Foi a terceira vez que saiu do seu “esconderijo” desde que regressou a Maputo, a 9 de janeiro. Primeiro foi a um bairro nos arredores da capital de Moçambique visitar familiares de vítimas e feridos pela polícia moçambicana na repressão das manifestações. Depois entrou de máscara num hospital da cidade para abraçar os que estão a receber tratamento médico pelos mesmos motivos e seguiu para uma outra localidade da província de Maputo. E esta quinta-feira Venâncio Mondlane foi mais longe.
O político que tem liderado uma vaga de protestos que há mais de três meses abana Moçambique chegou à província de Tete, no centro do país, numa visita surpresa. Passou por várias localidades onde foi sempre recebido por multidões eufóricas que saudou freneticamente de cima de uma carrinha. Os vários vídeos partilhados nas redes sociais deste pastor evangélico que se autoproclamou Presidente do povo moçambicano mostram milhares de pessoas a rodearem a viatura em que se desloca, a gritarem “Venâncio Presidente” e a aclamarem-no entusiasticamente.
À chegada a Tete, Venâncio disse ao que ia aos jornalistas: “Vim cá para averiguar a intensidade, no terreno, da violência policial que aconteceu durante o período das manifestações”, Mas, frisou, foi principalmente “para confortar as famílias que perderam os seus parentes” ou que têm pessoas nas prisões, “há cerca de quatro mil detidos” e “os feridos, bem como aqueles que ficaram afetados psicologicamente”.
Questionado sobre a existência de diálogo como Daniel Chapo, o Presidente oficialmente eleito pelo partido há 50 anos no poder, a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique”, respondeu que não tinha sido “oficialmente convidado” para esse processo. “O que sei foi o que os quatro partidos que estão envolvidos no diálogo me disseram — tiveram a generosidade de me vir visitar e dar um breve relatório e pedir-me algumas opiniões sobre isso. Há um draft, a que não tive acesso e um calendário estabelecido, que também não conheço, até a assinatura do acordo”, explicou.
Venâncio Mondlane acrescentou ainda que o que espera deste diálogo “é que quebre um paradigma, que já dura há trinta anos”. Para o político, “o ciclo vicioso dos acordos pós-crises eleitorais visa a partilha de lugares nos órgãos colegiais, nunca havendo reformas, havendo apenas contínua revisão da lei eleitoral”, criticou. “Têm sido acordos de políticos para políticos, sem uma única linha para medidas sociais e económicas que tenham impacto na vida da população”, lamentou, explicando que “o povo olha para eles como sendo acordos de uma elite”.
Por isso, reitera o que tem vindo a dizer: “A minha contribuição é acrescentar medidas de curtíssimo prazo que têm a ver com segurança: parar com toda a violência policial; libertação imediata e incondicional dos detidos nas manifestações; assistência médica e medicamentosa para as pessoas feridas”, enunciou. “Depois as de médio prazo, para cinco anos: construção de três milhões de casas, revitalização económica dos pequenos e médios empresários que sofreram prejuízos neste periodo no valor de até 500 milhões de dólares e uma linha de financiamento para start-ups até 600 milhões para mulheres e jovens”.
Se este acordo “contemplar estas medidas e houver um compromisso sério para cinco anos, será um passo gigantesco para dizer que Moçambique está a caminhar rumo a uma paz e, para o mais difícil, a reconciliação nacional”, concluiu. Caso contrário, avisou, “será mais um acordo, um papel, letra morta, areia nos olhos das pessoas”.
Acesso a Maputo cortado por manifestantes que usam cisterna de combustível como escudo
A guerra das portagens e o pedido de Chapo
Até lá, Venâncio não vai desmobilizar os seus apoiantes que protestam com várias ações que em muitos casos envolvem desobediência civil. Há dias que uma autêntica ‘guerra’ de portagens se desenrola, com várias pessoas a bloquearem-nas, como sucedeu em Maputo, tendo mesmo incendiado algumas como foi o caso das de Catembe e Bela Vista.
