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Violência continua em Moçambique: morte "no dia de Azagaia", elementos do movimento de Venâncio Mondlane assassinados

Este artigo tem mais de 1 ano

Em dois dias, dois homens ligados a Mondlane são assassinados (a um tiraram os órgãos genitais). No "18 de março", criado para celebrar heróis, houve uma morte. Violência repete-se em Moçambique.

Populares impedem a polícia moçambicana de levar o corpo de um jovem supostamente baleado pela corporação em Maputo, Moçambique, 18 de março de 2025. Um jovem foi hoje baleado em Maputo, um novo caso relacionado com a agitação social pós-eleitoral, com populares a responsabilizarem a polícia e a carregarem o corpo para a Estrada Nacional 4 (N4), levando à carga policial. LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
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▲Jovens levaram o corpo de amigo que, dizem os moradores da Casa Branca, foi morto pela polícia quando saía de casa esta terça-feira

Luísa Nhantumbo/LUSA

▲Jovens levaram o corpo de amigo que, dizem os moradores da Casa Branca, foi morto pela polícia quando saía de casa esta terça-feira

Luísa Nhantumbo/LUSA

A imagem é totalmente desfocada e traz um aviso no Facebook: “Este vídeo foi ocultado para que as pessoas possam decidir se o querem ver”. Decisão tomada e um corpo em sangue, tapado com um pano, no meio da terra batida, surge no meio do ecrã. À volta, muitas pessoas com telemóveis, uma mulher em pranto e vozes indignadas.

Não é o conteúdo mais violento ou chocante já partilhado nas redes sociais das mortes causadas na contestação social que sacode Moçambique desde 21 de outubro. Há uma outra imagem do mesmo corpo, deixado num separador central de uma estrada nacional, ainda a manhã desta terça-feira não tinha terminado, que circulou em grupos de WhatsApp, no X, no Facebook, no TikTok, no Instagram. E há depois a luta por este corpo que durou mais de uma hora entre os jovens que protestavam e a polícia anti-motim, a Unidade de Intervenção Rápida (UIR).

Ainda não se sabe o nome da vítima, mas sabe-se um número: 361, a soma das mortes ocorridas na tensão pós-eleitoral neste país africano governado há 50 anos pela Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Estas são as contas da Plataforma Decide, Organização Não Governamental (ONG) que junta outras congéneres e monitoriza processos eleitorais. Venâncio Mondlane, principal opositor moçambicano e líder da contestação, diz que são mais, há ONGs que falam em 400, e para o Centro para a Democracia e os Direitos Humanos são mais de 600.

“Era um dia que parecia de festa na zona da Casa Branca”, bairro a nove quilómetros de Maputo, “e acabou em tragédia” diz Wilker Dias, coordenador da Decide. Este não era um dia qualquer, era o 18 de março, data que o governo sombra de Venâncio Mondlane escolheu como o “Dia dos Verdadeiros Heróis do Povo Moçambicano” em contraponto com o 3 de fevereiro oficial, Dia dos Heróis Moçambicanos.

Não foi por acaso que o autoproclamado “Presidente do Povo” fixou este dia: a 18 de março de 2023, a polícia reprimiu com violência marchas pacíficas em homenagem a um icónico rapper de intervenção, Azagaia, muito popular em Moçambique e noutros países lusófonos, que morrera uma semana antes.

Moçambique despede-se pela última vez de Azagaia, o “rapper do povo” que preservava a coesão social

Nesse sábado, agentes da polícia alegaram ter “ordens superiores”, nunca confirmadas, para usar balas de borracha e gás lacrimogéneo contra a multidão que marchava pacificamente. Houve mais de duas dezenas de detidos, mais de dez feridos (dois perderam olhos) e aí nasceu a “Geração 18 de março”, um movimento com jovens voluntários que prestam apoio a vítimas de manifestações.

Perderam os olhos em repressão policial mas dão corpo à “geração do 18 de março” em Moçambique

Para Venâncio Mondlane esse não foi apenas o dia “da comemoração e da celebração da vida e da obra de Azagaia, foi ali onde tudo começou”. Só depois é que “vieram as manifestações que ocorreram ao nível das eleições autárquicas e agora as manifestações ao nível das eleições gerais. Isto tem história”, frisa.

A ideia era festejar, lembra esta terça-feira Mondlane que convocou uma paralisação geral para o dia. “Cada cidadão teria a liberdade de celebrar levantando cartazes dos seus próprios heróis: pai, mãe, músico preferido, irmão, amigo, etc”. Ninguém devia trabalhar, seria feriado, anunciou o político que no “Jornal do Povo”, onde publica os seus decretos, enunciou 14 heróis em que figuram Edson da Luz (Azagaia), Elvino Dias e Paulo Guambe (elementos da sua equipa assassinados a 19 de outubro) sem esquecer os históricos da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder há quase 50 anos) Eduardo Mondlane e Samora Machel, mas também o escritor João Craveirinha, por exemplo.

