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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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A mulher esbofeteada que virou heroína — e é exemplo para Mondlane apelar à vingança contra os polícias

Donativos, entrevistas, prendas, telefonemas, abraços na rua e elogios de Venâncio. Toda a gente quer dar força a Venilda depois da bofetada do polícia — que fugiu para não ser linchado.

Apenas 30 metros: a distância entre a vivenda de dois andares onde funcionam os estúdios do canal A tua TV (onde tinha estado a dar uma entrevista de duas horas no “Fred Jossias Show”) e a estrada até à esplanada em frente onde ia dar uma entrevista ao Observador, no centro de Maputo. Venilda, a mulher que foi esbofeteada por um polícia na manifestação de quarta-feira junto à tomada de posse de Daniel Chapo, ia percorrer apenas esses 30 metros mas demorou 30 minutos.

Primeiro, parou o trânsito de peões, com pessoas à sua espera à porta do estúdio, só para a cumprimentarem, para lhe darem um abraço e dizerem “força”. Depois, parou o trânsito de carros, com condutores e passageiros a quererem tirar-lhe fotos, a buzinarem, a acenarem-lhe, emocionados, comovidos e solidários.

Uma das senhoras que foram atrás dela deu-lhe um abraço tão sentido que parecia ter Moçambique inteiro naqueles dois braços: uma empatia profunda, como se toda a gente se sentisse mal por não ter podido impedir aquela bofetada violenta à vista do mundo, nem as duas bastonadas descontroladas que se seguiram. Depois, a senhora do abraço, Cândida Obadias, disse que tinha uma loja de roupa ali ao lado e gostava de lhe oferecer uma blusa. “Senti-me agredida e violentada também. Fiquei sem palavras a assistir àquilo.”

▲ Venilda Mondlane em entrevista de duas horas "Fred Jossias Show"

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Venilda ficou tão contente: a entrar na loja de roupas em segunda mão; a experimentar a blusa que lhe estava a ser oferecida (estava à venda por 30 euros); a ver-se ao espelho; a escolher outra camisa que achava que lhe ficaria melhor; a ver-se ao espelho outra vez perante os olhares de aprovação da proprietária e de outras clientes; a agradecer a generosa oferta; a sair da loja já com a blusa nova vestida — e a ter mais peões e condutores à espera para a verem, para a envolverem e para lhe darem força.

Venilda tem o mesmo apelido de Venâncio Mondlane e não tem a certeza se ainda serão da mesma família de sangue, mas não tem dúvidas de que é da família política do auto-proclamado “presidente do povo”. Foi por ele que na quarta-feira de manhã saiu de casa para caminhar 12 km, duas horas a pé do seu bairro, Patrice Lumumba, até à avenida Samora Machel, no centro da cidade, para protestar contra a tomada de posse de Daniel Chapo. Foi também por ele que resistiu e não quis recuar quando os polícias começaram a usar cães para afugentar os manifestantes e os afastar o mais possível da Praça da Independência. “Vão, vão, vão, vão, vão, vão, vão”, ordenavam os polícias. Um deles fez mesmo Venilda sentir-se um cão ou um gato, pelo ruído que fazia para a afastar: “Su, su, su, su, su, su, sai daqui.”

"Não chorei, mas o meu coração sentiu dor. Comecei a olhar para o polícia com um sentimento que ele nunca viu."
Venilda Mondlane, sobre a agressão do comandante

Todos os manifestantes recuaram, mas Venilda manteve-se no mesmo local: “Afinal, o que é que nós estamos a fazer de mal aqui? Nós estamos aqui parados, só a cantar. Estão a mandar-nos embora lá para trás porquê? A tomada de posse não é lá à frente?”

▲ Foi convidada a entrar numa loja e escolher uma camisola como presente

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Um comandante da Unidade de Intervenção Rápida não terá tolerado ver assim Venilda a desafiar a autoridade dos seus homens e surpreendeu-a com aquela bofetada que deu a volta ao mundo. Mesmo assim, depois da bofetada e de duas bastonadas nos braços, Venilda não se mexeu e continuou a embaraçar os polícias, deixando claro que iam ter de lhe pagar pelo que tinham acabado de fazer. “Não chorei, mas o meu coração sentiu dor. Comecei a olhar para o polícia com um sentimento que ele nunca viu.”

