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FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

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"Eu é que sou o Cristiano Ronaldo". As histórias de cinco jogadores que levam o melhor do mundo no nome

Ronaldo só há um e mais nenhum? Nem por isso: em Portugal foram federados 37 Cristianos Ronaldos. A jogar sobram 13, do Minho até às ilhas. Do CR5 a um autogolo prematuro, estas são as suas histórias.

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Ronaldo
Variante de Reinaldo (do inglês antigo Regenweald, ‘força do poder’), através do nórdico Rögnvaldr. É raro em Portugal mas bastante comum no Brasil. ● São Ronaldo, Príncipe das Órcades e fundador da catedral de Kirkwall; martirizado em 1158.

É isto que lemos quando chegamos à entrada do nome mais famoso do futebol mundial no Dicionário de Antroponímia da Porto Editora. Força, poder, conquista, realeza, fundação. Tudo atributos que seriam mais do que suficientes para levar qualquer pai a escolher tal nome para um filho. Foi isso que fez José Diniz Aveiro em 1985, quando teve a tarefa de escolher o nome do quarto filho. Aí, o raciocínio foi mais simples: o pai tem um ídolo; esse ídolo é o seu ator favorito que, entretanto, é só presidente dos EUA; gosta do nome; convence a família. Resultado: dá ao filho o nome de um dos humanos mais famosos à escala planetária. Mas que pai é que teria a coragem para ter uma ideia destas? Diniz. E José. E Fernando. E Francisco. E Sónia. E Adélia. E muitos e muitos outros pais, avós, irmãos, ou padrinhos. Pelo menos 36 pais tiveram a ideia de dar ao seu filho o nome do mais famoso da história. E esse nome é Cristiano Ronaldo.

Serão certamente mais do que 36, mas registados na Federação Portuguesa de Futebol, federados na modalidade, é esse o número. São 36 meninos que correm – ou correram– atrás do sonho de ser como o primeiro nome na lista da FPF, com 13 deles ainda a jogar no ativo. São (praticamente) de todos os lugares do país, continente e ilhas. Nasceram todos depois da estreia do, na altura, CR28. O mais velho, Cristiano Ronaldo Moreira Sousa, nasceu a 14 de fevereiro de 2003 no distrito de Aveiro. Na altura, Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro estava na primeira época de seniores da carreira, no Sporting, e ainda só tinha feito 20 jogos, com cinco golos marcados. Os pais que apostaram no nome viram o que mais ninguém viu. Vida mais facilitada tiveram os pais de Cristiano Ronaldo Silva Dias, o mais novinho da lista. Tem 11 anos, nasceu em maio de 2013, e na altura já Ronaldo tinha ganhado uma Bola de Ouro e uma Liga dos Campeões, com o estatuto de astro planetário.

Mas aqui não é preciso irmos à escala do planeta. Fiquemos no nosso cantinho à beira-mar plantado. Há Cristianos Ronaldos a jogar futebol por todo o país, do continente às ilhas. Nos arquipélagos – talvez por força do exemplo original – a presença é forte. Dos 36 Cristianos, dez vêm da Madeira ou dos Açores, cinco de cada lado. Mas a grande campeã geográfica de Cristianos Ronaldos é sem dúvida a região de Entre-o-Douro e Minho: são 14 meninos que jogam ou já jogaram futebol com o nome de CR7 nas costas. Pelo contrário, de Beja para baixo não há pais fãs do nome que levou Portugal além fronteiras. Todos são diferentes mas têm todos em comum o sonho de vir um dia a ser o jogador que lhes deu o nome. São 36. 13 jogam atualmente. Numa altura em que Cristiano Ronaldo está prestes a celebrar 40 anos, como acontece esta quarta-feira, contamos as histórias de cinco deles, os Cristianos Ronaldos que jogam nas sombras.

O nome deles é Ronaldo. “Só acreditam se mostrar o cartão do cidadão”.

Cristiano Ronaldo Campos Pereira. O Ronaldo que não gostava de futebol

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Quem és tu, Cristiano Ronaldo?

