Habituados à revolta do mar, este sábado os galegos saíram de casa para rebentar uma grande onda de indignação contra a empresa portuguesa Altri, que quer criar uma fábrica de celulose na pequena localidade de Palas de Rei, nos arredores de Lugo.

Não é a primeira manifestação contra este empreendimento, mas a mobilização de milhares de dezenas de pessoas em A Pobra do Carmiñal sustenta a tese defendida por Pilar Naveira, de uma associação de moradores de Ulloa: A Altri “pode ter licença administrativa, mas nunca terá licença social, isso é cem porcento seguro”.

A contabilização dos números diverge — a organização fala em 50 mil, a polícia em 20 mil –, mas as imagens de mais de 500 de barcos na Ría de Arousa, entre as províncias da Corunha e de Pontevedra, evidencia a oposição de grande parte da sociedade galega ao projeto que recentemente recebeu ‘luz verde’ ambiental para avançar com a construção da fábrica.

Enquanto soavam as sirenes das embarcações, por terra chegavam à vila piscatória autocarros e carros recheados de pessoas para participarem na manifestação, apesar do alerta laranja para ondas de até oito metros que vigora na Galiza.

Face ao mau tempo, a Junta da Galiza (o governo regional) advertiu as pessoas e tentou desmobilizar a presença na manifestação. O PP, histórico líder da região, foi mesmo o único partido que não marcou presença nos protestos, escreve o El País.

O partido foi, a par da empresa portuguesa, o principal visado nos protestos pela política ambiental que pode colocar em risco a sustentabilidade da região. Os protestos também se dirigiram à reabertura de uma mina de cobre na Corunha, considerada um “projeto estratégico” por Alfonso Rueda, líder do PP na Galiza, em 2024.

“Altri não” ou “Altri mata, a mina remata”, eram os principais pregões das milhares de pessoas presentes no local, um dia depois do Governo galego ter pedido redobrados cuidados “com as medidas de segurança em qualquer atividade no mar” e insistido no “afastamento de zonas costeiras”.

As intenções dos setores afetados falou mais alto que os pedidos políticos e mais de uma hora depois do arranque da manifestação, ainda chegavam pessoas à localidade de 9200 pessoas. A ligação ao mar esteve sempre presente nos protestos, sobretudo pelo facto, sempre recordado por ambientalistas, da fábrica da empresa portuguesa precisar de consumir 46 milhões de litros por dia — volume que equivale ao consumo atual de toda a província de Lugo.

A fábrica de celulose vai produzir, com madeira de eucalipto, até 400 mil toneladas de celulose solúvel e vai devolver 30 milhões de litros de águas residuais depois de serem tratadas — o que contribuirá, segundo ambientalistas — para o aumento da temperatura da água na ria.

O movimento popular tem tido o apoio de várias personalidades, desde o arquiteto britânico David Chipperfield, até ao cantor Manu Chao. Ana Pontón, do Bloco Nacionalista Galego, exigiu que Rueda “retifique” a sua posição sobre a Altri porque “o PP só acerta na Galiza quando se corrige”. A líder da oposição, citada pelo El País, considerou este projeto “uma bomba ambiental”.

Face aos elogios que o PP faz à empresa portuguesa, Pontón questiona: “Se o projeto da celulose é tão bom, porque não o querem em Portugal?”. Os partidos da oposição aproveitam esta manifestação para atacar a ENCE, outra indústria semelhante que está instalada em Pontevedra, desde 1958, por ordem do Governo de Franco — cujo impacto ambiental também é criticado.