Pelo menos quatro pessoas foram mortas e outras 14 raptadas durante um ataque de supostos grupos terroristas, no distrito de Muidumbe, na província moçambicana de Cabo Delgado, afetada pela insurgência armada desde 2017, disseram esta quarta-feira à Lusa fontes locais.

As vítimas, segundo as fontes, foram mortas na zona baixa de Naneve, aldeia de Nangunde, após serem surpreendidas na terça-feira, em plena atividade de destilação de bebida caseira local.

“Chegaram terroristas em Naneve, na baixa de Nangunde e encontraram pessoas a destilar nipa [bebida alcoólica local] e cercaram-nas e ordenaram para que seguissem com eles a uma distância de menos de um quilómetro, atiraram contra dois homens do grupo e mataram outros dois que se encontravam em estado de embriaguez e que não conseguiram fugir”, disse uma fonte a partir de Muidumbe.

Segundo relatos de populares, os insurgentes assassinaram duas das vítimas após estas alegarem não possuir o dinheiro exigido para garantir a sua libertação. Os corpos foram enterrados esta quarta-feira pela força local.

Segundo as fontes, no mesmo local do incidente, os rebeldes raptaram pelo menos oito pessoas, que continuam desaparecidas.

“Levaram oito pessoas e não sabemos o paradeiro”, disse.

Além de Nangunde, as fontes denunciaram ainda o rapto de pelo menos seis pessoas por supostos grupos terroristas na segunda-feira na aldeia de Xitaxi, localizada a cerca de 50 a 60 quilómetros da sede distrital de Muidumbe, ao longo da estrada nacional número 380 (EN380).

Província rica em gás natural, Cabo Delgado é assolada desde 2017 por uma insurgência armada que já provocou mais de 6.600 mortos e de 1,2 milhão de deslocados desde então, segundo organizações internacionais.

Incidentes associados ao conflito em Cabo Delgado, norte de Moçambique, aumentaram 10% no primeiro semestre, face a 2025, com os raptos a serem cada vez mais usados para resgates e recrutamento forçado, incluindo de crianças, alerta a ONU.

A conclusão consta do relatório “Moçambique: O custo da inação”, divulgado pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), consultado na terça-feira pela Lusa, que descreve um agravamento da situação de segurança no norte do país e alerta para o impacto crescente da violência sobre civis.

Segundo o documento, “nos primeiros seis meses de 2026, foram registados mais de 400 incidentes de conflito, 10% mais do que no mesmo período de 2025”, incluindo episódios como homicídios, destruição de habitações, pilhagens e raptos.

Atualmente, cerca de 1,38 milhões de pessoas vivem com as consequências da deslocação em Cabo Delgado, incluindo aproximadamente 662 mil deslocados internos e 722 mil habitantes que regressaram às respetivas zonas de origem.

“Por detrás destes números estão famílias repetidamente forçadas a abandonar as suas casas, crianças cuja educação foi interrompida e comunidades cujos meios de subsistência e acesso a serviços básicos foram destruídos”, refere a ONU.