O Millennium BCP fechou o ano de 2024 com lucros de 906,4 milhões de euros, mais 5,9% do que no exercício anterior. São os lucros mais elevados de sempre para o maior banco privado português – e, para já, o único cotado na bolsa de Lisboa. E, numa altura em que foi noticiado que o Novo Banco está a preparar uma venda de parte do capital, possivelmente em bolsa, Miguel Maya repete que “não está na corrida” pela compra do Novo Banco embora tenha “obrigação de analisar qualquer operação que venha ao mercado”. E fazem sentido as avaliações de casas de investimento que dizem que o Novo Banco vale cinco mil milhões? “Se vale isso, fico entusiasmado com o que pode valer o BCP“, disse Miguel Maya.

Os resultados foram revelados pelo Millennium BCP em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e apresentados em conferência de imprensa na sede do banco no Tagus Park, em Oeiras. No ano anterior, o banco tinha tido resultados líquidos de 856 milhões. Do total dos resultados de 2024, 786,4 milhões dizem respeito à atividade em Portugal, operação principal onde os lucros subiram 8,5%, ainda a beneficiar do aumento da margem financeira – a diferença entre os juros cobrados nos créditos e os juros que o banco paga para se financiar (sobretudo os juros pagos nos depósitos). A margem financeira cresceu ligeiramente, 0,2%, para 2.830,9 milhões de euros.

Em conferência de imprensa, o presidente da comissão executiva considerou os resultados “bons”, “não excecionais”, e são “produto do trabalho de vários anos e não de apenas um ano”, numa alusão ao processo de reestruturação da operação e do balanço que o banco teve nos últimos anos, em particular desde 2016. Já Nuno Amado, presidente do conselho de administração, considerou que o banco não tem “excesso de resultados” quando se analisa o que aconteceu no banco desde 2012.

“Não temos excesso de resultados, temos é excesso de requisitos de capital – a base de capital é um número muitíssimo maior”, argumentou Nuno Amado, reconhecendo que depois destes resultados o banco está no “novo ciclo” que passa por “investir e crescer“.

Não estamos em qualquer ‘corrida pelo Novo Banco’, diz Miguel Maya

Esta apresentação de resultados do BCP surge numa altura em que o Novo Banco manifesta publicamente estar a preparar uma operação de venda de parte de capital (30%) em bolsa. Em simultâneo, tem sido noticiado que pode haver outros bancos que podem estar interessados em comprar a instituição – desde a Caixa Geral de Depósitos até ao BCP, passando pelo BPI (Caixabank) e pelo Santander.

Questionado sobre esse tema na conferência de imprensa, Miguel Maya respondeu que é conhecida a intenção do acionista do Novo Banco (o fundo Lone Star) de vender parte do capital: “acompanhamos as notícias, não temos nada a acrescentar face àquilo que temos dito”. E o que tem sido dito é que “o crescimento do BCP é por via do crescimento orgânico”.

“Não estamos em nenhuma corrida pelo Novo Banco, não precisamos de nenhuma aquisição”, sublinhou Miguel Maya. Porém, acrescentou: “temos uma obrigação de analisar todas as operações que vão ao mercado e que possam criar valor para os acionistas”. Se o Novo Banco for para a bolsa, frisou, “será muito bem-vindo”, já que “é melhor estar acompanhado do que sozinho”, afirmou o presidente do BCP, que é o único banco cotado na bolsa de Lisboa.

Sobre as avaliações que têm sido divulgadas sobre o Novo Banco, que estimam o valor do banco em cerca de cinco mil milhões de euros, Miguel Maya diz que fica “muito contente”: “Se [o Novo Banco] vale esse valor fico ainda mais entusiasmado sobre o que pode valer o BCP“.

BCP já concedeu crédito com garantia pública a 461 jovens

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O Millennium BCP já concedeu crédito com garantia pública a 461 jovens. Esse é o número de processos em fase final de contratação ou já contratados, o equivalente a 88 milhões de euros, disse Miguel Maya.

Já houve 3.250 solicitações e destas cerca de 1.600 propostas estão em curso. E destas 1.600, 461 propostas já estão em fase final de contratação ou contratadas.

O BCP “tem plafond disponível e estamos interessados que os jovens venham ao banco” perguntar sobre este mecanismo, afirmou o presidente do banco.

Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, disse que gostaria de ver mais bancos cotados em bolsa. Miguel Maya não quis fazer comentários sobre a recondução (ou não) de Centeno: “Era o que faltava, enquanto entidade supervisionada, o BCP fazer comentários sobre se o governador deve ser reconduzido”. “Temos uma relação muito positiva com o Banco de Portugal, e o governador tem tido um contributo para a melhoria da estabilidade financeira”.

Depois de Centeno ter dado a entender que uma fusão com a Caixa Geral de Depósitos teria consequências “sistémicas”, Miguel Maya sublinhou que “o senhor governador tem uma visão mais completa, é bom ouvir o senhor governador”. “Não conheço os argumentos mas reconheço que o sr governador para fazer essa informação estará suportado em dados que não são do nosso conhecimento, pelo que terá razão”, afirmou o presidente da comissão executiva do BCP.

Mais 4,8% em comissões mas custos sobem 12,4%

O banco cobrou mais 4,8% em comissões, para 808,5 milhões de euros, o que Miguel Maya justifica com o “aumento da base de clientes” e o aumento do número de clientes que “usam o BCP como o seu banco principal”. Já os custos operacionais aumentaram 12,4% neste exercício, para cerca de 1.307 milhões – os custos com pessoal aumentaram 14,3% (10,4% em Portugal), “refletindo o contexto em que o banco trabalha e os desafios que tem nas diferentes geografias” e a “necessidade de reter quadros decisivos dentro do banco”, disse Miguel Maya.

Em resultado deste lucro, a comissão executiva vai propor a distribuição de um dividendo acionista de 450 milhões de euros, bem como um programa de recompra de ações no valor de 200 milhões – outra forma que o banco tem de valorizar os acionistas já que, ao recomprar as ações, retira ações de circulação e contribui para sustentar o seu valor. Os rácios de capital, mesmo depois destas iniciativas, são “muito, muito sólidos” na ordem dos 16,3% (core tier 1).

A operação polaca teve um lucro de 167,1 milhões apesar de essa operação ter reconhecido mais 750 milhões de euros em imparidades relacionadas com a carteira de créditos hipotecários em francos suíços, um problema que se arrasta há vários anos e que está relacionado com a concessão de créditos à habitação na Polónia com francos suíços – algo que aconteceu na primeira década do século. No ano anterior, a operação polaca tinha tido lucros de 133,7 milhões de euros.

O BCP também tem uma operação em Moçambique, o Banco BIM, que obteve um resultado líquido de 48,5 milhões em 2024, apesar do registo de provisões decorrentes do corte de rating da dívida pública moçambicana, associado à instabilidade política na sequência das recentes eleições. Ainda assim, os lucros do BIM caíram face aos 105,5 milhões do ano anterior.