Foi o primeiro dia do julgamento que coloca França de frente para o maior caso de pedofilia da história jurídica do país. Durante mais de duas décadas — anos 90 e 2000 — Joël Le Scouarnec, um médico, especialista em cirurgia digestiva e visceral, abusou sexualmente de 299 crianças em ambiente hospitalar. O ex-cirurgião começou a ser julgado esta segunda-feira no Tribunal Penal de Morbihan, em Vannes, no noroeste francês, e prevê-se que o processo se prolongue por mais de três meses.
Segundo descreve a BMFTV, em reportagem no local, o homem de 75 anos, vestido com um casaco preto, tomou o seu lugar no banco dos réus, por volta das 13h00 (12h00 em Lisboa), e proferiu o seu nome com uma voz rouca. “Tentei durante os meus interrogatórios reconhecer o que eram atos de violação e agressão sexual, mas também esclarecer o que, aos meus olhos, não eram“, afirmou, já no final do primeiro dia de seu julgamento, quando chegou a sua vez de tomar a palavra.
“Estou perfeitamente ciente hoje de que essas feridas são indeléveis, irreparáveis, de que não posso voltar atrás. E devo isso a mim mesmo, não… Não a mim mesmo. Devo isso a eles, a todas essas pessoas, aos seus entes queridos, assumir a responsabilidade pelas minhas ações e pelas consequências que eles podem ter tido e que terão ao longo das suas vidas”, declarou Joël Le Scouarnec, citado pela France Info. Admitindo também “Fiz coisas horríveis”,
Antes disso, já o seu advogado tinha declarado que o acusado reconhecia a “responsabilidade pela grande maioria dos factos” pelos quais está acusado, após a constituição das partes civis, na audiência que começou ao final da manhã. “Em caso algum o Sr. Le Scouarnec está a tentar fugir de suas responsabilidades ou a esconder-se atrás de ordens [profissionais]”, acrescentou o advogado.
A justificação surge depois de algumas das partes civis que vão integrar o processo em tribunal — profissionais de saúde e administrações hospitalares — terem sido contestadas pelo Conselho Nacional da Ordem dos Médicos francês e pelo Conselho Departamental da Ordem dos Médicos de Morbihan.
Foram encontradas 300 mil imagens de abuso infantil e bonecas sexuais do tamanho de crianças na casa do antigo médico
A grande maioria das vítimas do médico francês — cuja idade média ao tempo dos factos rondava os 11 anos — eram pacientes que estava a tratar. O profissional de saúde aproveitava-se das anestesias a que as crianças eram sujeitas para cometer muitos dos abusos. Outras vezes, camuflava-os através de atos que dizia serem médicos, chegou mesmo a fazê-lo com a presença de outros profissionais de saúde e até dos próprios pais das vítimas no mesmo espaço.
O homem, que atualmente tem 75 anos, está preso desde 2020. Foi condenado a 15 anos de prisão pelos crimes de violação e abuso sexual das duas sobrinhas, a vizinha e outra menina com quem contactou em meio hospitalar, pouco antes de se ter reformado. Foi a denúncia da vizinha, de apenas 9 anos, que fez com que as autoridades avançassem para buscas na sua residência: o que a polícia francesa descobriu fez com que fosse imediatamente detido.
Na casa onde habitava desde que se tinha reformado, Le Scouarnec acumulava 300 mil imagens de abuso infantil e bonecas sexuais do tamanho de crianças. A polícia encontrou brinquedos sexuais amarrados a estas bonecas e ainda dezenas de diários onde o médico anotou, ao longo dos anos, as centenas, senão milhares de abusos que ia cometendo. O médico demonstrava até orgulho em ser pedófilo, escrevendo esta afirmação repetidamente, e, sobretudo, mostrava agrado em continuar a repetir os atos sem nunca ser apanhado.
Estes cadernos, em que muitos colegas o viram a escrever ao longo dos anos pelos corredores dos hospitais, e que eram percecionados como meio de registar notas médicas, serviam afinal de diário para as atrocidades cometidas contra as crianças a quem prestava assistência médica. Através do cruzamento dos mesmos com os registos hospitalares, e uma vez que o médico apontava as iniciais do nome de cada uma das vítimas, foi possível identificar as cerca de 300 crianças e jovens abusadas — hoje todas adultas.
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Mais de 400 jornalistas a cobrir o julgamento na cidade francesa de Vannes. Algumas vítimas vão testemunhar em tribunal nas próximas semanas
Devido às quase três centenas de vítimas, às quais se somam familiares, equipas de advogados, especialistas nas mais diversas áreas relacionadas com pedofilia e crimes sexuais e ainda toda a comunicação social que está a cobrir o caso, foram disponibilizadas três salas de aula de um antigo prédio universitário da faculdade de Direito que fica a poucos metros do Tribunal Penal de Morbihan.
Nas salas foram instalados televisores para permitir que o público e a imprensa em particular acompanhem o julgamento. Estão previstos 75 dias de audiências, com 45 testemunhas e dez especialistas convocados para comparecer em tribunal.
“Até à data, foram acreditados 467 jornalistas e cartoonistas de imprensa [não é permitida captação de imagem em tribunal], representando cerca de 110 meios de comunicação social, incluindo 40 meios de comunicação social estrangeiros”, escreveu na manhã desta segunda-feira, no X, a jornalista do France Info, Juliette Campion, que partilhou imagens dos espaços já preparados para o arranque do julgamento.
Voici la salle dédiée à la presse???????? pic.twitter.com/YiKBp0UYmT
— Juliette Campion (@JulietteCampion) February 24, 2025
Antes da abertura da audiência, muitas organizações sindicais, feministas e de proteção à criança reuniram-se em frente ao tribunal judicial de Vannes, assinalou a mesma jornalista.
"L’inceste et la pédocriminalité sont des crimes qui tuent en laissant en vie", déplore cette jeune femme. pic.twitter.com/dt12hYBq2g
— Juliette Campion (@JulietteCampion) February 24, 2025
Espera-se que ao longo das várias semanas de julgamento, dezenas de vítimas deixem o seu testemunho em tribunal. Muitas delas só descobriram que foram abusadas quando a própria polícia francesa lhes comunicou os relatos dos diários do antigo médico.
O julgamento será retomado na terça-feira, às 13h00, hora local, (12h00 em Lisboa) e a sessão em tribunal irá contar com os depoimentos dos três filhos de Joël Le Scouarnec e de sua ex-mulher, com quem já não estava casado ao tempo da sua detenção, em 2017.