Esta quinta-feira fez-se história. Kirsty Coventry tornou-se na primeira mulher da história a chegar a presidente do Comité Olímpico Internacional, entidade que completa e junho 132 anos de existência. Natural do Zimbabué, a antiga nadadora conquistou sete medalhas nas cinco edições dos Jogos Olímpicos em que marcou presença, tendo se sagrado bicampeã olímpica. Nesta eleição, que foi realizada num hotel em Costa Navarino, na península do Peloponeso, na Grécia, Coventry superou o príncipe Faisal bin Hussein, David Lappartient, Juan Antonio Samaranch Salisachs, Morinari Watanabe, Johan Eliasch e Sebastian Coe. Aos 41 anos, a zimbabuana era a mais nova a concorrer ao comité.
Mrs Kirsty Coventry has been elected as the 10th President of the International Olympic Committee at the 144th IOC Session in Costa Navarino. pic.twitter.com/Dv8Tfbecf6
— IOC MEDIA (@iocmedia) March 20, 2025
Coventry garantiu a vitória por maioria logo na primeira votação, alcançando 49 votos. O espanhol Samaranch ficou no segundo lugar, com 28, ao passo que Coe terminou na terceira posição, oito. Neste ato eleitoral terá pesado a influência de Thomas Bach, presidente cessante do COI, que nomeou mais de 70% da atual assembleia, aumentando o número de mulheres para 47, que passou a perfazer 44% do total de representação. A agora presidente eleita chegou ao COI em 2013, ingressando como ex-atleta. A partir daí integrou vários comités, com destaque para o financeiro. A cerimónia de tomada de posse vai acontecer em junho, altura em que Bach vai terminar o seu mandato de 12 anos.
Para além de se ter tornado na primeira mulher a presidir o COI, Kirsty Coventry é, também, a primeira pessoa nascida no continente africano a chegar ao cargo mais importante da organização. Apesar de ser uma entidade centenária, só em 1981 o COI começou a ter representação feminina na assembleia olímpica e apenas quatro mulheres lideram as 43 federações olímpicas: Annika Sorenstam, no golfe, Petra Sörling, no ténis de mesa, Zena Wooldrige, no squash, e Regula Meier, no esqui-alpino. De acordo com as regras do comité, o presidente é eleito para um mandato de oito, podendo ser reeleito por mais quatro anos, algo que aconteceu sempre que um presidente tentou a reeleição.
“Estou imensamente honrada e animada por ser eleita presidente do Comité Olímpico Internacional! Quero agradecer sinceramente aos meus membros pela confiança e apoio. A jovem que começou a nadar no Zimbabué há alguns anos jamais poderia ter sonhado com este momento. Estou particularmente orgulhosa de ser a primeira mulher presidente do COI e também a primeira de África. Espero que esta votação seja uma inspiração para muitas pessoas. O telhado de vidro foi hoje quebrado e estou plenamente ciente das minhas responsabilidades como modelo a ser seguido”, partilhou Coventry no discurso de vitória.
“O desporto tem um poder incomparável de unir, inspirar e criar oportunidades para todos e estou comprometida em garantir que aproveitemos esse poder ao máximo. Com toda a família olímpica, incluindo os nossos atletas, adeptos e patrocinadores, vamos construir sobre as nossas bases fortes, abraçar a inovação e defender os valores de amizade, da excelência e do respeito. O futuro do movimento olímpico é brilhante e mal posso esperar para começar”, acrescentou. Já Bach parabenizou a sua sucessora: “Parabéns à Kirsty Coventry pela sua eleição como a 10.ª presidente do COI. Recebo calorosamente a decisão dos membros do COI e aguardo uma forte cooperação, especialmente durante o período de transição. Não há dúvida de que o futuro do nosso movimento olímpico é brilhante e os valores que defendemos continuarão a guiar-nos nos próximos anos”.
Eleição conseguida à 1.ª volta na 144.ª Sessão do COI, na Grécia, frente a mais seis candidatos
— Comité Olímpico de Portugal (COP) (@COPPORTUGAL) March 20, 2025
Nascida em Harare, no Zimbabué, a 16 de setembro de 1983, Kirsty Coventry não demorou muito a embarcar no mundo do desporto e, na década de 90, rumou aos Estados Unidos para frequentar e treinar competitivamente na Universidade de Auburn, no Alabama. Em 2000 tornou-se na primeira nadadora do seu país a chegar às meias-finais dos Jogos Olímpicos e conquistou o prémio de desportista do ano do Zimbabué. Quatro anos depois esteve presente em Atenas, na Grécia, tendo conquistado o ouro nos 200 metros costas, a prata nos 100m costas e o bronze nos 200m estilos. Em Pequim-2008 elevou a fasquia ao somar quatro medalhas: ouro nos 200m costas com recorde do mundo e pratas nos 400m estilos, 100m costas e 200m estilos.
[Já estreou “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]
Essa prestação valeu a Kirsty um lugar na história e, para além disso, permitiu-lhe receber 100 mil dólares — doados a caridade — entregues pelo presidente do Zimbabué, Roberto Mugabe, que a apelidou de “menina de ouro”. Já Paul Chingoka, então presidente do Comité Olímpico do Zimbabué, referiu-se à nadadora como “tesouro nacional”. A quinta e última presença olímpica aconteceu em 2016, no Rio de Janeiro, com Coventry a despedir-se com o maior número de medalhas individuais da história olímpica no que à natação feminina diz respeito. Em termos de Mundiais, conquistou três títulos de piscina longa, juntando mais quatro ouros na piscina curta. Kirsty Coventry também somou um ouro nos Jogos da Commonwealth e 14 nos Jogos Pan-Africanos.
Huge congratulations to Kirsty Coventry on her historic election as IOC President! As the first African, woman & youngest leader in the role, she embodies excellence & pride for Africa, Zimbabwe & women. We're proud to support her as she leads the IOC into a new era. pic.twitter.com/koeQ327uPe
— Zimbabwe Olympic Committee (@TeamZimOlympic) March 20, 2025
No início de 2018 chegou a presidente da Comissão de Atletas do COI e, no mesmo ano, integrou o governo do seu país, como ministra da Juventude, Desporto, Artes e Recreação. Para além desses cargos, foi vice-presidente da Federação Internacional de Surf entre 2017 e 2024, representou os atletas do COI na Agência Mundial Antidoping (WADA, na sigla em inglês), de 2012 a 2021, e foi membro da comissão de atletas da mesma organização entre 2014 e 2021.
Antes de Coventry ter sido eleita presidente do COI, a entidade incluiu oficialmente, esta quinta-feira, o boxe no programa olímpico para Los Angeles, em 2028, numa votação por unanimidade. Inicialmente, o comité olímpico preteriu a modalidade porque tinha pedido às federações nacionais para criarem uma nova federação mundial que substituísse a IBA, mas acabou por reconhecer a World Boxing, a nova organização global do desporto, que foi lançada em 2023. Ainda assim, o COI só vai autorizar a participação dos atletas das federações nacionais que eram membros da World Boxing no início do ciclo de qualificação olímpica.
Boxing confirmed for @LA28! ????
The 144th IOC Session has approved its inclusion in the sports programme for the Olympic Games Los Angeles 2028.
Learn more ⬇️https://t.co/xH2JSDhF49 pic.twitter.com/9XG6EISyy8
— IOC MEDIA (@iocmedia) March 20, 2025