Foi uma “declaração de guerra”. Localizada na fronteira entre a República Democrática do Congo e o Ruanda, a cidade de Goma foi ocupada, na passada segunda-feira, pelo grupo insurgente M23, reavivando as tensões na região. Os rebeldes controlam praticamente toda a cidade, incluindo o aeroporto. A situação está mais calma esta quarta-feira, segundo relata a BBC, mas continua precária. Os residentes continuam sem sair de casa — e nem sequer podem sair para comprar comida.

Segundo uma contagem da agência de notícias Agence France-Presse desta terça-feira, já se registaram mais de 100 mortos. Cerca de mil feridos foram levados para os hospitais de Goma nos últimos três dias de combates. Além disso, os confrontos já deslocaram mais de 500.000 pessoas desde o início de janeiro, segundo o governo da República Democrática do Congo.

Os efeitos também já se sentiram na capital da República Democrática do Congo. Em Kinshasa, as embaixadas do Ruanda, França, Bélgica, Brasil, Estados Unidos da América, Uganda e Quénia foram atacadas por manifestantes.

Por trás desta ofensiva, vários países e organizações internacionais estão apontar o dedo ao Ruanda. A Organização das Nações Unidas (ONU) confirma o envolvimento de tropas ruandesas na ofensiva, que começou no início de janeiro deste ano e que chegou agora a Goma. Os insurgentes estão a tentar avançar rumo a Bukavu, a sul de Goma, ao mesmo tempo que cresce a pressão diplomática para o Ruanda incentive ao fim das hostilidades.

Em declarações à AFP, o enviado especial do Ruanda para a Região dos Grandes Lagos, Vincent Karega, avisou que o M23 vai “continuar” a avançar no Leste da República Democrática do Congo, podendo ir mais além. Na sua opinião, “é possível”, num cenário extremo, que os rebeldes possam marchar até à capital, Kinshasa, e acabar por conseguir “partilhar o poder” no país ou “tomar o poder totalmente”.

Como pano de fundo desta ofensiva, há rivalidades e interesses económicos. O Leste da República Democrática do Congo é rico em minerais, como ouro ou coltan, essencial hoje em dia para fabricar baterias para telemóveis e veículos elétricos. O M23 já tem explorado algumas dessas minas; segundo a ONU, chegam mensalmente 120 toneladas de coltan ao Ruanda.

Mas também há fatores políticos que estão por trás da ofensiva. Ainda que o Ruanda tenha negado que esteja a apoiar a ofensiva diretamente, o Presidente ruandês, Paul Kagame, de etnia tutsi, admite que os combates no Leste da República Democrática do Congo representam uma “ameaça séria” à “segurança e à integridade territorial” do país.

Para entender a “ameaça” apontada por Paul Kagama, há que remontar a 1994. Naquele ano, o governo chefiado pelos hutus, grupo étnico a que correspondia a cerca de 85% da população no Ruanda, mataram cerca de 60 a 70% dos tutsis — o que foi considerado mais tarde como um genocídio. Após terem saído do poder, alguns dos membros mais radicais da liderança hutu fugiram para o Leste da República Democrática do Congo — e a atual elite tutsi continua a tentar desmembrar os grupos hutus.

“As pessoas que mataram pessoas no Ruanda ainda existem, ainda têm armas, e ainda praticam a ideologia do genocídio na nossa vizinhança, no Leste do Congo”, afirmou Paul Kagama, no início deste mês, citado pela Associated Press. A presidência do Ruanda acusa igualmente o governo da República Democrática do Congo de “apoiar” os hutus, em particular as Forças Democrática pela Libertação do Ruanda.

A comunidade internacional está a tentar travar esta ofensiva, tal como aconteceu em 2012. Naquele ano, o M23 também controlou a cidade de Goma, mas, fruto da pressão exercida a Ruanda, os insurgentes acabaram por se retirar da localidade. A República Democrática do Congo já caracterizou a ofensiva como uma “declaração de guerra”, sublinhando que, desta vez, o Ruanda não se esconde “atrás de artifícios diplomáticos”.

O Presidente angolano, João Lourenço, está empenhado no final da ofensiva. O Chefe de Estado expressou, esta quarta-feira, uma “grande apreensão” face aos “graves desenvolvimentos” registados no Leste da República Democrática do Congo. O líder condenou “a ocupação da cidade de Goma e apela a retirada imediata do M23 dos territórios ilegalmente ocupados”, apelando igualmente “à retirada imediata das Forças de Defesa do Ruanda do território congolês para que se criem urgentemente as condições para a estabilização da vida das populações”.