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Nome: Cristiano Ronaldo Campos Pereira
Idade: 18 anos
Clube: Olímpico Montijo
Posição: Extremo ou Ponta-de-Lança
Jogador favorito: Cristiano Ronaldo
Golo favorito do CR7: Pontapé-bicicleta contra a Juventus, 2018
Melhor memória do CR7: Golo de livre contra Espanha, Mundial 2018
O que tem parecido com CR7: A velocidade
Se pudesse ter uma coisa da vida do CR7: A habilidade técnica

Em 2001, com apenas 16 anos, Cristiano Ronaldo – o original –, dava a primeira de muitas entrevistas, no caso ao Jornal Sporting. Na altura, antes das mansões, dividia quarto com outros colegas do Sporting, num apartamento arrendado pelo clube na zona do Marquês de Pombal, no centro de Lisboa, depois de ter passado pelo Lar do Jogador na Nave de Alvalade que acabou por cair pela construção do novo estádio. Nessa entrevista, Ronaldo não escondia a ansiedade de conhecer o novo centro de treinos do Sporting, a Academia de Alcochete, longe de saber que um dia teria o seu nome. “Estou muito ansioso. A nossa futura casa vai ter muitas condições habitacionais e de conforto e não há dúvida de que teremos tudo o que precisamos para sermos bons jogadores”, dizia. A agora Academia Cristiano Ronaldo só foi inaugurada um ano depois dessa entrevista, a 21 de junho de 2002, criando uma nova centralidade no futebol português: a Margem Sul do Tejo, onde quatro anos mais tarde também o Benfica se iria estabelecer, no Seixal.

Foi precisamente a meio caminho destes dois pontos, na margem sulista do rio, que anos mais tarde nasceria mais um motivo para o futebol sorrir: no Montijo, a 22 de julho de 2006, surgia Cristiano Ronaldo Campos Pereira. Mas se o futebol lhe sorriu logo por causa do nome… Cristiano não sorriu logo de volta. “Quando era pequeno, não conseguia ver a bola. De vez em quando chamava-o para ver o Benfica ou a Seleção e nada. Até fugia de mim. E foi assim até o colocarmos no futebol, quando começou no Sonho XXI. Só aí é que começou a ganhar aquela paixão. Hoje em dia adora futebol”, explica-nos o pai Francisco, com a mãe Sónia, ao lado, a corroborar. E garantem: a entrada no futebol não foi forçada pelo nome.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Não o inscrevemos no futebol para ele ser o ‘Cristiano Ronaldo’, mas para fazer desporto. E ele, ao longo dos anos, lá foi fazendo crescer a paixão pelo futebol. E não desiste. Ele com 18 anos já podia ter saído, mas não. É uma coisa que gosta mesmo de fazer”, dizem os pais. Cristiano confirma. Jogou seis épocas no Sonho XXI, outras três no Comércio Indústria e esta época pegou nas chuteiras e rumou ao Clube Olímpico Montijo, onde está no plantel de juniores. A adaptação, diz, tem sido boa. “Tenho jogado a extremo e por isso faço mais assistências do que golos. Acho que já fiz umas seis ou sete. Golos marquei um”, explica. E como é que festejou esse golo solitário? É dessa forma que está a pensar, claro. Um Siiiiiiii de CR7 acompanhado pelos novos companheiros, que também já sabem como o tratar. “Eu costumo responder só Cristiano, tenho um bocadinho de vergonha de dizer Cristiano Ronaldo [risos]. Mas os meus amigos tratam-me por Cris ou Ronaldo”, conta.

Mas afinal de contas, de quem terá sido a “culpa” da escolha do nome? O pai Francisco e a mãe Sónia estão alinhados em passar as responsabilidades para quem costuma mandar verdadeiramente nestas coisas: as irmãs mais velhas. “Uma tinha dez anos, a outra tinha nove e elas já gostavam do Ronaldo. Nós dissemos que íamos só pôr Cristiano, mas elas quiseram muito e a gente lá pôs. Ficou Cristiano Ronaldo”, explica a mãe, mas com uma nota do pai. “Eu ainda fiquei a pensar um bocado. Era um bocado exagerado. Mas ficou. Foi para lhes fazer a vontade. Mais tarde ganhei eu, que escolhi Simão para o mais novo, por causa do Sabrosa. Mas aí ficou só Simão [risos]”.

Elas gostaram. E, mais importante, o dono do nome também gostou. Muito. Mesmo que o nome lhe tenha trazido algum protagonismo. “Acho que comecei a notar que o meu nome era especial quando me chamavam no médico. Chamavam-me para a triagem, eu levantava-me e toda a gente começava a olhar para mim. E eu só pensava ‘O que é que eu faço agora?’. Ficava nervoso. Na escola primária, os meus colegas reagiam impressionados. Diziam que era mentira. Eu na altura ainda não tinha os meus pezinhos para lhes mostrar. Hoje também ainda não tenho [risos]. Mas diziam-me logo ‘Não és nada parecido, então com os pés…’”.

