Mark Carney é o homem escolhido para suceder a Justin Trudeau, depois de o primeiro-ministro do Canadá ter anunciado que sairia do cargo após o partido escolher o sucessor. O Partido Liberal não teve dúvidas e, entre o ex-governador do Banco da Inglaterra e a ex-ministra Chrystia Freeland, votou amplamente em Carney, que venceu com 85,9% dos votos.

Mark Carney é o novo líder do Partido Liberal do Canadá

Não teve problemas em fazer campanha apresentando-se como o melhor candidato para enfrentar Donald Trump, tornando o tema um cavalo de batalha, numa altura em que o novo Presidente dos EUA chegou a sugerir que o país deveria ser um dos estados dos EUA. No discurso de vitória, não abandonou a bandeira: “O Canadá nunca, jamais, fará parte da América de maneira alguma, forma ou formato. Não pedimos esta luta, mas os canadianos estão sempre prontos. Portanto, os americanos que não se enganem: no comércio, assim como no hóquei, o Canadá vencerá.” Determinado, frisou: “Não podemos deixá-lo [Donald Trump] ter sucesso”.

Filho de m diretor da uma escola secundária, o canadiano foi governador do Banco da Inglaterra, o primeiro não britânico no cargo em mais de 300 anos de história. E, durante os tempos em que viveu em Londres, também foi presidente do Financial Stability Board, onde coordenou o trabalho de autoridades reguladoras um pouco por todo o mundo. Ou seja, esteve na linha da frente na resposta global às políticas da primeira presidência de Trump dos EUA e participou nas reuniões do G20.

Mas se o economista se tornou especialista em crises económicas globais, por outro lado, a experiência política é reduzida e nunca teve qualquer cargo político na carreira. 

Tecnocrata liberal, é considerado um outsider político, caraterística que os apoiantes fazem por minimizar perante o seu currículo. Formou-se como economista (com uma bolsa de estudo) na reputada universidade de Oxford e doutorou-se na não menos prestigiada Universidade de Harvard. Passou dez anos na Goldman Sachs em Nova Iorque, Londres e Tóquio, tendo nos tempos mais recentes dirigido o Brookfield Asset Management. Se a parte académica é relevante, o seu trabalho na banca é determinante para aqueles que acreditam que Carney tem as ferramentas necessárias para guiar o Canadá em tempos difíceis.

Antes de assumir o Banco de Inglaterra em 2013, Carney foi governador do Banco do Canadá durante a crise financeira global de 2008, mandato (2007-2013) muito elogiado então pela sua capacidade em tomar decisões rápidas e decisivas que terão evitado o descalabro da economia nacional.

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Em Londres, tornou-se conhecido por ter modernizado o Banco de Inglaterra e já no ano em que o deixou, em 2020, quando o país saiu formalmente da União Europeia, Carney recebeu os créditos por ter evitado o pior para a economia britânica com o Brexit.

No entanto, a falta de experiência política (ou eleitoral) pode ser marcante num cenário complicado, pois Carney, de 59 anos, poderá terá de lutar em breve pelo seu próprio lugar, já no próximo mês: as eleições federais de outubro podem ser antecipadas. Não foi por acaso que levou parte da sua campanha a explicar aos canadianos quem era e do que era capaz.

“Sei como gerir crises. Sei como construir economias fortes”, disse num debate com os outros candidatos liberais à liderança. “Tenho um plano, um plano que põe mais dinheiro nos vossos bolsos, um plano que torna as nossas empresas mais competitivas, um plano que constrói uma economia forte que funciona”.

Nascido em Forth Smith, uma cidade remota nos Territórios do Noroeste do Canadá, Mark Carney é também conhecido pelas suas preocupações ambientais. Em 2019, foi mesmo enviado especial da ONU para as alterações climáticas e, em 2021, lançou a Glasgow Financial Alliance for Net Zero, grupo de bancos e instituições financeiras que combate as alterações climáticas. Um pormenor que não impressionará, seguramente, Donald Trump, que tem uma visão do tema completamente diferente. Tal como não o fará o facto de Mark Carney — que já anunciou tarifas aos EUA como retaliação às propostas pelo inquilino da Casa Branca — ter jogado hóquei no gelo, enquanto estudava, como guarda-redes.