Foi apagada uma página no site do Pentágono dos EUA que relatava a história de Ira Hayes, soldado pertencente ao povo nativo americano Pima que participou na “fotografia icónica” que simboliza o plantar da bandeira na ilha de Iwo Jima, uma das batalhas mais famosas e sangrentas dos norte-americanos no Oceano Pacífico contra os japoneses durante a II Guerra Mundial.

Na página, Ira Hayes era celebrado como um exemplo dos “contributos e sacrifícios que os nativos americanos fizeram pelos Estados Unidos da América, não só no exército, mas também em todos os quadrantes da vida”. Agora, seguindo o endereço da página, só aparece uma mensagem de erro: “Não encontrado”.

A fotografia, que o Pentágono chama de “icónica”, captada em 23 de fevereiro de 1945 por Joe Rosenthal da Associated Press, foi premiada com um Pulitzer e serviu de modelo para uma estátua  central no Memorial de Guerra do Corpo de Fuzileiros Navais em Arlington, Virgínia.

O Washington Post recorda que o Pentágono capitalizou a popularidade da imagem, enviando Hayes e os outros cinco fuzileiros que figuram na fotografia numa digressão nacional para angariar fundos para a Marinha. Hayes morreu cedo, aos 32 anos, em 1955, depois de uma luta inglória com o alcoolismo, mas a sua história aparece em três grandes filmes e numa canção de Johnny Cash.

A razão para a remoção da fotografia, segundo o jornal norte-americano Washington Post, reside na nova política de Donald Trump de apagar tudo o que tem a ver com políticas de DEI — sigla norte americana para Diversidade, Equidade e Inclusão — do governo federal dos EUA, uma das medidas tomadas por Trump no primeiro dia no cargo.

Logo depois da tomada de posse, o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) emitiu uma ordem executiva que decretava o fim das políticas de DEI, a que chamou “ilegais e imorais“.

“Os americanos merecem um governo empenhado em servir todas as pessoas com igual dignidade e respeito e em gastar os preciosos recursos dos contribuintes apenas para tornar a América grande”, lê-se na ordem.

Segundo o Washington Post, várias páginas relativas à presença de nativos americanos no exército ao longo da história militar dos EUA foram apagadas, mesmo as relativas à participação em momentos como a Guerra Civil norte-americana, datada do século XIX, muito antes de quaisquer políticas de inclusão.

O secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, tem sido um dos apoiantes mais fervorosos desta política, segundo o Washington Post, que cita uma resposta ao jornal dada pelo porta-voz John Ullyot a afirmar que o “DEI está morto” no departamento.

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“Os esforços para dividir o exército e colocar um grupo à frente de outro através de programas DEI corroem a camaradagem e ameaçam a execução da missão“, disse ainda Ullyot.

Mas as referências removidas dos sites vão muito para lá das forças armadas ou de referências a pessoas nativas americanas.

O New York Times fez um balanço no início de fevereiro, reportando que mais de oito mil páginas foram sendo apagadas de sites ligados a agências ou ramos do governo federal norte-americanos. Os temas das páginas apagadas incluem também referências a inclusão de mulheres, de pessoas LGBTQIA+ ou mesmo até páginas sobre políticas ambientais anteriormente adotadas.

Por exemplo, a página do Departamento de Justiça dos EUA relativamente à eliminação de crimes de ódio de pessoas LGBTQI+ foi uma das visadas: agora há uma mensagem de erro quando se tenta aceder.

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Quaisquer páginas ou referências em páginas sobre “justiça ambiental” ou “sustentabilidade”, as quais Trump apontou como alvo direto na ordem executiva para eliminar políticas de DEI, foram também eliminadas, como foi o caso da página sobre a política de justiça ambiental no site do Departamento de Administração Interna.

A política estabelecida no discurso de inauguração de Donald Trump de que os EUA só passariam a reconhecer “dois sexos” também se espelhou na eliminação ou alteração de páginas pertencentes ao governo federal norte-americano, maioritariamente relativamente à comunidade trans.

Uma página do Centro que estabelecia guias de vacinação que usava a expressão “pessoas grávidas” foi apagada e agora diz “mulheres grávidas”. Já o guia para viajantes LGBTQI+ do gabinete de assuntos consulares do Departamento de Estado dos EUA deixou cair o “TQI+” (que significa pessoas trans, queer e intersexo) da sigla e hoje apresenta conselhos para pessoas “LGB“.

Uma das exclusões mais notórios e que causou mais contestação nas redes sociais foi a referente Charles Rogers, general veterano negro galardoado com a Medalha de Honra do Exército norte-americano pelo serviço na Guerra do Vietname e que continha uma referência ao seu trabalho dentro dos militares pela “igualdade racial e de sexos”.

Entretanto restaurada, um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano justificou à rádio pública norte-americana NPR que a sua história “foi removida durante o processo de remoção”, que acrescentou uma referência ao “DEI” no endereço da página.