Comecei a notar que o meu nome era especial quando me chamavam no médico. Chamavam-me para a triagem, eu levantava-me, e toda a gente começava a olhar para mim. E eu só pensava 'o que é que eu faço agora?'
Cristiano Ronaldo Campos Pereira

Mas não são só os pés que importam quando se leva aos ombros o peso do nome Cristiano Ronaldo. É também toda uma história de superação e ambição sem limites, que este Cristiano Ronaldo tenta carregar também. E mesmo que não consiga fazê-lo da mesma forma que o primeiro, a intenção, essa, está toda lá. “Ele é um espetáculo de miúdo. Pensa sempre primeiro na família. Se pudesse, gostava de ajudar a gente. Nós temos uma vida razoável, mas já lhe dissemos várias vezes ‘Não tens de fazer nada por nós, tens de fazer por ti’. E ele diz que não. É assim desde pequeno. E mesmo quando cresceu, não mudou nada, continua a ser aquele menino”, conta a mãe emocionada. Mudar a vida pelo futebol talvez seja complicado, mas impossível nunca será. E Cristiano Ronaldo Campos Pereira sabe disso: “O meu sonho é chegar a profissional, à Primeira Liga. Claro que com a idade que tenho torna-se mais difícil. Mas é não desistir, é continuar, persistir e focar. É o meu grande sonho”.

Cristiano Ronaldo Silva Afonso. O Ronaldo que começou com um autogolo

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Quem és tu, Cristiano Ronaldo?

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Nome: Cristiano Ronaldo Silva Afonso
Idade: 18 anos
Clube: ARC Águias Alvelos
Posição: Extremo-esquerdo
Jogador favorito: Cristiano Ronaldo
Golo favorito do CR7: Pontapé-bicicleta contra a Juventus, 2018
Melhor memória do CR7: A conquista do Euro-2016
O que tem parecido com CR7: A visão de jogo
Se pudesse ter uma coisa da vida do CR7: Os carros dele

Habitualmente, Cristiano Ronaldo (o dos Santos Aveiro) é considerado o símbolo maior do nosso país. São poucos os rivais, sejam materiais ou humanos, a fazer frente à presença de CR7 numa qualquer loja de souvenirs de Lisboa ou Porto. Porventura pode haver um que se aproxima: o mítico Galo de Barcelos. Talvez seja daí, dessa rivalidade, que Cristiano não se dê bem com os ares da cidade. Ainda longe dos tempos de sete nas costas, Ronaldo fez os dois únicos jogos na cidade minhota e as coisas não lhe correram de feição. No primeiro desafio perdeu: com o 28 na camisola, jogou quatro minutos na derrota do Sporting frente ao Gil Vicente por 1-0, a 21 de março de 2003, a contar para a jornada 26 da Primeira Liga, no ainda velhinho Estádio Adelino Ribeiro Novo; no segundo jogo, já no novo Cidade de Barcelos, até ganhou, mas nem golos nem assistências: vitória por 4-1 pela Seleção frente ao Canadá, em amigável a 26 de março de 2005, com 46 minutos em branco e número 17 nas costas.

Portanto, em toda a carreira, zero golos de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro a jogar no município de Barcelos. O mesmo não pode dizer Cristiano Ronaldo Silva Afonso. A apenas oito quilómetros do Estádio Cidade de Barcelos está o campo do Águias de Alvelos, clube que milita na Divisão de Honra da distrital de Braga e que nasceu no mesmo dia de CR7, mas 24 anos antes. A 5 de fevereiro de 1961 era fundado o clube azul e branco e quem diria que anos mais tarde iria receber um homónimo do “dono” da data. Foi Cristiano, de 18 anos, quem nos abriu a porta do estádio, que naquela manhã de quinta-feira estava vazio. Os treinos são só ao final da tarde, mas para ele, por enquanto, não faz grande diferença: “Eu estou lesionado. Tive uma lesão no pé e parei duas semanas, só vou voltar agora. E vou voltar em grande”, afirma Cristiano Ronaldo com ambição digna de Cristiano Ronaldo. Mas nem sempre é fácil manter essa raça.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Acho que tenho de ganhar ainda mais paixão pelo futebol, ainda me falta um bocadinho. Eu tenho paixão, mas agora já não tanto. A idade está a passar, as oportunidades a descer… Tenho de ganhar um pouco mais de paixão se ainda quero chegar lá acima”, explica o extremo esquerdo dos juniores do Águias de Alvelos, de regresso ao clube depois de uma passagem pelo vizinho São Veríssimo. E o que é o “lá acima”? Não sabemos, mas tudo o que vier à rede é peixe para quem não tinha nos planos iniciais ser “jogador da bola”. À semelhança do CR anterior, o de Alvelos também não sentiu amor à primeira vista da bola. Tanto que… só descobriu o seu homónimo na escola, por causa dos colegas. “Acho que foi na primária. Eu na altura não sabia bem quem era o Cristiano Ronaldo. Uns colegas da minha turma é que me disseram que eu tinha o nome de um famoso. Achei estranho, mas era verdade. Até porque na altura eu não ligava nenhuma a futebol. Depois de perceber que tinha o nome dele é que comecei a gostar”, conta.

