“Sinto que acreditam em mim mas, ao mesmo tempo, sinto-me envergonhado porque, se olharmos para o nosso desempenho e virmos a nossa equipa por vezes em campo, é muito difícil para mim, como treinador, tirar muitos pontos positivos. Às vezes, estamos muito nervosos durante o jogo e isso nota-se nas pequenas coisas. A forma como nos movimentamos por vezes, a compreensão do jogo, especialmente em Old Trafford (…) Quando entro em casa não sou o Ruben Amorim treinador, sou o Ruben Amorim pai e tenho um trabalho a fazer. Eles não se importam com ganhar ou perder. Às vezes dizem-me que eu aqui não consigo ganhar jogos. O meu filho mais velho está sempre a dizer que em Portugal ganhávamos sempre…”

“A estrutura é horrível, nem nos Sub-9”, “Faz com que tudo seja mais difícil para si”: as críticas a Amorim entre a pior versão do United

Pouco mais de três meses depois, dificilmente Ruben Amorim poderia imaginar um cenário como aquele que enfrentou e continua a enfrentar no Manchester United. Na Premier League a posição não era boa, agora não está melhor. Na temporada o filme não era positivo, agora parece ainda mais complicado. No próprio clube os sinais eram preocupantes e estão longe de melhorar. No entanto, e em conversa com o antigo capitão e internacional inglês Rio Ferdinand, na TNT Sports, o caminho era apenas um: aguentar, trabalhar e aos poucos ir tentando reverter a situação sem nunca desistir. Era nesse contexto que chegava o encontro dos oitavos da Taça de Inglaterra frente ao Fulham, na sequência de uma sofrida vitória diante do Ipswich.

Afinal, parece que não há mal que sempre dure: Manchester United começa a perder, fica com 10, mas vence Ipswich

Quase a fazer adivinhar o pior cenário, a imprensa inglesa destacava que o United já não perdia para a Taça com o Fulham, orientado pelo português Marco Silva, desde a longínqua época de 1907/08, seguindo-se nove triunfos diante dos cottagers, o último em 2022/23. Agora, tudo era uma incógnita. Aliás, o próprio triunfo contra uma das equipas que ocupa os lugares de despromoção foi um exemplo paradigmático disso mesmo: os red devils entraram melhor mas sofreram mais um golo para os apanhados, deram a volta mas viram Patrick Dorgu ser expulso, consentiram o empate nos descontos da primeira parte e só garantiram os três pontos com um golo de Harry Maguire entre muito sofrimento. A equipa ganhou um balão de oxigénio.

Os tablóides britânicos traçam cenários pesados nos corredores de Old Trafford e da academia do clube, a ponto de haver quase uma sensação de “pânico” entre os funcionários perante a falta de resultados da equipa principal e os constantes cortes que o novo proprietário Jim Ratcliffe tem promovido no sentido de fazer uma reestruturação interna que permita dar condições para a redenção a breve prazo num clube que continua a ser o mais titulado em Inglaterra. Da parte do treinador português contratado ao Sporting em novembro, a prioridade continuava a ser apenas uma: equilibrar a sua equipa a todos os níveis, do físico ao mental passando pela confiança individual e coletiva, e criar uma série de sucessos que permita reabilitar uma época onde continuam em aberto objetivos como a Liga Europa… ou a Taça de Inglaterra.

“Críticas a Bruno Fernandes? O Bruno é muito importante para nós. Ele está a jogar bem num contexto difícil, quer ter sempre responsabilidade. Ele quer ganhar, às vezes é difícil lidar com a frustração. Nós conhecemos a situação. Estamos a mudar muita coisa na equipa e na academia. Estamos a preparar muitas coisas para a próxima época”, apontou Ruben Amorim na antecâmara da receção ao Fulham, onde revelou também o “castigo” a Alejandro Garnacho pela reação que teve depois de ser substituído frente ao Ipswich no último jogo: “Foi para o balneário trocar de roupa, porque estava molhado e viu o resto do jogo num sítio diferente do banco. Não há problema nenhum, ele é um jovem que vai aprender. O importante é que logo na manhã seguinte estava a falar comigo. Agora vai pagar um jantar a toda a equipa”.

Ainda com oito lesionados (Bayindir, Lisandro Martínez, Luke Shaw, Mainoo, Jonny Evans, Collyer, Mason Mount e Amad Diallo) e o castigo de Dorgu, Ruben Amorim fez apenas duas alterações na equipa inicial em relação às opções iniciais que defrontaram o Ipswich, com as saídas de Dorgu e de Garnacho para as entradas de Mazraoui na direita (com Dalot à esquerda) e Eriksen. Essa estabilidade dentro da limitação de escolhas trouxe um Manchester United diferente para melhor no arranque da partida, com Bruno Fernandes a obrigar Bernd Leno a uma intervenção apertada com um remate na área (11′), Höjlund a desviar ao lado um cruzamento da esquerda (14′) e Eriksen a arriscar também de meia distância para nova defesa do guarda-redes alemão (16′). Ao contrário do que aconteceu nos últimos jogos, os visitados não só criavam situações de perigo como iam deixando o Fulham com pouca margem no plano ofensivo. Golos nem um.

O intervalo aproximava-se com um nulo e com a formação londrina de Marco Silva a mostrar-se na frente, com Lukic a surgir sozinho na área a desviar de cabeça ao lado um cruzamento da esquerda antes de uma última tentativa dos red devils com Bruno Fernandes a assistir e Zirkzee a desviar ao primeiro poste ao lado. No entanto, e como continua a acontecer ao Manchester United, bastou um remate para tudo mudar: canto na direita do ataque, desvio ao primeiro poste de cabeça e remate de Calvin Bassey para o 1-0 (45+1′).

Ruben Amorim chegava ao balneário com pouco ou nada a dizer a uma equipa que, jogando melhor ou pior, nunca esteve por baixo mas encontrava-se mais uma vez em desvantagem. Os jogadores tinham semblante carregado, o técnico tinha semblante carregado, os adeptos tinham semblante carregado e apenas mais uma reviravolta na época permitiria evitar novo objetivo perdido na temporada. Até foi o Fulham que entrou de melhor na segunda parte, com Onana a tirar o golo a Smith-Rowe, mas a primeira jogada coletiva com algum sentido do Manchester United valeu mesmo o empate, com Diogo Dalot a assistir Bruno Fernandes para o remate de pé esquerdo de Bruno Fernandes sem hipóteses para Leno (71′). Smith-Rowe ainda voltou a deixar uma ameaça com nova grande defesa nos descontos mas a partida seguiria para prolongamento.

Havia um fator adicional a ter em conta no tempo extra que por pouco não teve impacto ainda durante o tempo regulamentar: Chido Obi-Martin. O jovem avançado da formação do United ameaçou o golo no fim dos descontos e teve a melhor oportunidade na primeira parte do prolongamento, num remate em jeito na área para grande defesa de Bernd Leno (104′). As pernas já não respondiam da mesma forma mas o jogo tinha momentos em que partia, possibilitando situações de potencial perigo junto das duas balizas como uma em que Ryan Sessegnon sentou Diogo Dalot e atirou para outra boa intervenção de Onana (109′). Tudo iria seguir para as grandes penalidades, com Lindelöf a falhar a quarta tentativa do Manchester United e a abrir caminho para o Fulham chegar aos quartos da Taça de Inglaterra com um triunfo por 4-3 depois de mais uma defesa de Bernd Leno ao último remate de Zirkzee. Old Trafford voltava a gelar por completo…