Motivadas pela diferença que há entre a esperança média de vida de um animal de estimação e a de um humano, muitas pessoas têm procurado arranjar formas de prolongar a vida dos seus cães e gatos. Num investimento que é maior do que nunca, entre restrições calóricas e tratamentos hormonais (que podem influenciar o crescimento dos cães), há vários investigadores a tentar perceber como se pode prolongar a vida dos animais.

Os números citados pelo The Guardian mostram que, no Reino Unido, a indústria de suplementos para animais de estimação vale cerca de 230 milhões de euros, com o mercado geral de animais de estimação perto dos 180 mil milhões de euros. O crescimento é impulsionado, em parte, pelo aumento nos gastos com produtos farmacêuticos, testes de diagnóstico e contas veterinárias.

O campo de objetos associado aos animais já não se restringe às habituais coleiras ou trelas. Hoje em dia existem rastreadores de atividades para cães e gatos, coleiras inteligentes que recolhem dados do sono, camas com temperatura ajustável e aplicações para analisar as fezes dos animais. Não obstante, há ainda mais inovações, com o recente aparecimento de comprimidos e injeções para prolongar a vida dos animais.

Em São Francisco, a Loyal, uma startup de biotecnologia, já investiu mais de 130 milhões de euros para desenvolver os primeiros medicamentos disponíveis em larga escala para prolongar a esperança média de vida dos animais.

O pressuposto da investigação da empresa é simples: os cães maiores vivem, em média, menos que os mais pequenos. Ou seja, um chihuahua pode viver entre 12 e 2o anos, já um pastor alemão fica entre os 9 e os 13. Partindo desse dado, a Loyal tentou encontrar o que explica essa diferença. A resposta estará na IGF-1, uma hormona que controla o crescimento das células e que é encontrada em maior número nos cães com maior porte.

“Podemos discutir que ao criarmos cães maiores, em certa medida também criamos uma taxa de envelhecimento mais rápida para esses cães”, explica ao The Guardian Matt Kaeberlin, um biólogo e perito em longevidade.

“Portanto, recusar o IGF-1 quase definitivamente teria um efeito, se fosse administrado enquanto o cão era jovem. Todavia, é claro, acabaríamos com um cão pequeno. A questão é se [este tratamento] funcionará na meia-idade, quando o cão já tiver crescido. Mesmo que não funcione, deve ter um efeito no cancro [a IGF-1 estimula a multiplicação celular, que está ligada ao desenvolvimento de alguns tipos de cancro], que sabemos ser um grande assassino [de cães]”, acrescenta.

Certo é que à medida que os cães envelhecem, também aumenta a probabilidade de terem cancro, o que deixa a Loyal com “duas hipóteses de o seu sistema funcionar”.

De momento, a empresa tem três medicamentos em produção, dois para cães maiores e um para cães mais velhos — este último é o que está mais próximo de ter aprovação total da Food and Drug Administration (agência federal responsável pela promoção da saúde pública), depois de já ter recebido reconhecimento de “expectativa razoável de eficácia”, podendo ser prescrito nos EUA este ano.

Restrição calórica também pode ser uma alternativa

O tratamento hormonal que pode dar mais longevidade aos cães, além de torná-los mais pequenos, não é a única forma de promover o envelhecimento dos animais.

Outra forma que tem sido reconhecida nos últimos tempos é a restrição calórica. Segundo o The Guardian, num estudo de 14 anos em ambiente de laboratório, vários cães da raça labrador foram alimentados com menos 25% de comida que outros irmãos da mesma ninhada. Os cães que receberam menos alimentos — mas não estavam subnutridos — tiveram um aumento médio de 15% na expectativa de vida.

Kaeberlin destaca, todavia, que “há muitas consequências negativas que acompanham a restrição calórica”, pelo que defende que é bom, e aconselhável, controlar o peso e comida do seu cão, mas não restringir deliberadamente a alimentação que ingere.

Este perito é cocriador de um projeto que tenta perceber os efeitos da ripamicina nos cães. “Além da restrição calórica, é a intervenção para a qual há mais estudos pré-clínicos”, acrescenta.

A ripamicina já mostrou resultados positivos em vermes, fungos e ratos — neste último, conseguiu aumentar a expectativa média de vida em 25%. Certo é que o medicamento já é usado por humanos, nomeadamente por Bryan Johnson, empresário de Silicon Valley, que tem investido milhares de euros por ano para prolongar a sua vida, mas que teve que interromper o seu projeto por problemas de saúde.

Outras empresas, em vários países, têm desenvolvido testes genéticos para tentar aumentar a vida dos animais, mas os estudos, para já, não são conclusivos. Os peritos, por outro lado, entendem que tudo o que é bom para os humanos — dieta equilibrada, exercício, atividades no exterior e ter companhia e carinho — tem o mesmo efeito nos animais.