E a festa aconteceu em algumas províncias, como Maputo, Zambézia ou Cabo Delgado. Grupos de pessoas marcharam com cartazes, cantaram, gritaram. Por vezes, como na Vila de Bilene, em Gaza, ou perto da capital, foram intimidados pela polícia com balas reais e gás lacrimogéneo.

“Infelizmente, um dia pacífico, sem nenhum indício de vandalismo, sem nenhuma desordem, onde os jovens apenas celebravam os heróis das suas próprias histórias, a polícia intervém e começa a matar novamente”, lamenta Venâncio Mondlane numa nota publicada nas suas redes sociais.

Assim se passou na Casa Branca, na Matola, arredores da capital, a cerca de 500 metros das portagens de Maputo da N4, principal estrada para a fronteira de Ressano Garcia, com a África do Sul. “Os jovens estavam a organizar-se com colunas e comida para celebrar esta data especial, a data de Azagaia”, começa por recordar Wilker Dias que estava a passar por ali. Mas “a polícia disparou e matou uma pessoa”, diz o ativista.

No local, várias pessoas relataram à agência Lusa que a polícia entrou no bairro, junto à N4, durante a manhã, baleando mortalmente na cabeça um dos jovens, lançando gás lacrimogéneo e disparando vários tiros.

“É um feriado normal, ninguém fechou a estrada. De repente aparece o Conselho Municipal e a UIR, começam a disparar sem perguntar nada”, descreveu aos jornalistas da Lusa um dos jovens, de máscara, para se proteger do gás lacrimogéneo que tinha sido lançado há pouco tempo. Garantiu que estavam na rua a limpar e a festejar o “Dia dos Verdadeiros Heróis do Povo Moçambicano”.

Outro jovem explicou que a vítima “não estava a fazer nada”, não se estava a manifestar e foi atingida a tiro “ao sair de casa”. “Eles [polícia] deram logo um tiro na cabeça, a sair, sem perguntar (…) Nós não fizemos nada”, assegurou o jovem.

Passo seguinte, a revolta eclodiu no bairro e transbordou para a N4, com as pessoas a atirarem pedras contra viaturas, incluindo as da polícia e, conta a Lusa, mais tarde tentando vandalizar um espaço comercial, obrigando a nova intervenção policial.

Por volta das 11h30 locais (9h30 em Lisboa) tudo piorou. Um grupo de jovens carregou o corpo do jovem baleado para o separador central da N4. Elementos da UIR reagiram, lançando gás lacrimogéneo e disparando balas reais. Queriam dispersar as pessoas e recolher o corpo o que implicou uma hora de tensão, até conseguirem afastar os jovens da vítima, que foi rapidamente colocada numa carrinha por elementos do Serviço Nacional de Investigação Criminal (Sernic), debaixo do protesto das pessoas, que receiam muitas vezes que sejam retirados órgãos aos cadáveres.

Houve outros bairros à volta da capital — onde várias lojas fecharam, os mercados tiveram menos movimento e os transportes estiveram praticamente sem funcionar — com problemas. Do Trevo (ao longo da EN4), Matola, chegaram relatos de gás lacrimogéneo e balas verdadeiras da UIR, contra um grupo de jovens que estava nas bermas da estrada a “fazer limpeza e a comemorar o dia”. O mesmo aconteceu junto à BIC (fábrica de esferográficas), também na EN4, onde pneus foram incendiados para tentar bloquear a estrada.

Também no bairro Patrice Lumumba (Matola), um grupo de jovens juntou-se na estrada, com cartazes com os nomes e fotografias dos “heróis do povo”, e dois deles acabaram detidos. Segundo o CDD eram os jovens que acompanhavam a mulher agredida durante a tomada de posse de Daniel Chapo.

A mulher esbofeteada que virou heroína — e é exemplo para Mondlane apelar à vingança contra os polícias

No X, o CDD adianta ainda que uma equipa que estava no terreno a acompanhar as manifestações foi alvo de disparos reais da UIR, sem que alguém tenha sido atingido. A ONG sublinha que “o uso de munições reais contra civis desarmados é uma clara violação dos direitos humanos e do direito internacional” e exige “responsabilização”.

Sem problemas decorreu a concentração de centenas de pessoas no cemitério de Michafutene, onde estão sepultados Azagaia e Elvino Dias (braço direito de Venâncio Mondlane, conhecido como “advogado do povo”, assassinado com 25 tiros na noite de 18 de outubro de 2024, em Maputo, tal como Paulo Guambe, mandatário do Podemos, partido que apoiava então o candidato presidencial).

No entanto, a polícia moçambicana disse esta terça-feira, em conferência de imprensa, que usa “meios legítimos” para dispersar manifestações, admitindo a possibilidade de haver feridos durante essas ações.

Polícia moçambicana diz que usa “meios legítimos” para dispersar manifestantes

Aumentam os assassinatos de elementos ligados a Mondlane

Os acontecimentos deste 18 de março sucedem-se a um fim de semana trágico para o movimento de Venâncio Mondlane, Anamalala, em Inhambane. Na mesma província, dois sequestros e assassinatos de elementos da equipa local do político que mobiliza multidões, depois de outros dois terem sido mortos uma semana antes, levaram a população a novos protestos.