E o resto é história na curta carreira de Cristiano Ronaldo Silva Afonso. Uma carreira que começou de forma um bocadinho diferente da do capitão da Seleção. E “diferente” é um eufemismo: “Quando o inscrevi nas escolinhas aqui no Águias, ele marcou um golo na própria baliza. No pontapé de saída virou-se para o lado errado, correu para a baliza e marcou autogolo… [risos] Foi sem querer, coitado. Os companheiros nem o avisaram, porque se começaram a rir”, conta o pai Fernando com um sorriso nos lábios. O sorriso de quem, como no Ronaldo anterior, não é responsável pela homenagem no nome do filho. Desta vez, a culpa foi da madrinha. “A ideia foi dela, que era fã do Cristiano Ronaldo. E achava que a única maneira de homenageá-lo, era dando o nome dele. Ora eu digo assim: ‘Mas quê? Queres ganhar milhões como o verdadeiro, é? É que não vais’. No início valeu pela risota, mas admito que fiquei apreensivo. Mas depois aceitou-se”, confessa Fernando. Mas arrependimentos, esses, nunca. “Arrependido? Não, não, não, não, não… Ele gostou do nome. Interiorizou bem o nome que lhe deram”, diz.

"Acho que tenho de ganhar ainda mais paixão pelo futebol, ainda me falta um bocadinho. Eu tenho paixão, mas agora já não tanto. A idade está a passar, as oportunidades a descer... Tenho de ganhar um pouco mais de paixão se ainda quero chegar lá acima."
Cristiano Ronaldo Silva Afonso

Até porque mais do que está escrito no Cartão do Cidadão, o que vale é o que está escrito na cabeça destes meninos. E diz quem o conhece, a começar pelo pai, que este tem uma Bola de Ouro mais valiosa do que a futebolística: “Ele é um jovem bondoso. Muito bondoso. Em tudo o que puder ajudar, ajuda. É novo, não trabalha, o tempo que tem usa-o para ajudar as pessoas”, fala o pai Fernando com voz embargada pelo orgulho, até pela infância por vezes difícil de Cristiano. O futebol foi, por isso mesmo, um escape patrocinado pelo nome do seu herói. E quanto a isso, Cristiano Ronaldo Silva Afonso não tem dúvidas: o nome faz parte dele e nunca o vai renunciar. “Se eu gosto de me chamar Cristiano Ronaldo? Adoro, adoro. Podem criticar e dizer que tenho um nome ridículo, mas eu adoro. Adoro”.

Cristiano Ronaldo Duarte Feliciano Neves. O Ronaldo que joga a médio defensivo

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Quem és tu, Cristiano Ronaldo?

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Nome: Cristiano Ronaldo Duarte Feliciano Neves
Idade: 16 anos
Clube: CD Escola Académica
Posição: Médio-centro/Trinco
Jogador favorito: Cristiano Ronaldo
Golo favorito do CR7: Pontapé-bicicleta contra a Juventus, 2018
O que tem parecido com CR7: A ambição
Se pudesse ter uma coisa da vida do CR7: A personalidade dele

Em 23 anos de carreira, Cristiano Ronaldo – o original – já jogou de muitas cores, com vários números, infinitos penteados, mas em poucas posições. Quem o acompanhou desde o início, terá sempre a memória do CR7 extremo esquerdo. Ou direito quando era preciso. Os mais novinhos – ou que chegaram ao futebol há menos tempo – já só conheceram o capitão da Seleção como ponta de lança.

