“Eles querem um lugar na mesa, mas poderíamos dizer … o povo da Ucrânia não teria uma palavra a dizer? Já foi há muito tempo que tiveram uma eleição”. As palavras, proferidas esta terça-feira, em Miami, são do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e vieram reavivar uma discussão adormecida mas muito querida a Putin: deveria a Ucrânia realizar eleições, uma vez que o mandato do atual presidente, Volodymyr Zelensky, terminou em maio de 2024?
Com a popularidade do chefe de estado ucraniano em queda nas últimas sondagens — e depois da reunião entre EUA e Rússia na Arábia Saudita — Donald Trump defendeu a realização de eleições na Ucrânia, sugerindo que a presença de Kiev à mesa negocial dependeria de um futuro escrutínio eleitoral. O que Trump não disse, propositadamente ou por desconhecimento, é que a Constituição ucraniana impede a realização de eleições durante a vigência da lei marcial — que tem sido sucessivamente renovada desde a invasão russa, em fevereiro de 2022.
Mesmo que fosse levantada a lei marcial, a realização de eleições neste contexto seria sempre difícil: um terço da população (quase 15 milhões de ucranianos) vive no estrangeiro ou está deslocada no interior do seu país, enquanto centenas de milhares de soldados combatem na linha da frente ou estão deslocados em missão. Mais: cerca de um quinto do território (a leste e também a sul) está ocupado pela Rússia, o que inviabilizaria que os ucranianos que vivem sob ocupação se pronunciassem sobre os destinos do país.
▲ A Constituição da Ucrânia proíbe a realização de eleições durante a lei marcial
Corbis via Getty Images
Por todas estas razões, a realização de eleições com a guerra a decorrer é um cenário improvável. No entanto, as palavras de Trump voltaram a colocar os holofotes sobre o tema. O que parece mais certo é que haverá eleições após o final da guerra, ou, pelo menos, depois da assinatura de um acordo de cessar-fogo entre a Ucrânia e a Rússia. Nesse cenário, há vários nomes apontados à sucessão de Zelensky no Palácio Mariyinsky, a residência oficial dos chefes de estado ucranianos, segundo o jornal britânico The Telegraph.
Valery Zaluzhnyi
É um dos responsáveis mais adorados pelos ucranianos e, mesmo depois de ter enveredado pela carreira diplomática, continua com altas taxas de aprovação. Segundo uma sondagem recente, recolhe mais intenções de voto do que o próprio presidente Zelensky.
O “general de ferro” Valery Zaluzhnyi liderou a defesa de Kiev no início da guerra, em 2022, ajudando a impedir que as forças russas tomassem a capital. Foi também o responsável pelas estratégias que permitiram a recuperação do território ocupado pela Rússia nas regiões de Kharkiv e Kherson. Já antes tinha modernizado as forças armadas, afastando-as do legado russo, e aproximando-as da NATO.
A carreira militar de Zaluzhnyi iniciou-se em 2007, quando foi nomeado para Chefe do Estado-Maior do Exército. Em 2021, foi nomeado por Zelensky para o mais alto cargo da hierarquia militar: Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, cargo que ocupou até 2024, quando o Presidente ucraniano o enviou para o Reino Unido como embaixador. Embora a razão oficial da substituição à frente da cúpula militar tivesse sido um desacordo sobre a estratégia operacional, alguns observadores suspeitam que a nomeação para um cargo diplomático tenha sido uma forma de Zelensky retirar Zaluzhnyi do foco mediático, temendo eventuais aspirações políticas do general.
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Petro Poroshenko
Os ucranianos conhecem bem Petro Poroshenko, ex-Presidente do país, entre 2014 e 2019. Foi eleito na sequência dos protestos que derrubaram, em 2014, o presidente Viktor Yanukovych, alinhado com os interesses russos. Conhecido como “o Rei do Chocolate”, por ter feito fortuna à custa dos chocolates Roshen (os mais vendidos na Ucrânia), poderá ser um dos candidatos à sucessão de Zelensky.
O seu partido, o Solidariedade Europeia, ocupa atualmente 27 de 450 lugares do parlamento ucraniano. Apesar de já ter demonstrado apoio ao Presidente ucraniano na luta contra as forças russas, Poroshenko tem algumas divergências com Zelensky. O ex-Chefe de Estado tem criticado a instauração de dezenas de processos judiciais contra si, por causa das transações comerciais das suas empresas, sugerindo que essas acusações são politicamente motivadas.