???? Relatos da portagem da Bela Vista na província de #Maputo em chamas. Isto pode ter a ver com o braço de ferro entre os gestores e aqueles que defendem a não cobrança de taxas. #Moçambique pic.twitter.com/1nBOiTg32Q
— Alexandre Nhampossa (@AllexandreMZ) January 29, 2025
Aliás, num documento publicado na terça-feira, com as 30 medidas que exige para os próximos 100 dias, Venâncio Mondlane voltou a referir a não cobrança de portagens em todo o país.
Manifestantes incendeiam portagem na província moçambicana de Maputo
Não admira por isso que, em Tete, tenha defendido o protesto através das portagens. “É legítimo. Só na N6 há 5 ou 6 portagens, isso é legal? Quem são as concessionárias que recebem diretamente desses valores? Quais os dividendos que entraram no tesouro público? 95% não canalizam receitas para o Estado”, diz. “São portagens ilegais. Povo está sendo roubado e não podemos compactuar com isso. Não se devem pagar aquelas portagens todas”, apelou.
Por seu turno, Daniel Chapo, que aterrou esta quinta-feira em Quelimane, apelou à não destruição de infraestruturas.
“Nós como moçambicanos temos que conservar as coisas que estamos a construir. É muito importante perceber isso, nós somos moçambicanos, desde a nossa independência estamos a construir o nosso país (…). Não faz sentido que alguém acorde de manhã e destrua aquilo que lhe pertence”, disse o Presidente de Moçambique, em declarações aos jornalistas, citadas pela agência Lusa, pouco de depois de chegar à província da Zambézia.
Presidente moçambicano pede fim de destruição de infraestruturas
Esta é a primeira a sua primeira visita de trabalho na província moçambicana, enquanto chefe do Estado e tinha à sua espera um grupo de mulheres que cantou e dançou.
Relatório Final da UE aponta irregularidades e discrepâncias
Enquanto mantém a pressão nas ruas, Venâncio Mondlane continua a dizer que está aberto ao diálogo com Daniel Chapo, para terminar com a crise pós-eleitoral no país. Ainda na terça-feira, quando visitou o Hospital Central de Maputo, o reafirmou:
“Não fui ainda contactado [para o diálogo], (…) quando for convidado vou apresentar os meus pontos de vista, já passei várias vezes esta mensagem (…) o único problema é que, neste momento, ele [Daniel Chapo] está vedado e não quer abrir espaço nesta mesa de diálogo”.
“Eu estou totalmente aberto” para o diálogo, repetiu Venâncio antes ainda de, nessa tarde, visitar também Bobole, na província de Maputo, local em que os confrontos entre a polícia e os manifestantes foram mais intensos e onde milhares de pessoas o acolheram.
Mondlane, que esteve fora do país mais de dois meses depois de sofrer tentativas de assassinato e de o seu amigo e advogado ter sido morto com 25 balas, continua a contestar os resultados eleitorais de 9 de outubro que deram a vitória a Daniel Chapo e que acusa de serem fraudulentos. Esta quinta-feira foi finalmente divulgado o relatório final da União Europeia, que pode ler aqui na íntegra, sobre as eleições. A Missão de Observação da UE conclui que as “várias irregularidades e discrepâncias afetaram a “ntegridade do processo e dos resultados” eleitorais.
Depois de entregar o documento em Maputo esta quinta-feira a Daniel Chapo, a chefe da Missão, Laura Ballarín, deixou claro, no entanto, que “em nenhum país do mundo” estas missões “validam ou invalidam os resultados eleitorais”.
Em declarações aos jornalistas, na Presidência da República, Laura Ballarín não deixou de destacar “o processo de diálogo político entre todas as partes que está a decorrer” mas fez questão de dizer que “deve ser inclusivo” no que pode ser visto como uma alusão a Venâncio Mondlane, que até aqui tem estado arredado da mesa destas conversas entre Daniel Chapo e os partidos políticos.
A chefe da missão adiantou ainda que nos próximos dias prevê reunir-se “de forma empenhada com diferentes forças políticas e com os candidatos presidenciais”, incluindo com Venâncio Mondlane — que não reconhece os resultados eleitorais, reclamando vitória -, “para além das autoridades e representantes da sociedade civil”.
Aliás, fonte próxima de Venâncio disse ao Observador que Laura Ballarín se vai encontrar nesta sexta-feira com o antigo candidato presidencial para lhe dar a conhecer as conclusões do relatório.