De acordo com a plataforma Transfermarkt, Ronaldo jogou em quatro posições: foi extremo esquerdo em 406 jogos, direito em 176, ponta de lança em 354 e até segundo avançado em quatro deles. Agora, o que o “Bicho” nunca foi, foi médio centro. Nisso, Cristiano Ronaldo Duarte Feliciano Neves leva vantagem. Assim que o conhecemos, numa gelada noite de quinta-feira, suspeitámos logo que dali não viria avançado goleador. “Porquê o número 5 nas costas, Cristiano?”. Já o trouxe do clube anterior e foi de lá que trouxe também o posicionamento. “Eu sou trinco ou médio centro. No meu clube antigo [ARECO/Couto] não tive a oportunidade de jogar à frente. Puseram-me sempre a médio centro. A partir daí habituei-me. Mas gostava de poder experimentar ser avançado, para marcar uns golos”, admite o Cristiano Ronaldo das Caldas da Rainha.

Foi lá, no enérgico campo repleto de crianças da Escola Académica de Futebol, que conversámos com este Ronaldo, que nasceu num dos anos mais importantes da carreira do original. Com 16 anos, nasceu a 1 de setembro de 2008, praticamente três meses certos antes de CR7 receber a primeira Bola de Ouro que venceu. Outros tempos, com Ronaldo a encantar Old Trafford, e que este “CR5” já não viu. Aliás, correção: não viu em direto. “É o meu ídolo desde sempre. Quase desde que nasci que vejo vídeos dele, acompanho todos os dias os resultados”. E naquele dia Ronaldo tinha jogado e marcado. Mais um, contra o Al-Raed, mas o mini CR não pôde ver em direto porque estava a treinar. A Escola Académica de Futebol tem uma visão muito positiva do desporto e até perdoa faltas ao treino em caso de estudos ou compromissos familiares. Mas como faltas para ver Ronaldo ainda não são perdoadas, o melhor é não arriscar.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

De qualquer maneira, havia outro motivo para estar focado no treino. Cristiano tinha a avó a ver. Tem sempre. E perante tamanhos elogios, é bom que o toque de bola esteja afinado. “Ele é uma criança exemplar. Porta-se muito bem. A mãe está longe, está no Norte, mas quem o ajuda sempre sou eu e a mãe. Aliás, fui eu e a mãe que decidimos o nome. Eu gostava muito do nome porque o Ronaldo era muito famoso. A culpa foi nossa, fomos nós que escolhemos”, explica Adélia, sempre com um sorriso nos lábios e com os olhos a brilhar a falar do neto. Um brilho que espera que o acompanhe para o futuro. “Ele está sempre pronto para jogar, só quando está doente é que não vem. Gostava que fosse um grande futebolista e tivesse uma vida boa. O Cristiano Ronaldo também era pobre e conseguiu. O meu Cristiano, graças a Deus, ainda tem alguma coisinha”.

"Eu sou trinco ou médio centro. Mas gostava de poder experimentar ser avançado, para marcar uns golos."
Cristiano Ronaldo Duarte Feliciano Neves

A época, por enquanto não está a correr mal. CR5 já tem uma assistência, para quem chegou ao novo clube a meio da época. Mas mesmo que a vida futebolística não chegue ao patamar do homónimo, Cristiano Ronaldo Duarte Feliciano Neves já tem um plano B. Está a tirar um curso de desporto no colégio que frequenta, para que fique sempre ligado à bola. Não vai ser fácil, mas aí, como nos diz, é canalizar uma das maiores qualidades de CR7. “Tal como o Ronaldo, eu sou ambicioso também. Quero sempre ganhar”. E no meio das dificuldades já está a fazê-lo, mesmo que ainda não tenha idade para o perceber.

Cristiano Ronaldo Silva Correia. O Ronaldo que descobriu quem era no YouTube

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Quem és tu, Cristiano Ronaldo?

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Nome: Cristiano Ronaldo Silva Correia
Idade: 15 anos
Clube: AD Bobadelense/Sporting CP
Posição: Extremo-esquerdo
Jogador favorito: Cristiano Ronaldo
Golo favorito do CR7: Pontapé-bicicleta contra a Juventus, 2018
Melhor memória do CR7: A conquista do Euro-2016
O que tem parecido com CR7: Remate de fora da área
Se pudesse ter uma coisa da vida do CR7: Uma das casas dele, para dar à família

Na tarde de 16 de outubro de 1997, há quase 28 anos, chovia torrencialmente. O pelado do Campo Atlético Thomaz Reynolds, em Santa Iria de Azóia, era agora um festival de lama, com os adeptos a fugir do apeadeiro para se abrigarem. Com eles, fogem também os 22 jogadores que estavam em campo. Um deles, de apenas 12 anos, é Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Acabou de chegar da Madeira, proveniente do Nacional, e está a fazer a estreia com a camisola do Sporting, ao serviço dos infantis. Quando o duelo com o Santa Iria foi interrompido, ao minuto 41, os leões venciam por 7-0. Ronaldo marcou? É o mais provável, mas ninguém sabe. “Como o jogo foi interrompido, não se sabe ao certo quantos golos Cristiano terá marcado em 41 minutos com o Santa Iria”, escreveu um dia o Jornal Sporting. A estreia a marcar até pode não ter acontecido naquela tarde chuvosa, mas a estreia a jogar de leão ao peito é algo que a água da chuva não apagou. Santa Iria de Azóia ficou assim no mapa de Cristiano Ronaldo.