Lião de Deus Nhachengo, coordenador de Venâncio Mondlane em Zavala, foi dado como desaparecido entre quinta e sexta-feira da semana passada. Terá sido sequestrado de sua casa por homens armados e o seu corpo foi encontrado no sábado, abandonado, e com marcas de tiros, escreve o CCD.

A reação de muitos residentes em Zavala não se fez esperar:  barricaram estradas, incluindo a via mais importante do país, a N1 e incendiaram pelo menos uma esquadra da polícia.

A Justice Frontal Equitas,  grupo de direitos humanos, diz que que o rapto e assassinato do ativista da oposição está a ser visto como “um reavivar do ‘plano 100 da FRELIMO’ para eliminar moçambicanos com opiniões dissidentes, comparando com o que se passou na década de 1990,  marcada por assassinatos políticos generalizados de membros da oposição pelo partido no poder”.

Nesse mesmo dia de madrugada um jovem de 23 anos, “dinamizador das manifestações em Inharrime”, foi levado de sua casa, em Chissibuca, Zavala, por homens armados não identificados que a mulher garante serem da polícia. Os vizinhos, familiares e amigos zangaram-se, exigindo explicações da polícia havendo mesmo confrontos com armas de fogo. Neste sábado, Ivo Armando Nhatumbo apareceu morto e sem os órgãos genitais.

Com estas duas mortes sobem para 15 o número de apoiantes de Venâncio Mondlane assassinados desde dezembro último e um da Frelimo, informa Wilker Dias, da Plataforma Decide.

Na mesma província já tinha sido mortos dois seguidores de Mondlane, a 8 de março à noite, em Massinga: Daniel Ricardo Guambe, de 28 anos e pai de duas crianças, uma de 4 meses, e Rafito Sebastião Sitoe, de 21 anos e pai de uma bebé de 3 dias. Os dois jovens “foram crivados de balas no interior de uma viatura na via pública, tal como aconteceu com Elvino Dias e Paulo Guambe, em 19 de outubro de 2024”, denuncia o CDD.  São quatro homicídios numa semana de pessoas ligadas a Mondlane que contesta os resultados eleitorais de 9 de outubro que oficialmente deram a vitória a Daniel Chapo, candidato da Frelimo.

“Esta onda de assassinatos está a ser entendida como forma de controlar os protestos por via do enfraquecimento da base de apoio de Venâncio Mondlane, implantação do terror e medo entre os apoiantes”, refere o CDD. “A Frelimo acredita que dessa forma consegue devolver a tranquilidade social. O Centro para Democracia e Direitos Humanos entende que este não é o caminho que vai trazer a paz e a estabilidade social. Para o CDD, a solução para este momento negro da história do país está num diálogo franco, honesto e inclusivo”, sublinha a organização.

ONG moçambicana denuncia assassínio de mais um apoiante de Venâncio Mondlane

Detida responsável financeira de Mondlane

A alegada perseguição a membros do movimento de Mondlane assume ainda outros contornos. Além dos processos instaurados ao político, que lhe valeram uma medida de coação de termo de identidade e residência, também o seu assessor Dinis Tivane (cuja casa já foi alvejada, além do seu guarda) foi chamado à Procuradoria-Geral da República. Mas se os dois aguardam o desenrolar dos seus processos em liberdade, o mesmo não se pode dizer da mandatária financeira.

Aplicada medida de termo de identidade e residência a Venâncio Mondlane

A contabilista na reforma, de 59 anos, está em prisão preventiva por decisão do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo. “Minha mandatária, Glória Nobre Chire, torna-se uma presa política. O juiz decidiu mandá-la para prisão efetiva”, avançou Mondlane na sua página da rede social Facebook na sexta-feira.

“Eu estava com ela quando tudo aconteceu (…). Foi [um] contingente policial jamais visto. Nós não sabemos qual é a motivação da detenção”, disse à Lusa Aline Nobre Chire, uma das filhas, à porta da 8.ª esquadra da Polícia da República de Moçambique em Maputo, onde esteve a mãe depois de detida na sua casa, em Maputo, na quarta-feira.

A responsável pelas finanças de Mondlane foi “detida e torturada psicologicamente” e impedida de falar com a família e advogado por 48 horas, denunciou o político. “Ela estava enclausurada, fechada, não podia ver a família, foi feita uma criminosa ou terrorista, sem a presunção de inocência”, denunciou o político.

Numa queixa crime apresentada à PGR há uma semana, 11 de março, Mondlane acusa a polícia de ter violentado 411 pessoas do seu “projeto político”, sendo que pelo menos 45 foram mortos e 172 feridos. A lista ainda não incluía, claro, Lião ou Ivo, seus colaboradores em Inhambane, mortos no fim de semana. Talvez uma próxima denúncia os integre, o que não acontecerá com a 361ª. vítima destes protestos, pois tanto quanto se sabe, o homem não fazia parte do movimento de Venâncio Mondlane. Estava apenas a sair de casa na Casa Branca, num dia que deveria ser de festa.

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