O cuidado com o corpo. O respeito e a paixão pela profissão que tem desde sempre. A possibilidade de estar perto da família. Viver de forma tranquila e em paz. Podíamos apontar mais uma dúzia de razões, mas estas são provavelmente aquelas que explicam de forma inequívoca a longevidade de Cristiano Ronaldo. No dia em que cumpre o 40.º aniversário, o capitão da Seleção portuguesa deu uma entrevista ao Canal 11 e falou de tudo, desde o passado e o futuro no Sporting à sua rotina, passando pelo mundo dos negócios.

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Tranquilo e com um sorriso no rosto. De calções, t-shirt e um casaco que mais pareciam saído de mais uma sessão de trabalhos. Foi assim que Cristiano se apresentou numa conversa de cerca de 20 minutos que decorreu em Riade, no centro de treinos do Al Nassr. “Gosto de festejar os anos. Há muitas pessoas que não gostam, mas eu gosto. Acho que é um bom sinal. Ficar mais velho faz parte da vida. Temos de encarar com uma certa leveza. É um momento especial para estar com os amigos e a família. Há 10 anos dizia que podia jogar até aos 34/35 anos, mas as coisas vão andando. O corpo ainda consegue responder e é o mais importante. Costumo dizer aos meus amigos que, a partir dos 35, jogar futebol já é um presente. Fazer 40 anos e ainda estar a jogar, a desfrutar do futebol, a fazer golos e a diferença… nunca pensei. Tem sido um desafio bastante bonito”, começou por dizer, revelando que a “melhor prenda é estar com a família e amigos”.

Na entrevista, Ronaldo acabou por abordar o atual momento do Sporting, garantindo que continua a acompanhar a equipa que o revelou ao mundo. “Tem feito uma época muita parecida com a passada, tem uma equipa constante e teve um momento menos bom quando o Ruben [Amorim] saiu. A estrutura é muito boa, está bem organizada desde o ano passado e têm feito um trabalho excelente. O novo treinador [Rui Borges] tem feito um bom trabalho e mostrado que é um treinador muito bom”. Quanto ao futuro, garante que “nunca” pensou em regressar aos leões, opção que “não faz sentido”: “A minha etapa em Portugal foi para começar no futebol. Tudo tem um tempo e um limite”.

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Nesse sentido, o futuro não passa por Alvalade e, segundo o próprio, também não deverá passar pelos balneários. “Ser dirigente de um clube não faz sentido porque, se eu tenho a possibilidade de ser dono, porque é que hei-de ser dirigente? Esse é o meu sonho e tenho a certeza que o vou ser. Espero não ter só um clube e ter vários clubes. O negócio depende das oportunidades e sempre foi algo que me motivou. Tenho uma equipa que pensa o mesmo que eu e faz-me sonhar com coisas que eu não sonhava. Gosto muito dessa área. Continuo a diversificar e a ver a vida e as oportunidades de negócio. Aprender áreas que não domino é um passatempo para mim. O meu mundo vai ser nessa área e 90% das coisas serão fora do futebol”, partilhou.

“Não conheço ninguém que seja um fora de série e não seja criticado”

Estar no topo do futebol mundial há mais de duas décadas exige trabalho e rotinas. Ronaldo não é diferente. O avançado acorda “todos os dias às 8h30”, gosta de “tomar o pequeno-almoço” com a esposa Georgina Rodríguez e levar os filhos à escola. Só depois segue para o centro de treinos do Al Nassr. “Faço o treino, o almoço por vezes é obrigatório e à tarde costumo de descansar, dependendo se tenho alguns trabalhos de publicidade. Quando estou muito cansado tento fazer uma segunda recuperação em casa ou trabalho específico. Gosto de estar com os meus amigos, divertir-me, fazer outras atividades e desportos. Tento jantar cedo com os meus filhos e, a partir das 20/21 horas gosto de ter tranquilidade com a Gio, ver um filme, tratar de trabalho que seja importante… tento levar as coisas de uma maneira tranquila, em paz e sem stress”, explicou.