Avançamos 27 anos. Estamos em fevereiro de 2025. O Campo Atlético Thomaz Reynolds já não é pelado. Não chove. Também a freguesia de Santa Iria de Azóia mudou, com a chamada “Lei Relvas”. Agora não é apenas freguesia de Santa Iria de Azói, mas sim União de Freguesias de Santa Iria da Azóia, São João da Talha e Bobadela. E à conta dessa “batota” geográfica, os astros alinharam-se para podermos escrever esta frase: 27 anos depois, na mesma freguesia onde o pequeno Cristiano se estreou com a camisola do Sporting, joga um Cristiano Ronaldo… também no Sporting. É na Bobadela, vila vizinha de Santa Iria, que Cristiano Ronaldo Silva Correia treina todas as semanas, com o coração dividido entre o verde e o amarelo. Fruto da protocolo entre o Sporting e a AD Bobadelense, assinado em julho de 2024, Cristiano treina com as cores dos leões, mas joga com o amarelo do clube da terra. Um coração que se divide noutra cor, que por ali não convém ser dita tão alto: “Eu sou do Benfica mas não me custa nada jogar no Sporting, é um grande clube. Se recebesse uma proposta para jogar na equipa principal aceitava, claro”, conta.

"Desde pequenininho que ele só queria bola, até dormia com ela. Quando era miúdo, estava sempre a fazer um joguinho à porta de casa: temos lá um poste e ele passava horas a chutar contra o poste. Ele em dez chutos acertava sete ou oito. Eu uma vez fui lá experimentar e em dez acertei um. E eu jogava bem à bola quando era miúdo [risos]"
José Correia, pai de Cristiano Ronaldo Silva Correia

Quem sabe um dia, até porque Ronaldo é ainda muito jovem. Tem apenas 15 anos e está no plantel de iniciados. Tal como CR – noutros tempos –, é extremo e a época até tem corrido muito bem. Principalmente um dos jogos: “Marquei três golos até agora na época e todos no mesmo jogo. Foi fixe, foram dois de fora da área e o outro o guarda-redes defendeu a bola para a frente e marquei na recarga”. Triplo Siiiiiiiii, portanto? Parece que não. “Eu nunca festejo como o Ronaldo, por acaso. Não festejo, cumprimento só os meus amigos e incentivo-os a marcar mais golos”, conta-nos “Cris”, sempre num tom pragmático e sério, de quem já não pensava noutra coisa que não fosse largar o microfone e seguir para o treino, a acontecer nas suas costas. Os cumprimentos dos companheiros – com nomes muito mais “aborrecidos” –certamente ajudaram. E nem foi preciso Cristiano explicar nada a cada amigo que chegava ao relvado. “É por causa do nome, não é?”, confirmavam connosco e com ele.

Todos sabem que Cristiano Correia é, na verdade, Cristiano Ronaldo. Aliás, nem todos. A certa altura sabiam todos menos o próprio, que descobriu sozinho a dimensão do nome que leva no Cartão do Cidadão. “Foi para aí aos sete ou oito anos. Estava a ver vídeos no YouTube e apareceu-me um vídeo que dizia ‘Os Melhores Jogadores de Futebol de Todos os Tempos’. Cliquei, porque apesar de gostar de futebol, não conhecia nenhum daqueles jogador. A certa altura aparece ‘Cristiano Ronaldo’ e eu gritei ‘Ah, mas é o meu nome!’. A partir daí fui pesquisar mais sobre ele e percebi que era muito bom”, conta “CRSC”. A partir daí, foi aberta toda uma “caixa de Pandora” em que Cristiano percebeu que o seu nome era especial. O que por vezes requer um bocadinho mais de paciência. “Uma vez fui ao cinema com os meus amigos e tivemos de dar os nossos nomes. Eu dei o meu e a funcionária do cinema não gostou, disse logo ‘Oh menino, para lá de brincar que eu estou a trabalhar’. Tive de mostrar o Cartão do Cidadão para ela acreditar”. Apesar disso, não tem dúvidas. “É um nome fixe, é uma coisa fixe ter o nome de um jogador de que eu gosto muito”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ouvir isto deve ser um alívio para os pais, já que a ideia foi deles. José Correia, o pai, também não está arrependido, bem pelo contrário. “A escolha foi minha e da mãe do Cristiano. A mãe é que começou a dizer que queria que ele fosse Cristiano Ronaldo. E eu respondi ‘Mas nome de jogador?’. Mas como era fã dele, olha, aceitei. Eu gosto muito do nome. O meu filho também gosta muito de futebol, por isso acho que deu certo”. E deu mesmo. Quais poderes mágicos, foi como se o nome tivesse entrado ADN adentro do menino natural da Bobadela. Ao contrário de outros Cristianos Ronaldos, este não gastou um dia que fosse sem bola. “Desde pequenininho que ele só queria bola, até dormia com ela. Passava o dia inteiro a jogar. Quando era miúdo, estava sempre a fazer um joguinho à porta de casa: temos lá um poste e ele passava horas a chutar contra o poste. Ele em dez chutos acertava sete ou oito. Uma vez fui lá experimentar e em dez acertei um. E jogava bem à bola quando era miúdo [risos]”.