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Se for eleito, é provável que governe na linha estratégica que tem sido seguida pelo atual Presidente, ou seja, de afastar a Ucrânia da órbita da Rússia. Poroshenko, que faz visitas regulares aos soldados ucranianos na linha da frente, disse, em abril do ano passado, que planeia concorrer na próximas eleições presidenciais, mas apenas quando a guerra com a Rússia terminar.
Yulia Tymoshenko
Uma das crónicas candidatadas ao cargo é a ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Ganhou protagonismo e embalo mediático em 2004, quando liderou a chamada Revolução Laranja, um conjunto de protestos que eclodiram por todo o país, contra a alegada fraude nas eleições presidenciais desse ano, ganhas pelo candidato pró-russo Viktor Yanukovich.
Primeira-ministra por duas ocasiões (em 2005, e, novamente, entre 2007 e 2020), acabou condenada a sete anos de prisão por um alegado crime de abuso do cargo aquando da assinatura de um acordo de fornecimento de gás — acusações que sempre disse terem sido orquestradas por rivais pró-Kremlin. Acabou por ser libertada após os protestos de 2014 e desde então disputou eleições como líder do partido pró-Pátria Europeia.
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Faz parte da linha dura anti-Kremlin, tendo defendido, há dois anos, que a guerra contra a Rússia só poderia terminar com a derrota das tropas de Moscovo no campo de batalha. Acusou ainda Putin de ser “absolutamente frio e cruel” e de querer recriar a antiga União Soviética. Questionada pela revista The Economist em setembro de 2024 sobre a perspetiva da existência de uma eleição presidencial na Ucrânia num futuro próximo, Tymoshenko disse que “o processo político definitivamente começou”.
Vitali Klitschko
A correr por fora parece estar outro político popular na Ucrânia, o presidente da Câmara de Kiev, Vitali Klitschko. Com uma estatura física robusta, o ex-campeão de boxe (um dos mais bem-sucedidos do mundo) tornou-se um símbolo da resistência ucraniana quando, em 2022, deixou o gabinete da Câmara (que ocupa há já dez anos) para se juntar às forças de defesa territorial da cidade, impedindo a tomada da capital por parte da Rússia.
É público que é um aliado do ex-presidente Petro Poroshenko, pelo que não deverá concorrer se Poroshenko o fizer.
Kyrylo Budanov
Mais discreto, também por força do cargo que ocupa, é Kyrylo Budanov. O atual chefe do serviço de inteligência militar da Ucrânia, é conhecido por orquestrar duros golpes nas forças russas e no capacidade logística do inimigo em território russo. Apesar dos parcos recursos, os serviços secretos militares da Ucrânia têm tido capacidade de inutilizar importantes infraestruturas na Rússia, nomeadamente energéticas, mas também depósitos de combustível ou munições.
Há relatos de que o Kremlin já o terá tentado matar pelo menos dez vezes, sempre sem sucesso.
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Viktor Medvedchuk
Do lado oposto da barricada, é quase certo que haverá pelo menos um candidato. Um dos mais referidos é oligarca Viktor Medvedchuk, muito próximo de Vladimir Putin, tanto que o líder russo até se tornou padrinho de sua filha mais nova. Circula a teoria de que Medvedchuk foi uma das razões pelas quais Putin decidiu invadir o país vizinho. Isto porque, em 2021, o oligarca foi preso, por suspeitas de apoiar separatistas russos — as estações de TV das quais era proprietário foram encerradas alegadamente por difundirem propaganda pró-russa.
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A detenção de Medvedchuk enfureceu Putin, que pretendia colocá-lo no poder em Kiev, caso as forças russas tivessem conseguido tomar a capital e afastar Zelensky no início da invasão. Tal não aconteceu e Medvedchuk acabou na Rússia, usado como moeda de troca de prisioneiros. O Presidente russo aceitou libertar vários mercenários estrangeiros, que combatiam ao lado das forças ucranianas, em troca do amigo.
Entretanto, a cidadania ucraniana de Medvedchuk foi revogada, o que, em princípio, inviabiliza a candidatura. No entanto, num eventual acordo de paz, Putin poderá exigir que o seu aliado seja aceite como candidato numas futuras presidenciais.