A manifestação chamava-se “Não Dá Mais” e realizou-se em Lisboa e no Porto. O tema era claro: habitação, salários, custo de vida, precariedade e a impossibilidade crescente de tantos portugueses viverem com dignidade no seu próprio país.

Não falta matéria para protestar. Há famílias que não conseguem pagar a renda, jovens que adiam a saída de casa dos pais, trabalhadores que vivem longe do local onde trabalham porque já não conseguem suportar os preços das cidades e pessoas que, mesmo trabalhando, deixaram de conseguir construir uma vida estável.

Mas basta olhar para as imagens da marcha para surgir uma dúvida simples: onde estava Portugal?

Ao longo da manifestação viam-se dezenas de bandeiras palestinianas. É legítimo que cada pessoa leve a bandeira, a causa ou a solidariedade que entende defender. Mas seria razoável esperar que, numa marcha realizada em Lisboa e no Porto para denunciar problemas portugueses, a bandeira portuguesa tivesse uma presença proporcional à causa que levou as pessoas à rua.

Vi uma bandeira de Portugal, no meio de dezenas de bandeiras palestinianas. É um contraste que merece ser assinalado. Numa manifestação sobre a vida difícil em Portugal, a imagem dominante não foi a do país, das suas famílias, dos seus trabalhadores ou dos seus jovens. Foi a de uma causa externa que, por mais relevante que seja para quem a defende, não resolve a renda de uma família portuguesa, não constrói uma casa no Porto nem aumenta o salário de quem trabalha em Lisboa.

Nas imagens transmitidas pela SIC, no início da marcha, via-se uma bandeira que encabeçava o cortejo. Inicialmente identifiquei-a erradamente como sendo do Coletivo Ruptura. Trata-se, afinal, de uma referência ao universo do videojogo Assassin’s Creed. Não altera o argumento central sobre a simbologia presente no protesto, mas esse ponto deve ser corrigido.

A ironia é difícil de ignorar. Pessoas saem à rua porque não conseguem arrendar ou comprar casa, enquanto uma das bandeiras presentes representa um coletivo que defende a abolição da propriedade privada. Pessoas protestam porque é cada vez mais difícil constituir e sustentar uma família, enquanto esse mesmo coletivo assume como objetivo a abolição da família. Pessoas exigem respostas para problemas concretos que dependem de políticas públicas eficazes, enquanto a bandeira defende a extinção do Estado.

Há, porém, uma questão ainda mais funda. A crise da habitação não é apenas a incapacidade da economia para construir as casas de que o país precisa. É também a crise de uma sociedade que parece já não saber o que quer preservar.

Uma casa não é apenas uma unidade habitacional, uma estatística ou um ativo financeiro. É o lugar onde se constitui uma família, se criam filhos, se constrói autonomia, se protegem memórias e se assegura continuidade entre gerações. É, em muitos casos, a base material de uma vida digna.

Portugal não nasceu ontem, nem começou numa assembleia de ativistas. Assenta numa história longa, numa matriz civilizacional europeia e cristã, numa língua, numa cultura, numa ideia de família e numa comunidade política chamada Nação. Tudo isto pode ser discutido, aperfeiçoado e vivido de muitas formas.

Mas não pode ser tratado como obstáculo a abater sem que se ataque, ao mesmo tempo, a continuidade do próprio país.

Por isso, combater ideologias que hostilizam a família, a propriedade, a liberdade religiosa, a identidade nacional e o Estado democrático é tão importante como exigir mais casas. Não através da censura ou da proibição genérica de ideias, incompatível com uma democracia livre, mas pela clareza, pelo debate e pela recusa de normalizar aquilo que destrói os alicerces sociais de que todos dependemos.

A luta por casas é indispensável. Mas tão indispensável como construir casas é defender a família que nelas vive, a liberdade que as protege, a comunidade que lhes dá sentido e o país onde essa vida deve ser possível.

Uma manifestação realizada em Lisboa e no Porto sobre a vida impossível em Portugal, com dezenas de bandeiras palestinianas, uma bandeira pela abolição da família, da propriedade privada e do Estado, e apenas uma bandeira portuguesa que consegui ver.

E assim vai Portugal.