Durante a entrevista, não confirmámos os dotes de futebolista do pai José Correia mas desconfiamos deles por um motivo simples, dito pelo próprio, em mais uma coincidência magnífica desta história: se o pai José fosse bom de bola, provavelmente teria sido chamado anos mais tarde por um dos meninos com quem jogava na rua, no Bairro da Petrogal, na Bobadela. Quem era esse menino? Pois bem, nada mais nada menos do que Jorge Mendes, o superagente, empresário de Cristiano Ronaldo durante praticamente toda a carreira. Uma ponte que lamenta que não se tenha mantido, para ajudar a realizar o sonho que partilha com o filho: conhecer Cristiano Ronaldo. “Era o que eu mais gostaria. Cresci com o Jorge Mendes, passámos muitas horas a jogar à bola. Mas nunca tive a oportunidade de conhecer o Ronaldo. O meu filho às vezes pede-me, quando há jogos da Seleção. ‘Pai, anda, quero vê-lo ao vivo’. Nunca tivemos essa oportunidade, mas claro que gostava de conhecê-lo. E com certeza que o meu filho mais do que eu”, admite.

Não vê o original mas vê o preferido, o seu filho. “Sinto que ele está no caminho certo. Tem humildade e tem a família acima de tudo. A gente não é nada sem família”. Quanto ao nome, por mais que o ouça por todo o lado, garante: “Nunca me fartei do nome e não vou fartar. Nunca me vou fartar. Nunca”.

Cristiano Ronaldo Araújo Tavares. O Ronaldo que foi contratado pelos “colegas”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quem és tu, Cristiano Ronaldo?

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Nome: Cristiano Ronaldo Araújo Tavares
Idade: 17 anos
Clube: AREPA, Associação Recreativa do Porto Alto
Posição: Extremo ou Ponta-de-Lança
Jogador favorito: Cristiano Ronaldo e Vinícius Jr.
Golo favorito do CR7: Remate do meio-campo contra o FC Porto, 2009
Melhor memória do CR7: Golo de livre contra Espanha, Mundial 2018
O que tem parecido com CR7: A pedalada
Se pudesse ter uma coisa da vida do CR7: Dinheiro para ajudar a família

O dia 6 de agosto de 2003 vai ficar para sempre na história do Sporting. Foi nesse dia que os leões deram oficialmente o pontapé de saída para o século XXI, com a inauguração do novo Estádio José Alvalade. O pano foi levantado (ou, neste caso, descerrado), a festa foi bonita e o jogo até foi ganho com estilo, com uma vitória por 3-1 frente ao Manchester United. Porém, nenhuma dessas coisas acabou por ser a mais marcante desse dia. O que fica da memória do dia 6 de agosto de 2003 é o vendaval Cristiano Ronaldo, que mesmo sem marcar fez uma exibição individual tremenda que o pôs nas bocas do mundo. Até mesmo dos adversários. Reza a lenda que, no voo de regresso a Manchester depois do mítico jogo, alguns elementos do plantel dos red devils quase suplicaram a Sir Alex Ferguson para contratarem aquele menino de 18 anos. E assim fez. O United pagou 15 milhões de euros ao Sporting e o resto é história. E por falar em história… esta começa quase da mesma forma.