Cristiano Ronaldo assumiu ainda que a primeira memória que tem do futebol está relacionada com “paixão”, algo que considera ser essencial. “As pessoas têm uma paixão por ver o jogo e ver o Cris a marcar. É essa a minha motivação e é por isso que continuo a jogar. Essa paixão nasceu cedo, na Madeira ou nas camadas jovens do Sporting. Ainda gosto de treinar. É o mesmo que sentias com 20 anos? Não, não é o mesmo, mas ainda sinto a paixão. Ainda gosto de fazer um treino de finalização, competir com os outros… Os meus amigos dizem: ‘Não tens vida’. É verdade, mas eu gosto. Sei que vai acabar daqui a um ano, dois, três… não sei e isso não me importa. Ainda sinto aquela adrenalina antes do jogo. É a paixão que ainda me move a continuar a jogar. Fim? Não estabeleço prazos. Depende muito de como vives a tua vida. Na vida não podemos fazer planos a longo prazo. O mais importante é o momento”, partilhou.

“Não vou dizer que fui pioneiro, mas ajudei muito em termos de longevidade, não só no futebol como em todos os desportos. Fico contente por passar uma mensagem positiva para a nova geração. Tudo é possível. Teres uma vida praticamente dedicada ao futebol é muito difícil, mas é possível. Se queres ter longevidade tens de te dedicar à profissão quase 24 horas por dia. Ver futebol? Não vejo muito televisão. Gosto muito de ver Netflix e séries. Tento acompanhar o futebol português, Ligas italiana e inglesa, mas não sou um fã. No outro dia estava a dar o Arsenal-Man. City e vi. Também tento acompanhar o Man. United, não só pelos portugueses, mas por ser um clube que gosto bastante. O mesmo com o Sporting. Críticas? Fazem parte e ainda bem que há críticas. Não conheço ninguém que seja um fora de série e não seja criticado”, acrescentou.

“Gostava de jogar com o meu filho, mas não é uma obsessão”

Na parte final da entrevista com o Canal 11, Cristiano Ronaldo foi questionado sobre o Mundial do próximo ano e assegurou que já conquistou tudo o que tinha para conquistar. “Acho que não me falta nada, sinceramente. Concretizei o meu sonho de ganhar algo pela Seleção, que foi o Europeu. Não seria justo da minha parte dizer: ‘Falta-me o Mundial’. Estou muito grato por aquilo que tenho e conquistei, tanto no futebol como fora do futebol. Se vier por acréscimo, aqui estarei, mas não vejo como uma meta. Também não sei se vou jogar no Mundial [de 2026]. Falta um ano e meio… muita coisa vai acontecer. Quando vier o Mundial, se estiver em boa forma e se o mister quiser a minha ajuda, sou sempre uma mais-valia em qualquer setor”, garantiu.

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“Tento acompanhar sempre o crescimento dos meus filhos. Para mim, independentemente de onde jogo ou onde esteja, a família tem de estar sempre perto de mim. Ajuda-me a concentrar no trabalho e a estar de consciência tranquila. Esta geração é diferente. Eles têm outros ídolos, outras referências e gostam de outros desportos. Por exemplo, o Mateo gosta de futebol americano e de jogar papel. O mais velho [Cristianinho] está completamente focado no futebol, convive muito com os árabes e gosta de se deitar tarde. As meninas estão no colégio e têm saudades de Espanha porque nasceram lá. É um desafio constante, mas é muito bonito estar perto da família”, revelou sobre a família.

Questionado sobre se pensa em jogar com o filho, Ronaldo respondeu que “gostava”, mas não é algo que lhe “tire o sono”. “Está mais nas mãos dele do que nas minhas. Os anos começam a passar e obviamente um dia vou ter de deixar o futebol. Não vejo isso como uma obsessão. Ele vai seguir o seu caminho, a sua trajetória e estarei orgulhoso do que ele quiser fazer. Se jogar, top, se não jogar, tentámos. Não será um problema”, finalizou.