O Presidente dos EUA Donald Trump assinou esta sexta-feira uma ordem executiva para pôr fim à assistência financeira à África do Sul, acusando o governo do país de “discriminação racial injusta” contra os africânderes. Além disso, o chefe de Estado dispõe-se também a oferecer asilo a esta minoria étnica branca.

Num documento intitulado “Addressing Egregious Actions of The Republic of South Africa” (“Abordagem às Ações Irresponsáveis da República da África do Sul”), Trump critica uma lei recentemente promulgada pelo governo sul-africano que permite o expropriação de terrenos, disponibilizando poucas ou nenhumas compensações em alguns casos.

Para os EUA, esta medida serve para atacar “minorias étnicas africânderes”, fazendo parte de uma campanha de “ódio e de ações governamentais que alimentam uma violência desproporcionada contra proprietários de terras racialmente desfavorecidos”.

Trump também critica posição da África do Sul em relação a Israel

Além disso, Trump critica o papel da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça ao ser o país a acusar Israel por genocídio na Faixa de Gaza nesta instância legal.

“A África do Sul tomou posições agressivas em relação aos Estados Unidos e aos seus aliados, incluindo a acusação de genocídio a Israel, e não ao Hamas, no Tribunal Internacional de Justiça, e o reforço das suas relações com o Irão para desenvolver acordos comerciais, militares e nucleares”, lê-se.

Sob estes pressupostos, Trump não só ordena que, doravante, “Estados Unidos não prestarão ajuda ou assistência à África do Sul”, como insta ainda que se promova “a reinstalação dos refugiados africânderes que escapam à discriminação racial patrocinada pelo governo, incluindo a confiscação de propriedades com base na discriminação racial”.

[Terapia de Casal é o podcast que pode acabar com o casamento do Guilherme Fonseca e da Rita da Nova. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível nas plataformas de podcast.]

Apesar de serem uma minoria étnica na África do Sul, os africânderes não só foram o grupo que governou o país sob a segregação do apartheid, como continua a ser a comunidade que mais concentra terrenos e riqueza no território, como recorda o The Guardian.

Um dos atuais braços-direitos de Donald Trump, o magnata Elon Musk, é um cidadão sul-africano de origem branca que tem criticado frequentemente as “políticas abertamente racistas” do seu país natal.

A Pretória já reagiu, com o governo sul-africano a publicar um comunicado a tomar nota da ordem executiva de Trump, considerando “muito preocupante que a premissa fundamental desta ordem careça de exatidão factual e não reconheça a profunda e dolorosa história de colonialismo e apartheid da África do Sul”.

O executivo de Cyril Ramaphosa — Presidente da África do Sul desde 2018 —, diz-se também preocupado “com o que parece ser uma campanha de desinformação e propaganda destinada a deturpar” a imagem do país.

É dececionante constatar que tais narrativas parecem ter encontrado um lugar de destaque entre os decisores políticos dos Estados Unidos da América”, continua o texto.

Quanto à questão do governo dos EUA oferecer-se para acolher asilados africânderes, a nota afirma ser “irónico que a ordem executiva preveja o estatuto de refugiado nos EUA para um grupo na África do Sul que continua a ser um dos mais privilegiados economicamente, enquanto pessoas vulneráveis de outras partes do mundo estão a ser deportadas e a ser-lhes negado asilo, apesar de terem dificuldades reais”.

Segundo o The Guardian, porém, esta iniciativa de Trump pode vir a prejudicar o mesmo grupo que alega defender, já que têm sido vários os grupos de lobbying de africânderes a temer que o fim da ajuda dos EUA tenha impacto económico nas suas atividades. Em concreto, temem a não renovação no Congresso dos EUA de legislação que permite aos exportadores sul-africanos, incluindo os agricultores, vender milhares de produtos aos EUA com isenção de direitos aduaneiros (tarifas).