Cristiano Ronaldo Araújo Tavares tem 17 anos e mudou de clube há apenas umas semanas. A jogar no Clube Futebol Benfica e a viver nesse bairro de Lisboa, mudou-se para Porto Alto, no concelho de Benavente, a 50 kms de distância. E porquê? Porque os novos colegas viram-no jogar, gostaram do que viram, e pediram a transferência ao treinador. O “Sir Alex” da AREPA – Associação Recreativa do Porto Alto – concordou e assim começou a relação. “Foram os colegas que o trouxeram. Já o conheciam de Lisboa e como nós também precisávamos de um avançado, fomos vê-lo. Gostámos e acabou por ficar”, explica o adjunto Abílio Santos.

E lá ficou Ronaldo na AREPA. Mas com mudança de posição, atenção! “Ele apareceu aqui como ponta de lança. Eu gosto mais de o ver a extremo esquerdo do que a ponta, por causa das caraterísticas dele. Ainda este sábado jogou a extremo esquerdo e foi dos melhores jogadores em campo, fez duas assistências”. Cristiano concorda. “No primeiro jogo joguei 70′, fui titular. Mas depois saí porque não estava a jogar bem. Estava nervoso, era o primeiro jogo. E eu também não conheço bem as equipas, porque é outro campeonato. O segundo jogo já foi melhor, fiz duas assistências e ganhámos 3-1″.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Talvez para isso tenha ajudado o intenso estudo que Ronaldo faz de Ronaldo. Nas horas em que não está a jogar, o pequeno Cristiano Tavares costuma ocupar o tempo a ver o ídolo maior, seja em direto ou com a ajuda do YouTube. “Passo o tempo a vê-lo. Assim que chego a casa é logo: pego em comida e sento-me a ver jogos e vídeos dele”. Este Cristiano passa horas a fio a ver vídeos do jogador preferido, mas ao contrário do anterior não descobriu a importância do seu nome através da internet. Neste caso foi logo de pequenino e sempre com a identificação pronta. “Na escola, chamavam-me sempre Cristiano Ronaldo, a toda a hora. Até porque eu passava o tempo a jogar à bola. Na primeira chamada, a professora brincou ‘Olha, temos aqui connosco o Cristiano Ronaldo’. Mas as pessoas ficam à toa, não acreditam. Até por causa da minha cor. Um Cristiano Ronaldo negro? Às vezes tenho de mostrar o Cartão do Cidadão”, conta Cristiano Ronaldo Araújo Tavares.

Mas nem sempre o Cartão do Cidadão diz tudo. Para além da nacionalidade portuguesa, “Cris” tem ascendência cabo-verdiana. Só foi lá uma vez, mas, tal como o Ronaldo madeirense, foi suficiente para que não esquecesse a família na epopeia futebolística. “Eu só queria ajudar a minha família. Tenho familiares em Cabo Verde, por exemplo. Eu nasci cá e só fui lá uma vez mas foi suficiente para ver que eles passam dificuldades. Não são muitas, mas passam. Aqui, em Portugal, eu, os meus pais e os meus irmãos também já passámos por algumas. Eu tenho muitos irmãos, são oito. Éramos 11 dentro de uma casa. Entretanto, cada um foi seguindo a sua vida. Um dos meus irmãos já tem filhos, já tem uma casa. Uma das minhas irmãs emigrou para a Irlanda. Por causa disso estamos melhor. Mas eu não passei por aquilo que ele passou”, diz Cristiano.

"O Cristiano Ronaldo tinha de ser melhor do mundo e pronto, estava destinado. O meu destino? Eu gostava que fosse ser o melhor do mundo também... até podia ser só uma vez. Mas na verdade, eu quero só mesmo ajudar a minha família."
Cristiano Ronaldo Araújo Tavares

A família é a grande motivação de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Nunca o escondeu no campo. Não o escondeu quando recebeu em lágrimas a segunda Bola de Ouro da carreira. Não o escondeu quando também em lágrimas viu um vídeo inédito do pai, numa entrevista com Piers Morgan. Também os pequenos Cristianos Ronaldos tiveram a família na ponta da língua em todas as entrevistas. Futebolisticamente, não sabemos onde estarão daqui a dez anos, quando CR7 fizer 50 anos de idade e todos eles estiverem no “pico da carreira”. Mas os sonhos, esses, vão estar sempre presentes no nome que levam nas costas. “O Cristiano Ronaldo tinha de ser melhor do mundo e pronto, estava destinado. O meu destino? Eu gostava que fosse ser o melhor do mundo também… Até podia ser só uma vez. Mas na verdade, eu quero só mesmo ajudar a minha família”.

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