“Venâncio quer que sejamos assassinos?”

Venâncio Mondlane falou logo de Venilda no seu direto nas redes sociais de quarta-feira, referindo-se a ela como sua mãe, em jeito de respeito. No direto desta sexta-feira, voltou ao caso de Venilda mais duas vezes, sendo uma delas logo a seguir a ter anunciado o “olho por olho” da população em relação a polícias assassinos, a que chamou “a lei do toma lá dá cá”, para ser mais fácil os jovens compreenderem.

Muitas das pessoas que a abordam na rua aconselham-na a não ir a manifestações, mas sobretudo pedem que não se deixe ficar parada, se a polícia a quiser afastar, para não correr o risco de novas agressões. Ela não rebate, limita-se a responder: "Deus está contigo." Venilda continua a defender a decisão de não se mexer: "Não fiz nada, não roubei nem matei." E tem noção da coragem física que implicou essa atitude: "Sim, eu quero ser uma heroína."

Mas logo o primeiro jovem apoiante de Mondlane ouvido pelo Observador sobre uma proposta tão radical não compreendeu: “Quer que sejamos assassinos?” Outros insistem nos abusos da polícia, que justificarão uma reação deste género, mas discutem a aplicação na prática, se a palavra de Venâncio é para ser um polícia morto por cada civil assassinado ou se apenas se deve aplicar ao polícia que baleou (apesar da confusão, a intervenção de Mondlane foi neste sentido: “Esse elemento da UIR [o que disparou] é varrido da existência, vai para o inferno.”) Mas há também moçambicanos que consideraram esta proclamação excessiva.

“Não é bom para o país”, admite ao Observador o sociólogo moçambicano João Feijó, investigador do Observatório do Meio Rural. “Mas é uma reação e, simultaneamente, um prolongamento da brutalidade da Frelimo. Que também já tinha sido precisamente isso em relação ao regime colonial. A história de Moçambique é a história da violência do Estado contra a população. E depois é a história da respetiva resistência e colaboração.”

▲ Venilda andava na rua quando uma mulher a reconheceu e foi ter com ela para a cumprimentar

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Uma parte deste apelo à vingança contra os polícias é a incitação à denúncia. Venâncio pediu aos “agentes sérios” da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) que denunciem os colegas e deu precisamente o exemplo do que aconteceu ao comandante Jaime Zaqueu, o agressor de Venilda, que foi rapidamente exposto: “Foram os próprios colegas da UIR que deram o nome completo, a casa, o nome dos filhos, da esposa, onde vive, todos os detalhes.”

O cerco à casa do comandante que acabou com o enteado aos tiros

O que se seguiu à agressão de Venilda pode ilustrar afinal na perfeição os perigos práticos de incentivar a população a uma política de “olho por olho”, muito para lá de todos os dilemas éticos que deviam travar um líder político antes de um apelo destes.

No dia a seguir à chocante bofetada, já todos os elementos de identificação sobre o comandante agressor estavam expostos nas redes sociais. Realizou-se uma marcha junto à sua residência, que foi cercada pelo povo.

▲ A dona da loja de roupa em segunda mão tira uma fotografia com Venilda Mondlane e carros que a abordavam na rua para a cumprimentar

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O comandante já tinha fugido, mas um seu enteado, que também é polícia, foi apanhado no meio da confusão e magoou uma das manifestantes ao tentar retirar-lhe o telemóvel, provocando fraturas em dois dedos. Depois entrou na residência, foi buscar a arma, e disparou para o ar, afugentando as dezenas de manifestantes que ali tinham ido, indignados, à procura de justiça.

Mesmo sendo da família, não foi o enteado que cometeu a agressão a Venilda. A arma do polícia travou neste caso um eventual linchamento ou outra forma de justiça popular. E uma das manifestantes que ia exigir justiça acabou por ficar ferida.

