Quando assumiu o comando do Manchester United depois da tentativa de adiar esse passo mais uns meses, Ruben Amorim poderia olhar para os red devils como uma equipa na fase de adolescência. A reputação não era colocada em causa, os resultados no passado falavam por si, a legião de fãs foi aumentando cada vez mais pela influência dos projetos de Sir Alex Ferguson, agora encontrava-se num momento de maior desvario com atenção difusa para tudo menos o essencial. Quase três meses depois, afinal, a fatura das constantes apostas falhadas era bem mais pesada. A adolescência, na verdade, mais parecia um par de anos. Por cada passo que a formação conseguia dar em frente, seguia-se um a cambalear para ao lado e mais um ou dois para trás. Até mesmo quando parecia que essa parte estava de vez aprendida, um, dois, três passos e… novo tombo.

Uma derrota onde Amorim perdeu bem mais do que três pontos: United cai com o Crystal Palace e fica sem Lisandro

Mais do que o resultado em si, a derrota caseira com o Crystal Palace e a própria incapacidade revelada para reagir à adversidade depois de algumas oportunidades falhadas que podiam mudar o cariz do encontro eram tudo menos o que o United e o próprio Amorim necessitavam – sendo que a isso ainda se juntou a grave Lesão de Lisandro Martínez, o novo “discípulo” que a par de Amad Diallo e Bruno Fernandes melhor foi aprendendo e assumindo a doutrina implementada pelo português. Pela primeira vez o antigo treinador do Sporting somou três vitórias consecutivas, pela quinta vez nos últimos jogos perdeu em pleno Old Trafford. Dentro de todos os problemas que a falta de tempo também impede que se resolvam, o United ganhara um problema extra: o Teatro dos Sonhos, um dos palcos mais temidos em Inglaterra, tornou-se permeável.

Seguia-se mais um jogo em casa, desta vez ainda com menos margem de erro por ser da Taça de Inglaterra, com a curiosidade de estar do outro lado o nome que levou à primeira decisão de Amorim no United: não ter na sua equipa técnica Ruud van Nistelrooy, que comandou de forma interina a equipa depois da saída de Erik ten Hag. “O mais importante para um treinador é ter uma equipa que compreenda a forma como quer jogar, os padrões que tem. Ele foi uma lenda neste clube, sabe o que é preciso para ganhar mas prefiro trabalhar com a equipa que me trouxe aqui. É evidente que isso é importante para eu perceber as minhas ideias, para explicar o mesmo aos jogadores. Sei como ganhar, independentemente do clube. Claro que estamos a perder, nestes momentos é preciso ter experiência, mas não estou perdido nem sinto falta de algo na equipa. Só precisamos de melhorar como equipa”, comentou o treinador português na antecâmara da partida.

Em paralelo com o jogo em Old Trafford, que abria a quarta eliminatória da FA Cup, Ruben Amorim abordou o momento do Manchester United e o mercado muito modesto em janeiro apenas com a chegada de Patrick Dorgu do Lecce e do jovem Ayden Heaven do Arsenal. “O que sinto é que o clube está a levar o seu tempo. Sabemos a urgência do momento da equipa e toda a gente aqui não quer cometer os mesmos erros do passado. No verão, veremos, mas como disse, estamos a ter muito cuidado, porque cometemos algum erros no passado. Se o meu cargo está em risco se os resultados não melhorarem? Quando escolhi esta profissão, sabia os riscos dos resultados. Quando vim para aqui, vi o calendário, vi a equipa e sabia que a minha decisão de mudar tudo a meio da época, sem reforços, seria um risco para o treinador. Tenho uma ideia clara daquilo que quero e corro estes riscos porque, no final, vão compensar. Mas não sou ingénuo, já disse muitas vezes que este é um desporto de resultados e nós estamos numa situação difícil”, salientou.

“Acho que é um pouco mais difícil para mim do que para a Direção, porque a Direção já sabe. Expliquei todos os riscos. Expliquei tudo o que aconteceu à Direção, eles disseram o mesmo. Temos de começar agora. Estamos a fazer isso mas compreendo que, neste momento, com muitas derrotas, especialmente em casa, o ambiente é muito difícil. Sinto o apoio da Direção e não estou minimamente preocupado, só a dor da derrota é que é a coisa mais difícil de lidar. Isto vai ser assim, muito duro, até ao final da época. Estamos a correr riscos e queremos coisas diferentes na equipa. Quero melhorar jogadores e quero um certo tipo de jogadores com um perfil diferente, estamos a mudar isso no imediato”, acrescentou o técnico português, que entre esse lançamento da partida foi muito questionado sobre a saída de Marcus Rashford. A partir daí, em Old Trafford, a “luta” era entre o antecessor (interino) e o sucessor, com os aplausos a Ruud Van Nistelrooy a mostrarem como o antigo avançado neerlandês ainda goza de muito crédito entre os adeptos dos red devils.

Os 200 milhões do City, Rashford longe de Old Trafford e João Félix novamente à procura da felicidade: como foi o mercado lá fora

Acabado de chegar a Inglaterra, Patrick Dorgu foi titular logo na estreia num onze com poucas ou nenhumas alterações a não ser a troca de posições entre jogadores: o reforço ex-Lecce começou na ala direita, Mazraoui passou na central do lado esquerdo em vez do lesionado Lisandro Martínez, Mainoo foi trocando de posição com Bruno Fernandes para a entrada de Höjlund no lugar de Garnacho. Amorim queria demonstrar que há uma base a ser feita e trabalhada para melhorar a situação mas a primeira parte voltou a deixar a desejar nesse capítulo. Aliás, isso e todo o jogo: muito disputado, algumas vezes mal jogado, com oportunidades que nasciam de bola parada ou em remates de meia distância. O intervalo parecia destinado a chegar com o nulo mas um golpe de sorte acabou por inverter essa tendência: Ndidi rematou em zona frontal, a defesa de Onana saiu para a frente e Bobby De Cordova-Reid, de passagem pela pequena área, encostou para o 1-0 (42′).

Logo ao intervalo, Ruben Amorim trocou Dorgu por Garnacho para revitalizar o flanco esquerdo. Não houve um impacto imediato mas, aos poucos, o encontro foi entrando numa zona onde poderia dar empate ou cair de vez para os visitantes. Aí, nessa fase mais “partida”, imperou a lei do argentino, primeiro a ver um remate após assistência de Bruno Fernandes ser desviado por Okoli para a trave (64′) e depois a estar na jogada do 1-1 marcado numa recarga na área por Zirkzee (67′). Garnacho voltaria a ficar perto do golo em dois lances, com um remate às malhas laterais (78′) e outro à figura de Mads Hermansen (88′) mas a reviravolta estava a chegar, com Bruno Fernandes a marcar um livre lateral do lado esquerdo com um corte fantástico na bola que encontrou Harry Maguire, a desviar de cabeça ao segundo poste para o 2-1 final num lance que, após algumas repetições, colocou o central em posição irregular… sem VAR (90+3′).