“Em 30 minutos pegamos em ti e chegamos ao destino”. “Se te interessar, fazemos-te cumprir o sonho americano”. São as descrições que aparecem em vários vídeos partilhados no TikTok — a mensagem será de alegados contrabandistas que tentam angariar clientes pelas redes sociais para levar imigrantes ilegais para os Estados Unidos.
Apesar de a veracidade dos vídeos (ou o produto que tentam vender) não ser confirmada pelas autoridades, um desses contrabandistas admitiu em declarações à Al Jazeera que a rede social chinesa tem sido essencial para o esquema.
“Temos os nossos fornecedores de pessoas estabelecidos há anos, mas agora trabalhamos muito no TikTok. Trazemos pessoas de locais onde não conseguíamos chegar antes, o negócio está a expandir graças ao TikTok”, disse Alejandro (nome fictício).
O conteúdo dos vídeos diverge: há animações com aviões, desenhos animados de carros a percorrer países em direção aos EUAl, imagens geradas por Inteligência Artificial que mostram pessoas a pé a caminho da fronteira, passagens aparentemente reais com migrantes a percorrer campos secos e a atravessar postos fronteiriços tranquilamente — o que está longe da realidade —, ou caminhos apertados em túneis.
Os mais simples mostram apenas uma imagem de um avião com texto a explicar o serviço e a dizer que o preço inclui comida, bilhetes, hotéis. Há ainda alguns em que aparecem supostos ‘clientes’ já nos EUA e a elogiar o serviço.
‘Clientes’ satisfeitos fazem vídeos a partir dos Estados Unidos
“Hoje, 12 de março, às 9h55, estamos em El Paso, Texas, graças ao Juan”, dizem dois homens num vídeo a que o El País teve acesso. “Olá. Hoje, 17 de março, chegamos a McAllen [cidade no Texas]. Muito obrigado aos nossos guias, às pessoas que nos acompanharam e nos trataram muito bem. Chegámos bem. Obrigado pela Coca-Cola”, dizia, sorridente, outra mulher num vídeo do TikTok citado pelo jornal espanhol.
A aplicação chinesa é a ferramenta que muitas pessoas utilizam para fugir à malha cada vez mais apertada do controlo anti-imigração de Donald Trump, desde que voltou a assumir funções na Casa Branca. Desde a tomada de posse do atual Presidente norte-americano, que o fluxo de pessoas sem documentos a passar a fronteira caiu drasticamente.
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As autoridades exibem os números que traduzem aparentemente a preocupação da administração Trump em dissuadir migrantes: em fevereiro de 2024 foram detidos 8.000 migrantes, um “mínimo histórico” que representa uma redução de 94% face ao mesmo mês de 2023.
O controlo das autoridades leva os ‘coiotes’ (termo popular usado para designar estes traficantes de pessoas na fronteira México-EUA) a improvisar soluções para manter o negócio vivo. As redes criminosas tentam combater o medo das pessoas — quer da atividade ilegal, quer do controlo norte-americano — com vídeos de testemunhos para transmitir confiança.
Algumas contas analisadas pelo El País tentam mesmo descrever a atividade como legal, mas não é possível verificar se as pessoas que dizem ter concluído a travessia estão mesmo nos EUA. De qualquer das formas, há um risco inerente à contratação destes serviços, como o atesta as centenas de cruzes anónimas colocadas perto da fronteira, em memória dos migrantes que morreram.
Como se de um banal negócio se tratasse, existe simpatia com os clientes. “Sim, meu irmão. Diga-me”, responde El Flako a uma mensagem do El País. “Até ao destino cobro 5000 [dólares] desde a Cidade do México. Se vais até Nova Iorque aumenta para 7000. Como garantia, só pagas 1000 quando for ter contigo. O resto pagas no destino”, explica numa breve troca de mensagens no Tik Tok.
Outro traficante com conta na aplicação dá valores diferentes para chegar a El Paso, no Texas: 6000 dólares por túnel; 7500 pela ponte, com papéis falsos; e mais 2500 a qualquer valor para uma viagem com destino diferente. “Quando queres viajar? Tenho bilhetes diários”, pergunta ainda.
O TikTok diz que o tráfico de pessoas é proibido na aplicação e que os casos detetados são todos reportados, mas a proliferação de contas de ‘coiotes’ contraria essa tese. A Organização Internacional para as Migrações, bem como as autoridades dos países fronteiriços, estão a par da utilização das redes sociais pelas redes criminosas.
O mercado, segundo um traficante ouvido pelo El País, também se adaptou à chegada de Trump — a procura por estes serviços baixou 80% nos últimos meses e os preços também.
Se, por um lado, os contrabandistas têm de recorrer a caminhos cada vez mais escondidos para escapar ao controlo das autoridades norte-americanas, por outro, publicitam os serviços ilegais numa rede social com alcance mundial.