autarcas “que sejam maduros e maiores e que se conciliem para que resolvam este problema”.

A Academia dos Amadores de Música tem de deixar o espaço que ocupa desde 1938 na Rua Nova da Trindade, no Chiado, em agosto de 2025, prazo acordado com o proprietário do imóvel após uma atualização à renda, que passou dos 542 euros para os 3.728.

Apesar desse acordo ter sido firmado no final de 2023, ainda não foi possível encontrar uma nova sede para a instituição, o que tem motivado esta procura que envolve vários órgãos municipais e que se estendeu até a alguns ministérios. Face à situação que enfrenta, os membros da Academia dos Amadores de Música entregaram uma petição com mais de 8000 assinaturas no parlamento a 12 de dezembro pugnando “pela manutenção e salvaguarda da Academia de Amadores de Música”.