▲ Declaração de Venilda Mondlane do hospital depois de ter sido agredida pela polícia

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Como é que esta justiça popular vai distinguir entre os agentes “que são sérios” e os que matam indiscriminadamente? Quantos erros irremediáveis o país arrisca cometer assim? Quantos populares arriscarão morrer a enfrentar polícias armados quando forem à procura de justiça? E como é que Venâncio Mondlane lidará com a eventual responsabilidade política por ter incentivado o “olho por olho”? E, uma vez iniciado, alguém terá força para travar nas ruas esta lei a que o autoproclamado presidente do povo chamou “toma lá dá cá”?

“Vou aceitar um pedido de desculpas mas tem de me pagar”

Venilda quer justiça. Logo a seguir à agressão, ficou a gritar ao polícia: “Você vai-me pagar.” Em entrevista ao Observador (antes do anúncio do “olho por olho”), explicou que justiça gostava de ver feita: “Como ele estava de serviço, devia ter respeitado outras pessoas que não têm aquela roupa e aquela arma. Acho que devia ser expulso da polícia e indemnizar-me.” E prisão? “Pode ser, porque [o comandante que esbofeteou e o agente que deu as bastonadas] são criminosos.” Aceitaria um pedido de desculpas do comandante agressor? “Vou aceitar, mas tem de me pagar. Porque eu não sou filha dele para me bater daquela maneira.”

Poucas horas depois da agressão, no regresso a casa a pé, Venilda começou a sentir outras mulheres a cochicharem: “É ela, é ela, é ela.” Abordou uma delas, que lhe disse: “Obrigada por não te matarem.” Mais à frente, outra senhora: “É você? Eu estou a ver-te agora.” Já o vídeo da bofetada se estava a tornar viral nos vários grupos de Whatsapp seguidos pelos apoiantes de Venâncio Mondlane.

▲ Durante a entrevista ao Observador, Venilda recebeu 13 chamadas telefónicas

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Também o seu número de telefone se espalhou pelas redes sociais mais ao fim desse dia — e então começou a receber chamadas, sem parar, a desligar uma para atender outra, sempre de pessoas que não conhece, de todo o país e de moçambicanos lá fora, a saber como estava, do que precisava e a dar força.

Mais de 45 mil meticais em donativos de apoio transferidos por telefone

Também começou a receber transferências bancárias pelas apps moçambicanas equivalentes ao MB Way. Menos de 24 horas depois da bofetada já lhe tinham transferido 45 mil meticais, o equivalente a 688 euros. No momento da agressão, caíram cerca de mil meticais (15 euros) de Venilda ao chão, que foram apanhados e levados pelo comandante agressor.

Venilda Mondlane foi entretanto ao hospital e o registo clínico dá conta de “hematomas nos membros superiores” e uma “contusão na face”, “vítima de agressão física com polícias, com recurso a chamboco [bastão] nos membros superiores e chapada na face.”

Muitas das pessoas que a abordam na rua aconselham-na a não ir a manifestações, mas sobretudo pedem que não se deixe ficar parada, se a polícia a quiser afastar, para não correr o risco de novas agressões. Ela não rebate, limita-se a responder: “Deus está contigo.” Venilda continua a defender a decisão de não se mexer: “Não fiz nada, não roubei nem matei.” E tem noção da coragem física que implicou essa atitude: “Sim, eu quero ser uma heroína.”

Os donativos entretanto recebidos compensam não só o dinheiro que perdeu depois da bofetada, como superam largamente o que consegue ganhar em cada mês com a venda de comida nas bancas de rua. Venilda, 32 anos, vive numa casa de apenas um quarto com os dois filhos (uma rapariga de 15 e um rapaz de 13 anos). Dividem uma casa de banho com nove pessoas que moram nas três casas ao lado. Não tem televisão porque avariou e tem estado à espera do fim dos protestos para a consertar. E o seu sonho é ter uma casa com um terreno onde possa montar a sua banca de venda de comida que ela própria cozinha.

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